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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Por que Deus não destruiu Satanás?

 

Por que Deus não destruiu Satanás?

Pag. 21

As implicações do plano divino para lidar com o mal

CLINTON WAHLEN

Temos a tendência de pensar que, se Deus tivesse destruído Satanás imediatamente, não teria havido pecado nem sofrimento ao longo dos séculos. Contudo, se Deus tivesse agido dessa forma, outros anjos poderiam ter passado a duvidar da bondade do Criador.

Além disso, é importante lembrar que Deus criou Lúcifer (Isaías 14:12) – e não Satanás –, cujo nome, em hebraico, significa "estrela da manhã” ou “portador de luz”. Ele era um anjo resplandecente, que teve o privilégio de permanecer mais próximo do trono de Deus como um “querubim da guarda" (Ezequiel 28:14). O Senhor o descreveu como “cheio de sabedoria", "perfeito em formosura” e “perfeito nos seus caminhos, desde o dia em que foi criado, até que se achou iniquidade em você” (v. 12, 15). Infelizmente, o coração de Lúcifer encheu-se de orgulho (v. 17), a ponto de cobiçar o trono de Deus (Isaías 14:13, 14). Ao alimentar inveja e ciúme em seu coração, fez de si mesmo o diabo.

Desde o princípio, o Criador estabeleceu um Universo fundamentado no amor que procede de quem Ele é (1 João 4:8). O amor não pode existir sem liberdade, pois o verdadeiro amor jamais pode ser imposto. Assim, os seres inteligentes são sempre livres para escolher um caminho diferente. Mas por que, então, Deus não criou simplesmente seres que Ele sabia que permaneceriam fiéis?

Se Deus tivesse feito isso, haveria apenas a aparência de liberdade. Ele não poderia permanecer fiel ao Seu caráter se o livre-arbítrio fosse, em realidade, uma ilusão (2 Timóteo 2:13). Em vez disso, Deus previu que a única maneira de lidar com a rebelião do mais elevado anjo do Céu – de modo que o pecado jamais surgisse novamente – seria permitir que as consequências do pecado se manifestassem, ao mesmo tempo em que Seu amor fosse revelado de forma mais plena no sacrifício do Filho.

No Éden, Satanás insinuou que Deus estava retendo algo bom de Suas criaturas. Por meio da serpente, disse a Eva que, ao comer do fruto proibido, seus olhos se abririam e ela seria como Deus, conhecendo o bem e o mal (Gênesis 3:5). Ele contou uma mentira semelhante aos seres celestiais, afirmando que Deus não tinha em vista o melhor interesse deles, Sua lei era desnecessariamente restritiva e os anjos possuíam sabedoria suficiente para guiar a si mesmos (cf. João 8:44). Se Deus tivesse destruído Satanás imediatamente, não teria respondido a essas mentiras, mas teria reforçado o argumento do anjo rebelde.

Em vez disso, era necessário tempo para que os resultados da malignidade de Satanás se tornassem evidentes, a fim de que todos reconhecessem as terríveis consequências de seu orgulho e egoísmo. A morte de Cristo na cruz não apenas revelou o amor extraordinário de Deus e Sua disposição de fazer tudo o que fosse possível para nos salvar, mas também confirmou a justiça de Sua lei e de Seu governo, desmascarando as mentiras do diabo e provando que o caminho Dele é sempre o melhor.

CLINTON WAHLEN é diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica


Revista Adventista - Março 2026 - Pg 21

domingo, 16 de agosto de 2026

Sábado no tempo do fim

                     Sábado no tempo do fim     Pags. 14 a 17

Reflexões sobre o papel escatológico do quarto mandamento

ÁNGEL MANUEL RODRÍGUEZ


A escatologia adventista confere ao quarto mandamento um papel significativo pouco antes da vinda de Cristo. Essa ênfase escatológica específica levanta pelo menos uma questão: quais são os fundamentos que nos permitem atribuir essa importância ao sábado? A seguir, apresento algumas sugestões que podem ser úteis para responder à nossa pergunta. Essas ideias pressupõem o entendimento da narrativa do querubim celestial caído (Isaías 14:12-14; Ezequiel 28:12-19), que desafiou a integridade do caráter divino (cf. Gênesis 3:4, 5; João 1:8-11) e buscou ser como Deus, afirmando ser um objeto legítimo de adoração (Mateus 4:8-10).

O AMOR DE DEUS

Embora seja mencionado como lei, o sábado confirma a veracidade do evangelho eterno e nos incentiva e ordena sua lembrança. O quarto mandamento é o único que cita Deus explicitamente, referindo-se às Suas duas obras mais importantes: criação (Êxodo 20:8, 11) e redenção (Deuteronômio 5:15).

