quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Face Humana do Apocalipse - conclusão

A Face Humana do Apocalipse - conclusão
Dr. José Carlos Ramos
Dezembro de 2013
            O Apocalipse foi escrito por alguém que desde a juventude foi um ardoroso seguidor de Jesus; seu nome era João, conhecido como o apóstolo do amor.
            Os dados biográficos de João, a exemplo de outras personalidades da igreja primitiva, aparecem esparsamente no Novo Testamento. Mateus o menciona apenas 4 vezes, Marcos 10 e Lucas 7. O quarto evangelho, o seu, menciona-o como o discípulo amado e como um dos filhos de Zebedeu.
            Ele era o mais jovem dos discípulos de Jesus. Alguns pensam que João não era muito estimado pelos demais, em vista de seu ambicioso desejo de ocupar o primeiro lugar no reino de Jesus. De fato, a cobiça, o amor à posição e à supremacia, e a avidez por promoção pessoal (Mt 10:35-37, 41) eram graves defeitos no caráter deste apóstolo. E não eram os únicos.
            Jesus o denominou, e a seu irmão Tiago, de “filhos do trovão”. Eram geniosos, impetuosos, fáceis de ressentimento e propensos à vingança (Lc 9:49-54).
            Por trás destes graves defeitos, porém, Jesus discerniu em João um ardente, sincero e amante coração. Embora muitas vezes repreendido pelo Mestre, apegava-se mais firmemente a Jesus, até que sua alma se amalgamou à dEle. Era o “discípulo que Jesus amava”, não porque Jesus não amasse os demais, mas porque mais efetivamente deixou-se dominar por esse amor, a ponto de ter a vida totalmente transformada. Em seu coração a chama da lealdade e devoção ardente tornaram-no um dos mais destacados apóstolos na igreja cristã. Entre Jesus e ele desenvolveu-se uma profunda amizade, mais intensa que em relação a outros discípulos.
            João abeberou-se tanto da Fonte, que alguns estudiosos e comentaristas de seu Evangelho creem que sua linguagem e estilo correspondem à linguagem e estilo de Jesus. Embora isso não seja provável, é indiscutível que João nos apresenta um quadro profundamente original e distintamente genuíno de Jesus. Ele percebeu que Cristo se encarnara para ser, unicamente Ele, uma perfeita revelação de Deus, em vista do íntimo e pleno conhecimento que tinha do Pai.
            Este fato despertou no apóstolo o anseio de adquirir um conhecimento de Seu Salvador tão íntimo e pleno quanto possível, e de se tornar assim uma autêntica testemunha dEle. Ele conseguiu lograr este grandioso ideal através de sua vida apostolar e de seus escritos. No último livro da Bíblia, por exemplo, ele nos oferece uma revelação final e surpreendente de Jesus. De fato, ninguém foi capacitado a exaltar melhor a Cristo que o apóstolo João, em que pese o fato de terem os demais apóstolos amado também a Jesus, e anunciado com todo o fervor as verdades concernentes a Ele.
            Se podemos considerar como sendo ele um dos dois discípulos de João Batista mencionados em João 1:35, teria ocorrido o seu primeiro encontro com Jesus quando o precursor, apontando para Este, proferiu pela segunda vez o clássico testemunho “eis o Cordeiro de Deus” (Jo 1:36). Tal testemunho transformou-os em discípulos de Jesus. Mas é possível que o conhecimento que João tinha de Jesus antecedesse esse momento, na base de seu provável parentesco com o Salvador. Uma comparação entre Mateus 27:56, Marcos 15:40 e João 19:25 parece indicar que a mãe de João se chamava Salomé, e que era irmã da mãe de Jesus. Este e João, portanto, eram primos. Esta linha de parentesco, mais o fato de que ele era um dos íntimos discípulos, tornaram-no o mais indicado para cuidar dela quando Jesus morresse, daí o Salvador dirigir-se a ele como o novo filho de Sua mãe (Jo 19:26, 27). Outro íntimo de Jesus, e também Seu primo, era Tiago, irmão de João. Mas sem dúvida Jesus sabia que não muitos anos depois Tiago seria martirizado (At 12:2). João, realmente, era a pessoa mais indicada para aquela nobre tarefa.
