AS IMPLICAÇÕES DO PERFECCIONISMO
JÔNATAS LEAL Em geral, as pessoas entendem as consequências apenas como resultado de escolhas e ações. No entanto, o professor Richard Weaver demonstrou que as ideias exercem um impacto que muitos tendem a ignorar, inclusive no âmbito religioso e teológico.¹ À primeira vista, certas discussões podem parecer irrelevantes e improdutivas. Contudo, com o passar do tempo, e à medida que ultrapassam as fronteiras dos seminários e concílios, elas passam a influenciar diretamente a vida da igreja. De fato, uma teologia equivocada leva, inevitavelmente, a práticas igualmente equivocadas; e práticas equivocadas podem causar danos irreversíveis.
As controvérsias em torno da teologia da última geração (TUG) e do perfeccionismo ilustram bem essa dinâmica. A adoção de concepções perfeccionistas traz implicações significativas tanto para a vida espiritual da igreja quanto para a de seus membros. Além disso, essas implicações se relacionam intimamente com a identidade e a missão da Igreja Adventista enquanto remanescente do tempo do fim. Antes de examiná-las, porém, são necessárias breves considerações sobre o perfeccionismo e sua trajetória histórica.
RAÍZES HISTÓRICAS
A TUG encontra suas origens no pensamento de Edward Irving (1792–1834), conhecido nos círculos calvinistas da Escócia e Inglaterra por sua visão peculiar sobre a natureza humana de Cristo. Ele foi o pioneiro entre os que argumentam, contra as evidências bíblicas, que Jesus nasceu com a natureza moral de Adão após a queda, tendo, dessa forma, as mesmas inclinações ao pecado que o restante da humanidade. Irving afirmou: "Se for dito que a natureza humana de nosso Senhor diferia em alguma de suas propriedades da nossa [...] então isso pode ser chamado de humanidade suposta, hipotética ou imaginária; mas a humanidade que eu entendo e conheço, não é.”²
A compreensão equivocada a respeito da natureza humana de Jesus está na raiz da TUG. Com base nas Escrituras, a natureza humana de Cristo não é hipotética ou imaginária, mas única. Jesus veio "em semelhança da carne pecaminosa” (Romanos 8:3). Outras passagens reafirmam que era imprescindível que Cristo Se tornasse "semelhante aos seres humanos" (Filipenses 2:7). Nesse sentido "Jesus era semelhante aos outros humanos apenas por ter um corpo físico afetado pelo pecado, mas não era igual a eles, pois somente Ele era sem pecado em Seu relacionamento espiritual com Deus."³
A confusão em torno da natureza humana de Jesus frequentemente decorre de uma compreensão incompleta do pecado. À luz da Bíblia, o pecado deve ser considerado tanto em termos de comportamento (atos pecaminosos) quanto de relacionamento (condição). Essencialmente, o pecado é um relacionamento rompido com Deus.
Em Gênesis 3, o casal desobedeceu ao Criador (comportamento) porque, antes, passou a duvidar Dele (relacionamento). O pecado, portanto, implica separação de Deus. Ora, o relacionamento entre o Filho e o Pai jamais foi quebrado; se assim fosse, Jesus não poderia ser a ponte entre Deus e a humanidade. Nesse sentido, "Ele era semelhante a nós por ter nascido com limitações físicas humanas, mas não era igual a nós, porque não nasceu pecador nem com o relacionamento rompido com Deus."⁴
Isso não conferiu a Cristo qualquer vantagem. Ao contrário, as tentações que sofreu foram ainda mais intensas em razão de Sua natureza santa. Em última instância, Ele veio salvar a humanidade como o segundo Adão, erguendo o mundo do estado em que o primeiro homem havia caído. Por isso, convém manter em mente que "Jesus foi tanto nosso substituto quanto nosso exemplo, nessa ordem. Há prioridade do substituto sobre o exemplo, assim como há prioridade de Deus sobre o homem e de Salvador sobre os salvos"⁵ No adventismo, Ellet Waggoner (1855–1916) é considerado o precursor da TUG. Em 1898, ele declarou: “Antes que venha o fim, e no tempo da vinda de Cristo, deve haver um povo na Terra, não necessariamente grande em proporção ao número de habitantes da Terra, mas grande o suficiente para ser conhecido em toda a Terra, no qual 'toda a plenitude de Deus' se manifestará, assim como se manifestou em Jesus de Nazaré.”⁶ Em sua concepção, Deus Se expôs ao risco ao deixar a vindicação de Seu caráter no conflito cósmico com Seus filhos.