Quais são as semelhanças entre criação e redenção? Há muitas, mas citarei apenas algumas. Elas são resultado da obra do Filho de Deus (João 1:1-3; 14; Romanos 3:23, 24), o que exige uma interpretação cristológica de ambas (cf. Colossenses 1:15-20). São obras únicas de Deus realizadas por intermédio de Seu Filho e estão envolvidas em um aspecto essencial do evangelho: não são fruto de esforços humanos (Romanos 3:20).

Criação e redenção são as duas manifestações mais poderosas da ação divina que conhecemos. A imensidão do Universo indica que sua origem foi uma esplêndida manifestação do poder de Deus. A manifestação incomparável de Sua graça salvadora (Romanos 5:20) é o envolvimento pessoal e direto do Senhor na obra da redenção por intermédio de Cristo, que possibilita a restauração de cada indivíduo à comunhão permanente com Ele.

Uma das principais semelhanças entre criação e redenção é que ambas expressam o amor divino. O Deus que criou tudo por amor nos deu o sábado para nos lembrar de que Ele é um Criador amoroso. O Deus que nos redimiu por meio do amor e da graça nos concedeu o sábado como um lembrete de que a redenção é um dom do Seu amor e da Sua graça. O sábado é uma prova maravilhosa do amor de Deus como Criador e Redentor. Assim, não é surpreendente que, ao final do conflito cósmico, o sábado se torne um alvo de ataques das forças malignas que se opõem ao evangelho da salvação por meio da fé em Cristo (Apocalipse 12:4; 14:8). Elas tentarão alcançar isso por meio da marca da besta. Satanás tem como objetivo silenciar o testemunho do sábado, que representa o primeiro ato de amor divino na história do cosmos e do evangelho da salvação, que é realizado pelo amor sacrificial de Cristo (Apocalipse 14:13; 13:15). Contudo, o testemunho do sábado não será calado.

O CARÁTER DE DEUS

O querubim caído parece acreditar que modificar o quarto mandamento seria um meio eficiente para alcançar seus propósitos malignos. Desde o início, ele esteve em conflito aberto contra a vontade de Deus, mas sua hostilidade contra a lei é claramente exposta na literatura apocalíptica (cf. Daniel 7:25; 2 Tessalonicenses 2:3, 4, 7, 8). Sua oposição à lei divina disfarça um ataque direto contra o Senhor.

Como o Decálogo reflete verbalmente o caráter divino, qualquer mudança na lei representa um ataque à integridade e à perfeição desse caráter, insinuando que Deus não é quem afirma ser, conforme a serpente sugeriu a Eva (Gênesis 3:4, 5). Se houvesse necessidade de alterar a lei de Deus, isso indicaria claramente que a lei, e especialmente o Legislador, é falha e necessita de aprimoramentos. Como resultado, Lúcifer parece defender que desobedecer a uma lei imperfeita é legal e moralmente aceitável.

A alteração mais significativa aconteceu quando se buscou substituir a observância do sábado pela guarda do domingo. Dessa forma, Satanás buscava descreditar o caráter divino e exibir sua autoridade sobre a lei. Ao aceitar a mudança e obedecer ao "mandamento" modificado, os seres humanos, de fato, negam a integridade do caráter amoroso de Deus. Isso justifica a relevância do Decálogo, que reflete o caráter do Senhor, no livro do Apocalipse (Apocalipse 12:17; 14:12).

SÁBADO E ADORAÇÃO

Mudar o quarto mandamento, trocando o dia de descanso e adoração, resultaria na adoração de um deus falso. É importante ter em mente que o mandamento do sábado não diz respeito ao descanso em um dia comum, mas está ligado a um dia sagrado. Esse é o tempo em que Deus e os fiéis se encontram, liberando os observadores do sábado das preocupações com produtividade ou obras humanas. Entramos nesse período sagrado para estar em comunhão com nosso Criador e Redentor, adorando-O. De fato, a santidade do sétimo dia, o sábado, é um "espaço no tempo" que foi divinamente estabelecido para adorar a Deus.

Atualmente, a maior parte do mundo cristão considera o domingo como o dia verdadeiro de culto. Parece que o objetivo de Satanás foi alcançado: ele mudou a lei no ponto em que se encontra com a adoração. De fato, eles são inseparáveis; portanto, mudar o quarto mandamento leva à idolatria. Isso é incrivelmente engenhoso e extremamente enganoso!

