quinta-feira, 10 de abril de 2014

Jesus tinha esposa ou a mídia é casamenteira?

Rodrigo Silva   -   Fonte - Criacionismo 

Jesus teria sido casado? Essa pergunta varreu as redes de comunicação nas últimas horas devido a um fragmento antigo que parece desmentir a assertiva de que Jesus era solteiro. Tive acesso a uma cópia prévia do artigo da professora de Havard, Karen L. King (com contribuições de AnneMarie Luijendijk), que será lançado em Janeiro de 2013 na Harvard Theological Review. Nele a autora, de fato, apresenta um fragmento de papiro escrito em Copta e datado do 4º século d.C., e que traz um diálogo entre Jesus e Seus discípulos, no qual o Mestre usa a expressão “minha esposa”. Alguns noticiários (felizmente não todos) divulgaram de modo sensacionalista que teríamos aqui o primeiro indício de que, contrariando a posição oficial do cristianismo, Jesus teria, sim, Se casado com Maria Madalena. Será isso verdade? Vamos primeiramente ver o que diz o fragmento que mede 4 cm x 8 cm – algo pouco maior que um cartão de visitas.
No anverso, temos oito linhas incompletas com traços ilegíveis de uma nona linha e outras seis linhas podem ser lidas no verso. É importante, contudo, dizer que nem a autora nem eu somos especialistas em papirologia ou em língua copta, portanto, as conclusões tanto da Dra. Karen quanto as minhas são sugeridas após a avaliação técnica de outros expertos no assunto. Diz o texto:
Anverso:
1. “não [para] mim. Minha mãe me deu a vi[da...”
2. os discípulos disseram a Jesus: “[
3. negar. Maria é digna de... [alguns sugerem que o correto seria: “Maria não é digna de...]”
4. ...” Jesus disse a eles: “Minha esposa... [
5. ...ela  será capaz de se tornar um discípulo... [
6. Deixe os iníquos incharem... [
7. Quanto a mim, eu moro com ela de modo que... [
8. uma imagem [
Verso:
1. minha mã[e
2. três [
3. ... [
4. Diante do qual ...
5. traços de tinta ilegíveis
6. traços de tinta ilegíveis
Observações de papirólogos e linguistas
Como o papiro pertence à coleção particular de um anônimo, é difícil avaliar completamente sua procedência ou sua autenticidade. Contudo, muitos elementos apontam para a possibilidade maior de ser um texto verdadeiro, produzido na Síria ou mais provavelmente no Egito e datado do 4º século d.C. Não sabemos como o papiro chegou às mãos do colecionador nem em que condições foi adquirido.
Essas conclusões preliminares foram assinadas pelos Drs. Roger Bagnall, papirólogo e diretor do Instituto para Estudo do Mundo Antigo de Nova Iorque, e AnneMarie Luijendijk, da universidade de Princeton. Pelo menos dois outros especialistas, no entanto, colocaram em dúvida a autenticidade do papiro, baseados principalmente em algumas dificuldades gramaticais que foram posteriormente bem respondidas. Portanto, temos uma chance muito grande de estar diante de um documento autêntico. Novas pesquisas laboratoriais envolvendo a tinta do manuscrito poderão lançar maior luz sobre essas questões.
Observações da Dra. King
Não sabemos o gênero desse documento, nem quem o escreveu. Colocou-se o nome “Evangelho da Esposa de Jesus” (com a sigla em inglês GosJesWife) por mera identificação provisória sem a pretensão de que seja realmente um evangelho apócrifo ou que o título represente mesmo o cerne de seu conteúdo.
Pela análise textual, é mais provável que a Maria mencionada no texto seja Maria Madalena e não Maria mãe de Jesus, cuja referência aparece na primeira linha. Mas, a despeito disso, o fragmento não é, definitivamente, uma “prova” ou argumentação séria de que Jesus de Nazaré fosse casado. O papiro foi escrito muito tempo depois dos dias de Cristo, e mesmo que seja a tradução de um original que dataria do segundo século, ainda assim estamos tratando de uma fonte muito tardia que nada teria a ver com o real fundador do cristianismo.
Esse seria o mais antigo fragmento de manuscrito a mencionar que Jesus teria uma esposa e seu original deve datar da segunda metade 2º século d.C. (posterior ao ano 150), o que mostra que o assunto já estava em discussão naquele tempo. As razões da polêmica podem ser as mesmas que envolveram a questão do celibato e do domínio sobre as paixões carnais que começaram a ser debatidas com força no segundo século d.C., conforme vemos nos escritos de Clemente de Alexandria e outros.
Existem paralelos importantes entre esse texto e outros documentos como os evangelhos canônicos e o evangelho de Tomé. No entanto, trata-se de um fragmento inteiramente inédito, com um conteúdo ainda desconhecido e não inteiramente concordante com os outros textos até agora descobertos.

