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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Sábado no tempo do fim

 

Sábado no tempo do fim

Pags. 14 a 17

Reflexões sobre o papel escatológico do quarto mandamento

ÁNGEL MANUEL RODRÍGUEZ


A escatologia adventista confere ao quarto mandamento um papel significativo pouco antes da vinda de Cristo. Essa ênfase escatológica específica levanta pelo menos uma questão: quais são os fundamentos que nos permitem atribuir essa importância ao sábado? A seguir, apresento algumas sugestões que podem ser úteis para responder à nossa pergunta. Essas ideias pressupõem o entendimento da narrativa do querubim celestial caído (Isaías 14:12-14; Ezequiel 28:12-19), que desafiou a integridade do caráter divino (cf. Gênesis 3:4, 5; João 1:8-11) e buscou ser como Deus, afirmando ser um objeto legítimo de adoração (Mateus 4:8-10).

O AMOR DE DEUS

Embora seja mencionado como lei, o sábado confirma a veracidade do evangelho eterno e nos incentiva e ordena sua lembrança. O quarto mandamento é o único que cita Deus explicitamente, referindo-se às Suas duas obras mais importantes: criação (Êxodo 20:8, 11) e redenção (Deuteronômio 5:15).

Quais são as semelhanças entre criação e redenção? Há muitas, mas citarei apenas algumas. Elas são resultado da obra do Filho de Deus (João 1:1-3; 14; Romanos 3:23, 24), o que exige uma interpretação cristológica de ambas (cf. Colossenses 1:15-20). São obras únicas de Deus realizadas por intermédio de Seu Filho e estão envolvidas em um aspecto essencial do evangelho: não são fruto de esforços humanos (Romanos 3:20).

Criação e redenção são as duas manifestações mais poderosas da ação divina que conhecemos. A imensidão do Universo indica que sua origem foi uma esplêndida manifestação do poder de Deus. A manifestação incomparável de Sua graça salvadora (Romanos 5:20) é o envolvimento pessoal e direto do Senhor na obra da redenção por intermédio de Cristo, que possibilita a restauração de cada indivíduo à comunhão permanente com Ele.

Uma das principais semelhanças entre criação e redenção é que ambas expressam o amor divino. O Deus que criou tudo por amor nos deu o sábado para nos lembrar de que Ele é um Criador amoroso. O Deus que nos redimiu por meio do amor e da graça nos concedeu o sábado como um lembrete de que a redenção é um dom do Seu amor e da Sua graça. O sábado é uma prova maravilhosa do amor de Deus como Criador e Redentor. Assim, não é surpreendente que, ao final do conflito cósmico, o sábado se torne um alvo de ataques das forças malignas que se opõem ao evangelho da salvação por meio da fé em Cristo (Apocalipse 12:4; 14:8). Elas tentarão alcançar isso por meio da marca da besta. Satanás tem como objetivo silenciar o testemunho do sábado, que representa o primeiro ato de amor divino na história do cosmos e do evangelho da salvação, que é realizado pelo amor sacrificial de Cristo (Apocalipse 14:13; 13:15). Contudo, o testemunho do sábado não será calado.

O CARÁTER DE DEUS

O querubim caído parece acreditar que modificar o quarto mandamento seria um meio eficiente para alcançar seus propósitos malignos. Desde o início, ele esteve em conflito aberto contra a vontade de Deus, mas sua hostilidade contra a lei é claramente exposta na literatura apocalíptica (cf. Daniel 7:25; 2 Tessalonicenses 2:3, 4, 7, 8). Sua oposição à lei divina disfarça um ataque direto contra o Senhor.

Como o Decálogo reflete verbalmente o caráter divino, qualquer mudança na lei representa um ataque à integridade e à perfeição desse caráter, insinuando que Deus não é quem afirma ser, conforme a serpente sugeriu a Eva (Gênesis 3:4, 5). Se houvesse necessidade de alterar a lei de Deus, isso indicaria claramente que a lei, e especialmente o Legislador, é falha e necessita de aprimoramentos. Como resultado, Lúcifer parece defender que desobedecer a uma lei imperfeita é legal e moralmente aceitável.