As ideias de Waggoner foram assimiladas e desenvolvidas por outro influente teólogo adventista, Millian Andreasen (1876–1962). Em seus escritos das décadas de 1930 e 1940, ele sustentou que a purificação do santuário celestial, iniciada em 1844, exigia uma purificação moral correspondente dos fiéis na Terra. Também defendeu que, como a última geração viverá, em determinado momento, sem a intercessão de Jesus, terá de refletir de maneira perfeita o caráter de Cristo.
Nessa perspectiva, o remanescente do tempo do fim reivindicará o caráter de Deus e demonstrará diante do Universo que Satanás estava errado. Segundo Andreasen, “assim será com a última geração de homens que viverem na terra. [...] Eles demonstrarão que é possível viver sem pecado".⁷ Desse modo, “na última geração, Deus será vindicado. Através do remanescente, Satanás será derrotado".⁸
Segundo Andreasen, esse cenário seria possível porque a natureza humana de Cristo seria igual à nossa, compartilhando as mesmas propensões para o mal.
IMPACTO TEOLÓGICO
Do ponto de vista teológico, o impacto da TUG pode ser observado a partir daquilo que ela tende a minimizar. Em primeiro lugar, diminui os efeitos do pecado e subestima sua natureza. Frequentemente, trata o pecado como comportamento, em detrimento de sua essência e dimensão relacional.
Contudo, a Bíblia indica com clareza a existência de propensões inatas para o mal (Salmo 51:5; Romanos 3:10-12; 7:24). Em nossa condição pecaminosa, nem mesmo os atos mais sinceros de devoção podem ser aceitos sem a intercessão de Cristo. Ellen White afirmou que “os cultos, as orações, o louvor e a penitente confissão dos pecados sobem dos crentes fiéis como incenso ao santuário celestial, mas, ao passar através dos corruptos canais da humanidade, ficam tão maculados que, a menos que sejam purificados por sangue, jamais podem ser de valor perante Deus".⁹ Se Cristo tivesse nascido com nossa natureza pecaminosa, Ele também necessitaria de um Salvador.
Em segundo lugar, a TUG minimiza a vitória de Cristo na cruz (1 Coríntios 15:55-57). Ellen White, ao comentar os efeitos da morte de Jesus, declarou que “Satanás sabia que havia sido derrotado em seu propósito de frustrar o plano de salvação”¹⁰ Embora os méritos do sacrifício de Cristo sejam aplicados no santuário celestial, a expiação realizada na cruz é completa e suficiente. A vida perfeita da última geração não constitui condição para a derrota de Satanás.
Em terceiro lugar, a TUG minimiza a natureza da justificação em seu sentido forense, isto é, como declaração imediata de inocência. Nesse contexto, a salvação consiste em um ato jurídico que independe da obra subsequente da santificação (Romanos 5:9).
Embora justificação e santificação estejam intimamente relacionadas, em uma relação de causa e efeito, não devem ser unificadas sem a devida distinção. Enquanto a justificação é um ato instantâneo, a santificação constitui a obra de toda a vida. Ambas, contudo, dependem da fé.
Em quarto lugar, a TUG minimiza a vitória de Deus no grande conflito. Talvez esse seja seu aspecto mais peculiar. A vitória divina não depende da fidelidade de Suas criaturas. Nas cenas que retratam o desfecho do grande conflito no livro do Apocalipse, somente Deus é exaltado como autor da salvação (Apocalipse 7:10; 19:1, 2).
Refletindo sobre a afirmação bíblica “seja Deus verdadeiro, e todo ser humano, mentiroso” (Romanos 3:4), John Peckham afirma: “Não se infere que, se os seres humanos rejeitarem a Deus, Ele deixe de ser justo. As más decisões humanas não afetam a justiça divina. Ainda que todos os seres humanos rejeitassem a Deus, isso não alteraria o fato de que Deus é justo.”¹¹
Finalmente, a TUG minimiza a experiência presente da salvação. O apóstolo Paulo se referiu à salvação no passado (1 Timóteo 1:9), no presente (1 Coríntios 1:18) e no futuro (Romanos 5:9). Contudo, a partir de Cristo (Mateus 12:28; Lucas 17:20, 21), os escritores do Novo Testamento enfatizam com frequência a realidade da salvação que, pela fé, os crentes podem experimentar agora (João 5:24; 2 Coríntios 5:17; Colossenses 1:13, 14).