Minhas observações
Em primeiro lugar, achei tremendamente lúcidas as posições da Dra. Karen. Minha única nota de ceticismo fica por conta da afirmação taxativa da autora de que esse é o texto mais antigo a mencionar que Jesus teria uma esposa. As razões do receio nesse ponto são simples: primeiramente temos de acentuar que o texto encontrado data do 4º século d.C. É, portanto, conjectural a afirmação de que se trata de uma tradução de outro texto grego original mais antigo e que esse dataria do segundo século. Não há evidências adicionais para afirmar ou desmentir essa tese; é uma possibilidade, não certeza absoluta. Segundo: ainda que esse texto provenha do grupo de textos apócrifos surgido no 2º século, ele não pode ser considerado o mais antigo apenas por mencionar explicitamente a expressão “minha esposa”. Afinal, outros textos, como “o evangelho de Felipe”, ainda que de modo indireto, dão a entender que teria havido alguma relação marital entre Jesus e Maria, e não temos meios de saber qual seria mais antigo. Fora isso, concordo com as demais análises da Dra. King.
Mas é importante dizer que não há nada nessa descoberta ou nesse estudo que ameace a ortodoxia cristã. Muito menos que se trate de algo jamais conhecido pelos teólogos cristãos. Na verdade, o que temos é o eco de um grupo de cristãos dissidentes (a maioria da cidade de Alexandria, no Egito) que criaram um movimento chamado gnosticismo. A maioria dos especialistas acredita que esse movimento surgiu no fim do primeiro século, início do segundo. Alguns poucos autores, no entanto, estão começando a sugerir que raízes gnósticas já poderiam ser vistas nos dias de Paulo! Seja como for, era um movimento marginal e não a voz tradicional da Igreja Cristã primitiva.
Mas o que eles ensinavam? Sua doutrina é muito complexa para ser explicada em poucas palavras e eles eram multifacetados em muitos segmentos, cada um dizendo uma coisa diferente da outra. Contudo, em termos gerais, podemos dizer que eles foram muito influenciados pela filosofia helênica que dominou a cidade de Alexandria e tentaram moldar o cristianismo com base nessa filosofia. Aqui é importante esclarecer que a filosofia helênica tinha importantes diferenças em relação àquela outra filosofia grega que surgiu no 6º século a.C., com os pré-socráticos, e terminou com os tratados de Aristóteles. É claro que uma deu origem à outra e há muitas continuidades entre ambas, mas nessa nova fase havia exagerada mistura de filosofia com mitologia e misticismo religioso.
Os gnósticos eram cristãos que a princípio queriam tornar o cristianismo mais aceitável a seus compatriotas alexandrinos, especialmente os líderes e intelectuais do povo. Seu grande problema, porém, era que o cristianismo original, aquele pregado por Jesus e pelos apóstolos, chegava a ser patético diante dos olhos do mundo grego de Alexandria. Ideias como encarnação, ressurreição, morte expiatória numa cruz, etc. não tinham boa receptividade entre os pagãos. Eram rejeitadas antes mesmo de se iniciar um diálogo. Então o jeito foi adaptar o cristianismo para torná-lo mais aceitável e menos preconcebido. Em outras palavras, o que fizeram foi modificar a figura do Jesus histórico (isto é, aquele que realmente existiu e foi descrito nos primeiros evangelhos) criando um Cristo gnóstico, mais elegante e aceitável ao povo grego.
Esse novo Cristo, por exemplo, à semelhança de Sócrates e Platão, só ensinava por meio de diálogos. Era místico e não sentia dor, nem sofrimento de espécie alguma. Ele também trazia um ensino ou conhecimento secreto que somente pessoas iniciadas poderiam conhecer. Daí o nome “gnósticos”, que vem da palavra grega gnôsis, isto é, conhecimento. Com isso, dava-se um “jeitinho alexandrino” de explicar os ensinos menos aceitáveis de Jesus. Eles diziam que aqueles eram ensinamentos pueris dados para a multidão ignorante, mas o verdadeiro ensino fora dado, de modo secreto, apenas para os iniciados. Negou-se também a morte de Jesus na cruz, afirmando que quem teria morrido, na verdade, havia sido o homem Jesus, pois o espírito do Cristo teria voltado para o Pai, no pleroma superior, onde viveriam os espíritos mais elevados.
Foi nessa “onda” que surgiu também a necessidade de se criar uma esposa para Jesus de Nazaré, a fim de fazer jus às ideias de que espíritos evoluídos estavam sempre em pares (casais) e nunca sozinhos. O Cristo ou o Logos, que seria o espírito que teria dominado a mente do homem Jesus, também teria uma consorte, uma deusa chamada Sofia!