A alteração mais significativa aconteceu quando se buscou substituir a observância do sábado pela guarda do domingo. Dessa forma, Satanás buscava descreditar o caráter divino e exibir sua autoridade sobre a lei. Ao aceitar a mudança e obedecer ao "mandamento" modificado, os seres humanos, de fato, negam a integridade do caráter amoroso de Deus. Isso justifica a relevância do Decálogo, que reflete o caráter do Senhor, no livro do Apocalipse (Apocalipse 12:17; 14:12).

SÁBADO E ADORAÇÃO

Mudar o quarto mandamento, trocando o dia de descanso e adoração, resultaria na adoração de um deus falso. É importante ter em mente que o mandamento do sábado não diz respeito ao descanso em um dia comum, mas está ligado a um dia sagrado. Esse é o tempo em que Deus e os fiéis se encontram, liberando os observadores do sábado das preocupações com produtividade ou obras humanas. Entramos nesse período sagrado para estar em comunhão com nosso Criador e Redentor, adorando-O. De fato, a santidade do sétimo dia, o sábado, é um "espaço no tempo" que foi divinamente estabelecido para adorar a Deus.

Atualmente, a maior parte do mundo cristão considera o domingo como o dia verdadeiro de culto. Parece que o objetivo de Satanás foi alcançado: ele mudou a lei no ponto em que se encontra com a adoração. De fato, eles são inseparáveis; portanto, mudar o quarto mandamento leva à idolatria. Isso é incrivelmente engenhoso e extremamente enganoso!

Ao modificar o quarto mandamento, o querubim caído parece ter alcançado seu objetivo: desacreditar o caráter divino e se tornar objeto de adoração. Para ele, o sábado precisa acabar! Assim, é imprescindível que a humanidade ouça novamente o evangelho da salvação por meio da fé em Cristo, que não contraria a lei divina expressa no Decálogo. A perpetuidade da lei deve ser proclamada não como um instrumento de salvação, mas como prova da salvação por meio da fé em Cristo.

SINAL DE LEALDADE

O sábado ocupa o centro do Decálogo, e sua singularidade e especificidade o tornam um sinal ideal de lealdade a Deus. No idioma hebraico, o Decálogo, conforme apresentado em Êxodo 20:3-17, é composto por 152 palavras. Para encontrar o centro, basta dividir 152 por dois, resultando em 76 palavras em cada lado. O versículo 10 é o centro do Decálogo. A 76ª palavra é "sétimo", enquanto na outra seção é "sábado". A seguinte frase está no centro do Decálogo: Mas o sétimo dia é um sábado "pertencente ao", "em honra de", ou "para" o Senhor.

Sob a perspectiva literária, a frase específica ocupa o centro dos Dez Mandamentos, e considerando o que sabemos sobre a narrativa bíblica do sábado, isso não é uma coincidência. Sabemos que essa frase adquiriu grande relevância na história da observância do sábado. A especificidade do mandamento, expressa na frase "o sétimo dia é o sábado", perturbou tanto o mundo cristão que se optou por removê-la, sob a justificativa de que "o sétimo dia” é um elemento ritual do quarto mandamento sem nenhuma relevância para os cristãos.

Entretanto, é exatamente a especificidade do mandamento – ser o sétimo dia – que o torna um sinal de fidelidade ao Senhor no meio do conflito cósmico e que enfatiza o privilégio humano de viver em comunhão com esse Deus santo. Satanás exige lealdade exclusiva e se opõe ao sinal de fidelidade a Deus no tempo do fim, oferecendo ironicamente um falso sábado, o primeiro dia da semana, como sinal de lealdade a ele: a marca da besta (Apocalipse 13:16). Entretanto, a lei de Deus é perfeita (Salmo 19:7) e inalterável, pois reflete o caráter divino.

CONCLUSÃO

O papel escatológico do sábado no tempo do fim está ligado ao propósito divino de que ele sirva como um testemunho do evangelho da salvação por meio da fé em Cristo. Isso é inaceitável para o querubim caído, que tenta divulgar seu evangelho falso. As forças do mal se opõem ao sábado bíblico, pois ele serve como um lembrete constante para a humanidade de que criação e redenção são as expressões mais significativas do amor divino.