A certeza da salvação não decorre da autoconfiança fundada na capacidade humana, nem do autoengano expresso na máxima “uma vez salvo, salvo para sempre”, tampouco da heresia do universalismo prático, segundo a qual, ao fim, todos serão salvos, independentemente de suas decisões pessoais. Ao contrário, a realidade da vida eterna já se manifesta na vida daqueles que, pela fé, aceitam os méritos de Cristo e permitem que o Espírito Santo opere neles uma obra de transformação. Esses possuem a vida eterna hoje (1 João 5:12, 13) e já estão assentados nas regiões celestiais (Efésios 2:6).
IMPLICAÇÕES PRÁTICAS
Do ponto de vista prático, os desdobramentos da TUG se manifestam na distorção da identidade e da missão adventista. No que se refere à identidade, os adeptos dessa teologia frequentemente enfrentam ansiedade – tanto por não saberem se fazem parte da última geração quanto por carregarem a enorme responsabilidade de refletir a perfeição divina.
Ao impor a si mesmos expectativas irreais, os perfeccionistas vivem em constante obsessão. Na tentativa de serem impecáveis, muitos chegam ao extremo de se preocupar com a marca da água que bebem ou o tipo de tecido que vestem. Como resultado, experimentam desespero diante da incapacidade de atingir o padrão esperado. Vivendo sob pressão contínua, lutam contra a baixa autoestima, sentindo-se permanentemente aquém do alvo idealizado.
Contudo, os desdobramentos mais perigosos da TUG são o excesso de autoconfiança e o autoengano. Mesmo que fosse possível, em nossa condição humana, viver uma vida perfeita, como alguém poderia saber quão próximo ou distante está da perfeição? Que critério objetivo poderia definir isso?
O perigo do excesso de autoconfiança é ilustrado na parábola do publicano e do fariseu, em que este último se gloria por não ser tão imperfeito quanto o desprezado publicano (Lucas 18:9-14). O perdão, ressalta a narrativa, é alcançado por aquele que reconhece sua condição pecaminosa. Quanto mais próximo de Cristo, maior é a clareza do pecador sobre suas limitações.
Ellen White destacou: “Quanto mais perto você estiver de Jesus, mais cheio de faltas se sentirá aos próprios olhos, pois sua visão ficará mais clara, e suas imperfeições serão vistas em amplo e distinto contraste com a natureza perfeita de Cristo. Isso é prova de que os enganos de Satanás perderam seu poder, e que a influência vivificante do Espírito de Deus o está despertando.”¹²
Além de comprometer a identidade, a TUG afeta diretamente a missão adventista. Quando a vida cristã passa a ter como foco a busca pela perfeição, o ser humano torna-se o centro da missão. No entanto, o verdadeiro conteúdo da missão é Jesus. Em todas as gerações, Deus chamou Sua igreja para salvar o mundo, não Seu caráter. John Peckham observa: “O papel dos seres humanos neste drama cósmico não é acrescentar nada à vitória de Deus, mas desempenhar um papel missionário de proclamação e testemunho da verdade do caráter inquestionável de Deus e da lei do amor, espalhando as boas-novas e refletindo o caráter de Deus como imitadores do amor de Cristo, como um meio de ajudar as pessoas a reconhecerem a bondade, o amor e a justiça de Deus."¹³
PERSPECTIVA EQUILIBRADA
À medida que a igreja rejeita, de forma adequada, a TUG e o perfeccionismo como ideias antibíblicas, os seguintes aspectos devem ser mantidos em mente.
Em primeiro lugar, nunca se deve minimizar a seriedade do pecado. O salário do pecado é a morte (Romanos 6:23). A ira divina contra o pecado é um dos temas mais recorrentes nas Escrituras. Deus não pode tolerar as consequências desastrosas do mal. Como o juízo muitas vezes é postergado, o pecador pode se sentir impune, cultivando a ilusão de que o pecado é menos sério hoje do que foi ontem (Eclesiastes 8:11). Contudo, o pecado acabará por destruir todos aqueles que a ele se apegarem (Hebreus 10:26, 27).
Em segundo lugar, é preciso enfatizar a busca por uma vida de santidade e conformidade com a vontade de Deus. A incapacidade de viver uma vida impecável diante do Senhor não deve levar as pessoas a se conformarem com o pecado. Cristo salva do pecado, e não no pecado. Ele diz ao pecador: "Vá e não peque mais” (João 8:11). Buscar uma vida de perfeita conformidade com a vontade de Deus não é perfeccionismo; perfeccionismo é pensar que alguém, um dia, será capaz de alcançá-la plenamente. A perfeita santidade é um alvo sempre em movimento, que os filhos de Deus são desafiados a perseguir continuamente.