Ao modificar o quarto mandamento, o querubim caído parece ter alcançado seu objetivo: desacreditar o caráter divino e se tornar objeto de adoração. Para ele, o sábado precisa acabar! Assim, é imprescindível que a humanidade ouça novamente o evangelho da salvação por meio da fé em Cristo, que não contraria a lei divina expressa no Decálogo. A perpetuidade da lei deve ser proclamada não como um instrumento de salvação, mas como prova da salvação por meio da fé em Cristo.

SINAL DE LEALDADE

O sábado ocupa o centro do Decálogo, e sua singularidade e especificidade o tornam um sinal ideal de lealdade a Deus. No idioma hebraico, o Decálogo, conforme apresentado em Êxodo 20:3-17, é composto por 152 palavras. Para encontrar o centro, basta dividir 152 por dois, resultando em 76 palavras em cada lado. O versículo 10 é o centro do Decálogo. A 76ª palavra é "sétimo", enquanto na outra seção é "sábado". A seguinte frase está no centro do Decálogo: Mas o sétimo dia é um sábado "pertencente ao", "em honra de", ou "para" o Senhor.

Sob a perspectiva literária, a frase específica ocupa o centro dos Dez Mandamentos, e considerando o que sabemos sobre a narrativa bíblica do sábado, isso não é uma coincidência. Sabemos que essa frase adquiriu grande relevância na história da observância do sábado. A especificidade do mandamento, expressa na frase "o sétimo dia é o sábado", perturbou tanto o mundo cristão que se optou por removê-la, sob a justificativa de que "o sétimo dia” é um elemento ritual do quarto mandamento sem nenhuma relevância para os cristãos.

Entretanto, é exatamente a especificidade do mandamento – ser o sétimo dia – que o torna um sinal de fidelidade ao Senhor no meio do conflito cósmico e que enfatiza o privilégio humano de viver em comunhão com esse Deus santo. Satanás exige lealdade exclusiva e se opõe ao sinal de fidelidade a Deus no tempo do fim, oferecendo ironicamente um falso sábado, o primeiro dia da semana, como sinal de lealdade a ele: a marca da besta (Apocalipse 13:16). Entretanto, a lei de Deus é perfeita (Salmo 19:7) e inalterável, pois reflete o caráter divino.

CONCLUSÃO

O papel escatológico do sábado no tempo do fim está ligado ao propósito divino de que ele sirva como um testemunho do evangelho da salvação por meio da fé em Cristo. Isso é inaceitável para o querubim caído, que tenta divulgar seu evangelho falso. As forças do mal se opõem ao sábado bíblico, pois ele serve como um lembrete constante para a humanidade de que criação e redenção são as expressões mais significativas do amor divino.

O sábado associa um mandamento específico à verdadeira identidade do objeto de adoração, e essa particularidade o converte em um sinal visível e efetivo de fidelidade ao Cordeiro, em um período em que as forças malignas batalham contra Ele, Sua lei e Seu caráter.

Assim, a observância do sábado pelo povo de Deus servirá como um sinal, um testemunho para o mundo, demonstrando que o Criador e Redentor é um Deus amoroso e cheio de misericórdia, e que o descanso é encontrado por meio da fé em Cristo. O Cordeiro de Deus vencerá a oposição escatológica contra Ele (Apocalipse 17:14).

ÁNGEL MANUEL RODRÍGUEZ, pastor, professor e teólogo aposentado, foi diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica

Referência

A versão completa deste artigo está disponível em: "The eschatological role of the sabbath", Reflections*, nº 87, jul/set 2024, p. 2-5.

Revista Adventista - Janeiro 2026

sábado, 15 de agosto de 2026

O papel do ancionato

 

O papel do ancionato

Pags. 18, 19 e 20

A origem, o propósito e as atividades de um ministério essencial para a igreja

DA REDAÇÃO

No calendário da Divisão Sul-Americana, em 27 de junho é celebrado o Dia do Ancionato. Reconhecendo a importância desse verdadeiro exército de voluntários, este infográfico busca lançar luz sobre a origem bíblica da função, bem como sobre as múltiplas responsabilidades dos anciãos – desde o apoio direto ao pastor até a visitação, o ensino, a promoção da unidade e o fortalecimento espiritual dos membros. Em milhares de congregações, esses líderes exercem influência decisiva, contribuindo para que a igreja permaneça firme em sua missão e relevante em seu testemunho.

REQUISITOS

"Irrepreensível, esposo de uma só mulher, moderado, sensato, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, nem violento, porém cordial, inimigo de conflitos, não avarento; e que governe bem a própria casa" (1 Timóteo 3:2, 3).