O sábado associa um mandamento específico à verdadeira identidade do objeto de adoração, e essa particularidade o converte em um sinal visível e efetivo de fidelidade ao Cordeiro, em um período em que as forças malignas batalham contra Ele, Sua lei e Seu caráter.

Assim, a observância do sábado pelo povo de Deus servirá como um sinal, um testemunho para o mundo, demonstrando que o Criador e Redentor é um Deus amoroso e cheio de misericórdia, e que o descanso é encontrado por meio da fé em Cristo. O Cordeiro de Deus vencerá a oposição escatológica contra Ele (Apocalipse 17:14).

ÁNGEL MANUEL RODRÍGUEZ, pastor, professor e teólogo aposentado, foi diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

VIGILÂNCIA NA ERA DAS INCERTEZAS

 

VIGILÂNCIA NA ERA DAS INCERTEZAS

Pags. 8, 9, 10, 11, 12 e 14

Como interpretar as profundas transformações mundiais da atualidade à luz das profecias bíblicas

DIOGO CAVALCANTI


O mundo como o conhecíamos deixou de existir. Uma série de transformações simultâneas redesenham a ordem internacional e a própria história diante dos nossos olhos. Movimentações geopolíticas, conflitos militares, disrupção tecnológica e industrial nos levam à perplexidade, a um senso de hesitação, dúvida e desrealização (de que não parece real) perante fatos que nos assustam. Não escapamos ao assombro em relação a acontecimentos que ora confirmam ora parecem contradizer elementos centrais da nossa escatologia, e isso não vem de hoje (veja o quadro).

“PERIGOS APOCALÍPTICOS”

Basta entender um pouco de política, economia e história para perceber que vivemos em meio a um terremoto geopolítico, a começar pela ordem mundial. Há poucos anos liderada isoladamente pelos Estados Unidos, essa posição agora é disputada pela China, que já ascendeu ao patamar de superpotência. Após crescer a taxas superiores a 10% por mais de três décadas, o país asiático atingiu a marca de 18,4 trilhões de dólares do PIB,¹ de acordo com o Banco Mundial (2024). Para se ter uma ideia da enormidade desse salto, em 1995 o PIB chinês era menor que o do Brasil.²

Em 30 anos, o país asiático subiu à estratosfera geopolítica, tornando-se líder mundial em inúmeras áreas, da indústria espacial à computação quântica. A China também tem oito entre as dez melhores universidades do mundo.³ Toda essa pujança não decorreu da assimilação de valores democráticos. Pelo contrário: mantém um massivo aparato tecnológico de controle, através de milhões de câmeras e de um sistema de crédito social. Ao redor do mundo, as novas tecnologias, que prometiam disseminar a liberdade e a democracia, acabaram por miná-las. Em alguns países islâmicos, por exemplo, câmeras e computadores monitoram populações inteiras. Por sua vez, ao redor do mundo, as interações digitais, reguladas por algoritmos, acabaram produzindo uma acirrada polarização política e ideológica que explode em fanatismo e violência.

Em meio ao sucesso do autoritarismo tecnológico, as democracias ocidentais se veem cada vez mais enfraquecidas. Assim, em um panorama de feroz disputa geopolítica, há uma pressão crescente para que a governança se torne mais centralizada, nacionalista e autoritária. Daí abre-se o caminho para líderes demagógicos prometendo milagres.

Por outro lado, fatores diversos como as desigualdades econômicas, o aumento da violência, conflitos armados e a gravíssima queda da taxa de natalidade nos países mais ricos estão ligados à imigração em massa recente, com 281 milhões de imigrantes e 117 milhões de refugiados, segundo relatório da ONU, de 2022.⁴

Como não ocorria desde a Segunda Guerra Mundial, uma luta sangrenta entre nações, com anexação de territórios, voltou a ser travada em solo europeu. Nesse ínterim, outros conflitos eclodiram no Oriente Médio e têm relação com o conflito europeu. A proliferação e a interrelação de guerras, bem como as tensões que se espalham pelo planeta leva o mundo inteiro a temer pelo pior. O resultado é a maior corrida armamentista desde a Guerra Fria, com 2,9 trilhões de dólares em gastos militares somente em 2025.⁵

Isso lembra os anos anteriores à Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914 (veja o quadro). Para piorar, os arsenais nucleares recentemente deixaram de estar sob a restrição de acordos internacionais. As principais potências se comprometeram a modernizar e ampliar seus estoques, dando um péssimo exemplo a outras nações que aspiram se nuclearizar.

