Nacionalização do Regime Alimentar
TANTO a Bíblia como os Testemunhos não são tratados metafísicos, meros devocionários, ou escritos que só tratem de coisas de interesse eterno. É bem certo que esses temas aí se encontram em abundância, e são, não há dúvida, os mais necessários ao homem, em sua dolorosa peregrinação terrestre. Mas a Bíblia e os Testemunhos interessam-se também nas coisas que concernem à vida passageira que nos toca por sorte neste mundo.
Assim é que, por exemplo, o próprio Jesus, na oração mais formosa e mais concisa e completa que possa existir, ensinou-nos a pedir "o pão nosso de cada dia." E nos Testemunhos a irmã White discorre muito sobre as nossas necessidades materiais, a ponto de dizer, por exemplo, que num pão bem preparado e bem assado existe mais religião do que num sermão.
De maneira que as necessidades temporais, quando não prejudiquem a conduta espiritual, podem e devem fazer parte de nossas cogitações. É próprio orarmos pelo pão material, e trabalharmos arduamente para que não falte em nossa mesa, e o possamos repartir com os pobres que nos rodeiam.
"Pão" não é só o que fazemos de farinha ou fubá. É tudo que comemos para nosso sustento. É nossa mesa, nossa alimentação. E aqui há ainda entre nós grande obra a realizar. Desaconselhamos, com justa razão, os alimentos cárneos, as más combinações, os pratos por demais complicados. Na ânsia de aperfeiçoarmos nosso cardápio, recorremos muitas vezes (ou julgamos que deveríamos recorrer) a pratos exóticos, caríssimos, fora do alcance da quase totalidade dos membros e dos obreiros.
Assim é que vemos em nossas publicações e ouvimos em reuniões e aulas sobre o magno assunto, instruções e receitas em que figuram ingredientes os mais raros entre nós, frutas as mais inalcançáveis por nossa bolsa. Uma nossa revista, dedicada especialmente aos obreiros, recomenda, entre outras coisas menos exóticas, por exemplo, "cerejas com pêssegos em fatias... Molho de maçãs nas passas de uvas ou frutas secas retalhadas, com tâmaras... Ameixas ou outra fruta seca. Maçãs assadas são sempre benquistas nos desjejuns, e também o molho de maçãs... Não é sempre necessário servir cereal cozido em tijela com leite ou nata; procure, para variar, servi-lo com nozes moídas ou retalhadas, fazendo pequenos pastéis que se deixam tostar no forno... Se você é amigo de açúcar nas sopas de cereais, experimente usar passas, tâmaras ou outras frutas..." (O Ministério Adventista, nov. e dez. de 1959.)
Tudo muito bonito, e sem dúvida muito gostoso. Muito apropriado, também, para outro hemisfério, que não o nosso. Mas existirá entre todos os nossos leitores algum felizardo que consiga outra coisa que não "ver com os olhos e lamber com a testa" essas iguarias?
Em umas aulas, aliás muito interessantes e úteis, ministradas sobre a arte culinária em uma de nossas grandes igrejas, distribuiu-se um cardápio-modelo, para uma semana. Muito bonito, também esse. Pratos excelentes. Mas... as maçãs não perdoavam um dia sequer. Lá estava: maçã, maçã, maçã, maçã, maçã, maçã, maçã — sete vezes.
Ora, tudo isso, acreditamos, não é resultado de pedantismo, ou desse malfadado esnobismo que leva, por exemplo, as quitandas de centro de cidades grandes a exibirem as mais caras frutas estrangeiras, e se envergonharem de vender mamão, banana ou manga. Deve ser apenas ausência de maiores conhecimentos de nutricionismo, ou melhor, carência de vozes autorizadas para nos instruir e orientar. Não é, também, que nos faltem autoridades capazes disso. Tão atarefados se encontram, porém, nossos médicos e nutricionistas na solução de problemas talvez mais importantes e mais urgentes, que ainda não tiveram tempo de se dedicar ao estudo do problema alimentar nosso, adventista e brasileiro.
Certo, ninguém negará que temos, neste abençoado Brasil, recursos iguais, se não superiores aos de outros países, em matéria de artigos de alimentação capazes de satisfazer a todos os requisitos da nutrição suficiente, racional e sadia.
A um leigo no assunto, falece conhecimento e autoridade para recomendar se substitua a maçã pela banana, a cereja pela jabuticaba ou a tâmara pelo mamão. Mas há de haver, em nosso mercado, gêneros e frutas mais que adaptados a substituir todos os gêneros e frutas estrangeiros.
Nozes européias? — E os nossos cocos, de tantas espécies? nossa castanha do Pará, nossa castanha de caju, nosso pinhão, nosso humilde e desprezado amendoim?
Maçãs, cerejas, ameixas, tâmaras, passas? — E as nossas bananas (dezenas de espécies), mamão, abacate, manga, laranja, abacaxi, melancia, melão, jabuticaba, goiaba, pitanga, genipapo, mangaba, marmelo, romã, tangerina, fruta-pão, fruta de conde, sapota, jambo, graviola, caju, lima, carambola, amora, ingá, jaca, assai, maracujá, caqui, tamarindo, cambucá, abio, ubaia, araçá, pitomba, grumixama, guabiroba, jatobá?
Sim, vivemos num país abençoado, em que medram nativas, ervas ricas de vitaminas como o caruru, a serralha, a beldroega e a azedinha —
Revista Adventista. - Julho 1960 - Pg. 1