E assim vai a criatividade dos gnósticos, produzindo evangelhos tardios escritos mais de cem anos depois da morte de Cristo e que hoje chamados de evangelhos apócrifos. Como acentuou a própria Dra. King, esses textos não têm nada a ver com o Jesus histórico, isto é, aquele que viveu no início do primeiro século e fundou o cristianismo. Seu retrato, mais fiel está nos Evangelhos canônicos e nos demais livros do Novo Testamento que não se preocuparam em maquiar Sua imagem para troná-Lo mais aceitável ao judaísmo e/ou às exigências do mundo exterior.
Uma nota final: é tremendamente exagerada e anacrônica a leitura que alguns autores fazem dos evangelhos gnósticos afirmando que eles já discutiam, na antiguidade, o papel da mulher na religião e na sociedade. Nada seria menos verdadeiro. Tenho em minha casa o texto de todos os evangelhos apócrifos, e cruzando os dados desse fragmento com o que dizem outros textos, como o Evangelho de Tomé, por exemplo, o que percebo é que o contexto era a “posição de Maria Madalena entre os discípulos” e não a posição da mulher “em geral” entre a sociedade. Os gnósticos nem pensaram nisso.
Ademais, embora houvesse tradições judaicas que encorajassem o celibato, o casamento era visto como uma possibilidade igualmente abençoada (1 Qsa 1:4-10; Josefo, Antiguidades 18.1.5.21; Philo, Hipotética 11.14-). Além disso, em 1 Coríntios 7:9; 9:5 e em 1 Timóteo 3:2, Paulo defende o direito apostólico de ser casado e menciona os líderes da Igreja (Pedro, os apóstolos e os irmãos do Senhor) como casados. Ora, se Jesus fosse casado, a Igreja não teria motivos para esconder isso. Até o Apocalipse fala do casamento entre Cristo e sua Igreja, uma imagem proscrita, caso tentassem esconder um pretenso enlace entre Jesus e Madalena. Portanto, o completo silêncio da igreja primitiva sobre esse assunto nos leva a crer não que estavam escondendo uma verdade sobre o estado civil de Jesus, mas que Ele não era de fato casado. Por outro lado, a multiplicação de textos na segunda metade do segundo século sugerindo uma união marital com Maria Madalena só pode ser uma adaptação ou criação literária tardia que nada tem a ver com a verdadeiro Jesus de Nazaré.
(Rodrigo Silva é professor no Unasp, apresentador do programa Evidências, doutor em teologia, especialista em arqueologia bíblica e doutorando em arqueologia pela USP)
Nota: Li hoje no Twitter o seguinte (e gostei): “Contra fatos (mais de cinco mil manuscritos bíblicos) não há fragmentos.”[MB]

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