Em terceiro lugar, é necessário preservar a correta perspectiva da obediência na vida cristã. Nesse ponto, o conselho de João deve ser lembrado. Por um lado, ele afirma que "se dissermos que não cometemos pecado, fazemos Dele [de Deus] um mentiroso” (1 João 1:10). Por outro, declara que “aquele que diz: 'Eu o conheço', mas não guarda os Seus mandamentos, esse é mentiroso" (1 João 2:4). Discípulos que amam a Jesus são obedientes a Ele porque confiam em Sua sabedoria e em Seu amor (João 14:15, 21). De fato, a obediência genuína não é um checklist de “faça isto” e "não faça aquilo" para se proteger de Deus no grande conflito. Ela flui naturalmente de um coração que ama ao Senhor. Assim, trata-se do fruto legítimo da experiência salvífica no presente. Apenas os salvos são chamados à obediência (Êxodo 20:2).
Em quarto lugar, é oportuno reafirmar a importância do autoexame espiritual. O apóstolo Paulo recomendou: “Examinem-se para ver se realmente estão na fé; provem a si mesmos" (2 Coríntios 13:5). Essa também foi a súplica de Davi: “Examina-me, Senhor, e prova-me; sonda o meu coração e os meus pensamentos" (Salmo 26:2). Na experiência cristã, há uma tensão entre a alegria da salvação e a tristeza pelo pecado. A tristeza pelo pecado, muitas vezes vivenciada na prática do autoexame, conduz ao arrependimento, à confissão e ao abandono do pecado, os quais, por sua vez, conduzem à alegria da salvação. É acerca dessa tristeza que leva à alegria que Paulo escreveu aos cristãos em Corinto: "Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte” (2 Coríntios 7:10).
Finalmente, o chamado à perfeição não se destina apenas à última geração. Em realidade, Abraão já havia sido desafiado por Deus: "Ande na Minha presença e seja perfeito" (Gênesis 17:1). A TUG não apenas distorce a definição de perfeição, mas também seu tempo e sua ocasião.
A afirmação de Cristo - "Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no Céu” (Mateus 5:48) – é um chamado para amar como o Senhor ama. Não se trata de um chamado restrito à última geração, mas dirigido a Seus discípulos em todos os tempos. Além disso, Jesus é um alvo que, por assim dizer, permanece sempre adiante, conduzindo ao crescimento contínuo: "Cristo é nosso modelo, o perfeito e santo exemplo que nos foi dado para que o seguíssemos. Jamais poderemos igualar o Modelo; podemos, porém, imitá-Lo e assemelhar-nos a Ele de acordo com nossa capacidade". ¹⁴
JÔNATAS LEAL é reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia, na sede sul-americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia
Revista Adventista - Abril 2026 - Pag. 8 - 14
Referências
¹ Richard Weaver, As Ideias Têm Consequências (É Realizações, 2012).
² Edward Irving, The Orthodox and Catholic Doctrine of Our Lord's Human Nature (Ellerton and Henderson, 1830) citado por Whidden, "What Is Last Generation Theology?", em Jiří Moskala e John Peckham, God's Character and the Last Generation (Pacific Press, 2018), p. 24.
³ Benjamin Rand, "What Human Nature Did Jesus Take? Unfallen", Ministry, disponível em: https://www.ministrymagazine.org/archive/1985/06/what-human-nature-did-jesus-take-unfallen.
⁴ Rand, "What Human Nature Did Jesus Take?"
⁵ Ibid.
⁶ E. J. Waggoner, "The Sanctuary of God", Present Truth, 8 de dezembro de 1898, p. 774.
⁷ Millian L. Andreasen, The Service of the Sanctuary (Review and Herald, 1947), p. 302.
⁸ Andreasen, The Service of the Sanctuary, p. 315.
⁹ Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (CPB, 2022), v. 1, p. 290.
¹⁰ Ellen G. White, Signs of the Times, 23 de setembro de 1889.
¹¹ John Peckham, "The Triumph of God's Love", em God's Character and the Last Generation, p. 280.
¹² Ellen G. White, Caminho a Cristo (СРВ, 2024), p. 41, 42.
¹³ Jiří Moskala e John Peckham, God's Character and the Last Generation, p. 277.
¹⁴ Ellen G. White, Para Conhecê-Lo (CPB, 1965), 16 de setembro.