sábado, 16 de agosto de 2014

CRÔNICA: A morte e a morte de Eduardo Campos

A. Zarfeg

 Um texto primoroso. Vale a pena ler

CRÔNICA: A morte e a morte de Eduardo Campos 

 


CRÔNICA: A morte e a morte de Eduardo Campos 
Morre-se de tudo e de qualquer coisa. Para morrer, aliás, basta estar vivo – assegura o dito popular. Mas a gente vai vivendo, vai insistindo em, apesar de tantos perigos, porque a vida vale muito a pena ser vivida. Viver é o verbo mais gostoso de conjugar. Mais que verbo, é uma experiência. Mais que experiência, é uma aventura. Mais que aventura, é um milagre. Enfim, é uma arte – mistura de dom com (boa) vontade. Porque a vida nos dá a oportunidade de fazermos coisas e, assim, de fazermos a nós mesmos. Mais e sempre, até o momento derradeiro… quando, normalmente, já deu tempo de fazermos uma porção de coisas – mais boas que más, de preferência, de sorte que a morte pode chegar, na surdina, e levar o que temos de mais precioso: a vida. Quanta ilusão! A morte, na verdade, só abate uma parte ou uma terça parte de nós, porque, durante seu curso, a vida teve tempo de sobra para ramificar, de modo que, ao final, ficam os ramos que espalhamos por aí, contra os quais a morte não pode nada. Ramos de amizade, saudade, amor, hereditariedade, boa ação, bondade, alegria e família, contra os quais – repito – a morte pode muito pouco. Mas a morte de Eduardo Campos, que nos pegou de surpresa na manhã da última quarta-feira, vai levar um bom tempo para ser assimilada pelos brasileiros e, sobretudo, pelos familiares que continuam esperando que “ele vai chegar aqui a qualquer momento”. Como disse Renata Campos, a “sensação é de que a morte bateu na porta errada”. Ah, Caetana, como és imprevisível e terrível, a um só tempo, como uma rima sem elegância! Como és desprovida de todo e qualquer senso estético e de justiça! Em julho, em uma semana, tu nos arrebataste três escritores talentosos, a saber, João Ubaldo, Rubem Alves e Ariano Suassuna. Mas agora, Dama da Noite, além do talento, tu nos roubas uma parte significativa da esperança que nós, brasileiros, depositávamos – mais que numa urna – num futuro mais digno e decente deste país. Como diz a canção, estamos sós e nenhum de nós sabe aonde vai parar na infinita highway! Vivos e sem motivos, infelizmente. 
 
 [A. Zarfeg é poeta e jornalista baiano] 


Fonte - http://leniojornalismo.blogspot.com.br/2014/08

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