Sempre exigiu disposição para servir, seguindo o exemplo de Cristo no cuidado com as pessoas (1 Timóteo 4:9, 10).

Desde o início, envolveu pessoas consagradas e dignas de confiança, escolhidas para apoiar a igreja e cuidar do rebanho (1 Timóteo 3:1-7; Tito 1:5-9).

Desempenhou papel fundamental na organização e na expansão da igreja, contribuindo diretamente para a pregação do evangelho ao mundo (Atos 11:30; 15).

ORIGEM E PROPÓSITO

O ancionato teve origem no Antigo Testamento e foi adotado pela igreja do Novo Testamento como modelo de liderança (Números 11:16, 17; Atos 20:17, 28).

FUNÇÕES

Muito além de uma função administrativa, o ancião é um líder espiritual chamado por Deus para cuidar, orientar e servir a congregação com dedicação e sensibilidade pastoral. Esse trabalho envolve:

1 Supervisão

- Atuam como "supervisores", pastoreando a igreja de Deus (Atos 20:28).

- Não realizam todo o trabalho sozinhos, mas acompanham, orientam e apoiam os demais líderes.

- Exercem liderança participativa, envolvendo membros e comissões nas decisões.

- Planejam, organizam e acompanham os programas da igreja.

- Promovem e implementam iniciativas missionárias locais e das organizações superiores.

- Podem presidir reuniões e comissões na ausência do pastor, desde que tenham autorização dele.

2 Pastoreio e cuidado

- Atuam como copastores, cuidando do rebanho sob orientação do pastor (1 Pedro 5:1, 2).

- Demonstram cuidado individual: aconselham, encorajam, visitam e oram pelos membros.

- Atendem a necessidades específicas, como ministrar a Ceia do Senhor a enfermos.

- Participam do preparo de candidatos ao batismo e do discipulado de novos membros.

TRABALHO EM EQUIPE

- O ancionato é um ministério coletivo, não individual.

- Deve ser composto por pessoas que atuem de forma unida.

- Trabalha em parceria com o pastor distrital, sendo seu principal apoio na igreja local e visando ao crescimento espiritual e ao foco na missão.

Fonte: Guia do Ancionato (CPB, 2025)


Revista Adventista - Julho 2026 - Pag, 18, 19, 20

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

JESUS E A VIÚVA

 

JESUS E A VIÚVA

Pags. 10 e 11

(Coppée)

Um dia em que Jesus com Simão Pedro andava, junto a Genezaré, margeando o lago, à brava refulgência estival da áurea luz meridiana, enxergou no caminho, ao pé de uma cabana, sentada no limiar, inda cheia de dor, uma pobre mulher, viúva de um pescador, baloiçando em silêncio o berço do filhinho, e fiando ao mesmo tempo uma estriga de linho.

Sob um curvo dossel de amplas figueiras, Cristo contemplava com Pedro a mulher, sem ser visto. Eis que chega um mendigo, um velhinho arquejante, carregando à cabeça um grande vaso; diante da viúva pára, exausto, e seu auxílio implora: "Mulher, devo levar, sem nenhuma demora, este vaso de leite ao próximo povoado. Tu bem vês como estou, bem vês; desajudado, não posso lá chegar. Já muito pouco valho, e é por ganhar o pão que inda, às vezes, trabalho."

Ela não deu resposta ao velho miserando; tomou-lhe a grave bilha e seguiu-o, deixando o filho que chorava e o restante da estriga.

Pedro, espantado, então, dessa bondade amiga, volvendo-se a Jesus, disse: "Vê, Mestre, aquela abandona a morada e o filho, sem cautela, somente por servir ao primeiro que passa. Necessário não é que tal trabalho faça: o infeliz acharia aqui mesmo bem perto um caminheiro bom que o ajudasse, de certo."

Respondeu-lhe Jesus: "Pedro, quando algum pobre tal afecto de irmão por um irmão descobre, Meu Pai, que tudo vê, lhe ampara o humilde tecto. Essa mulher fez bem."

E com sereno aspecto, Cristo deiza o dossel das figueiras, caminha, vai sentar-Se, a sorrir, junto à velha casinha, e pelas próprias mãos, numa ternura mansa, fia o linho na roca e baloiça a criança …

Depois, Cristo partiu. Regressando, cansada, a viúva compassiva achou, maravilhada, — Sem suspeitar quem fosse o bom desconhecido — fiada a estriga inteira e o filho adormecido.


AMADEU AMARAL.

REVISTA ADVENTISTA Maio de 1950

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