            O testemunho do Batista, entretanto, ensejou um encontro mais pessoal e decisivo para que João se tornasse um seguidor de Jesus, inclusive de forma definitiva quando, mais tarde, junto ao mar da Galiléia, foi convidado pelo Mestre para que O seguisse (Mt 4:21, 22).
            Cedo João, a exemplo de Pedro e Tiago, tornou-se íntimo discípulo de Jesus. Ele testemunhou a ressurreição da filha de Jairo (Mr 5:37), a transfiguração (Mt 17:1), e, mais de perto, a agonia do Getsêmani (Mt 26:37). Esteve “aconchegado” a Jesus na hora da ceia, e reclinou a cabeça em Seu peito (Jo 13:23-25). Do Getsêmani, acompanhou o Mestre até a sala do sumo sacerdote, de quem era conhecido, e dali até o Calvário onde permaneceu até Jesus expirar e ser retirado da cruz (18:15). Os episódios descritos ao pé da cruz (19:18-35) são tão vívidos e reais que só uma testemunha ocular poderia assim narrá-los.
            Na manhã da ressurreição correu na companhia de Pedro, a ver o sepulcro vazio (20:3-8). Em companhia dos demais, viu o Salvador ressurreto, inclusive logo após voltarem à pescaria (21:7, 8). Nesta ocasião, após o diálogo de Jesus com Pedro, concluído com a pergunta deste quanto ao destino de João, Jesus fez uma declaração que, mal compreendida, levou os discípulos a imaginarem que João permaneceria vivo até a segunda vinda (v. 23).
            Lucas registra a atuação de João na companhia de Pedro, na pregação do evangelho logo após o Pentecostes (At 3:1-11), ao ser aprisionado sob as ordens do Sinédrio (At 4), e na pregação em Samaria (8:14). Paulo afirma que ele era uma das colunas da Igreja apostólica (Gl 2:9).
            João foi, entre os apóstolos, aquele que mais viveu, chegando à idade avançada. Nesta época, por instigação dos judeus, foi aprisionado pelo imperador Domiciano que ordenou fosse ele atirado a um caldeirão de azeite fervente. Milagrosamente preservado por Deus, o imperador o deportou à ilha de Patmos onde recebeu as visões do Apocalipse. Domiciano reinou entre 81 e 96. Segundo a tradição, Nerva, sucessor de Domiciano, libertou-o, voltando para Éfeso onde terminou seu ministério e seus dias. Como um dos lances finais de seu ministério, João empenhou-se no combate às tendências gnósticas que pressionavam a Igreja na Ásia Menor, sob a influência dos ensinos de um herege chamado Cerinto. De fato, uma clara resistência a estes ensinos pode ser sentida em seu Evangelho e epístolas. O Apocalipse se opõe a eles indiretamente.
            Afirma-se que, estando João para morrer, perguntaram-lhe se tinha uma última mensagem a dar. “Amai-vos uns aos outros”, disse, e expirou.
            João é um vívido exemplo do que graça de Deus pode fazer por um homem possuidor de graves defeitos de caráter, mas que a ela se entrega sem reservas. A educadora Ellen G. White afirma em seu magnífico comentário da vida de Jesus, o livro O Desejado de Todas as Nações, às páginas 557 e 559:
                  Quando o caráter do Ser divino lhe foi manifestado, João viu suas próprias deficiências, e foi feito humilde pela revelação. Dia a dia, em contraste com seu próprio espírito violento, ele observava a ternura e longanimidade de Jesus e ouvia-Lhe as lições de humildade e paciência. Dia a dia seu coração era atraído para Cristo, até que perdeu de vista o próprio eu no amor pelo Mestre. O poder e ternura, a majestade e brandura, o vigor e a paciência que ele via na vida diária do Filho de Deus, encheram-lhe a alma de admiração. Ele submeteu seu temperamento ambicioso e vingativo ao modelador poder de Cristo, e o divino amor operou nele a transformação do caráter...
                  Uma transformação de caráter como a que se vê na vida de João é sempre o resultado da comunhão com Cristo. Pode haver marcados defeitos na vida de um indivíduo, contudo, quando ele se torna um verdadeiro discípulo de Cristo, o poder da divina graça transforma-o e santifica-o. Contemplando como num espelho a glória do Senhor, é transformado de glória em glória, até alcançar a semelhança dAquele a quem adora.
                        Ser semelhante a Cristo! Poderia haver experiência mais preciosa a ser desfrutada?

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