Por essa e outras razões, o relógio do fim do mundo, criado por cientistas atômicos, foi adiantado para 85 segundos para a meia-noite, sua pior posição desde sua criação nos tempos da Guerra Fria. Segundo um parecer dos estudiosos, “entendimentos globais arduamente conquistados estão desmoronando, acelerando uma competição entre grandes potências [...] e minando a cooperação internacional crítica para reduzir os riscos de guerra nuclear, mudanças climáticas, uso indevido da biotecnologia, a ameaça potencial da inteligência artificial e outros perigos apocalípticos.”⁶

FIM DO SÉCULO 19 ATÉ 1914

No auge da Segunda Revolução Industrial, com grandes invenções e uma euforia generalizada, as rivalidades entre potências coloniais estouram na Primeira Guerra Mundial, provocando o colapso da ordem mundial fundamentada na supremacia europeia.

Perspectiva adventista

Uma visão pessimista de uma Europa fragmentada (Daniel 2) contrariava as expectativas de um futuro brilhante e utópico, apontando para um iminente cenário de guerra (Mateus 24) e tensões crescentes até o Armagedom (Apocalipse 16).

PÓS-1945

Reordenação geopolítica do pós-guerra em torno da bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética.

Perspectiva adventista

A visão pessimista da história confirmada pelas duas guerras mundiais (Mateus 24) é fortemente surpreendida pelo surgimento de uma nação antagônica à hegemonia profética dos Estados Unidos.

VIGIAR O TEMPO

“Vigiar” é um imperativo bíblico (1 Coríntios 16:13; 1 Pedro 5:8). O verbo original, grēgoreō, tem que ver com estar acordado e vigilante, alerta,⁷ em contínua prontidão.⁸ Significa manter uma preparação espiritual, porém relacionada ao tempo profético (Mateus 24:42). Não sabemos o momento exato da vinda do Senhor, mas Ele nos indicou sinais de sua proximidade, como os tempos de uma nova estação: o verão e a colheita. É interessante notar que, em hebraico, a palavra para “verão” (qayits) tem que ver com “fim” (qēts). Essa é uma conexão evidente em Amós: “O que você está vendo, Amós? E eu respondi: 'Um cesto de frutos de verão [qayits]. Então o SENHOR me disse: Chegou o fim [qēts] para o Meu povo de Israel" (Amós 8:1, 2). O fim é metaforizado como um fruto maduro, algo que chega ao ponto final de um processo.

Na mente dos discípulos, que falavam aramaico, mas tinham noções vivas do hebraico, a parábola da figueira teve profundo impacto. “Aprendam a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, vocês sabem que o verão está próximo. Assim, também vocês, quando virem todas estas coisas, saibam que está próximo, às portas" (Mateus 24:32, 33). Essa parábola lança um princípio profético tão negligenciado quanto abusado em nossos dias: observar apropriadamente os tempos em que vivemos.

Não podemos ignorar os fatos e levar nossa vida adiante sem nenhuma preparação. Isso decorreria da indiferença não só aos acontecimentos, mas à própria autoridade da Bíblia. Ser indiferente é agir como os antediluvianos (Mateus 24:37-39), os céticos e os zombadores (2 Pedro 3:3, 4). Também é a postura do protestantismo secularizado que abraçou a abordagem preterista de estudo das profecias apocalípticas e que não vê qualquer significância nos fatos atuais.

Contudo, Jesus chamou atenção à importância “de vermos estas coisas", ou seja, os acontecimentos ou sinais (Mateus 24:1-31), como uma indicação de que o verão – a maturação e o fim da história humana de pecado – está próximo. Contudo, isso não deve nos levar ao alarmismo. Ele é marcante na abordagem futurista, a qual costuma chamar atenção para fatos específicos do presente como cumprimentos escatológicos gritantes.

Ao “ler” a realidade atual, nosso desafio é enxergar o cumprimento da profecia na história, e o presente também faz parte dela. Porém não podemos torcer a história para harmonizá-la à nossa interpretação profética e muito menos torcer a profecia para harmonizá-la à história, dizendo, por exemplo, que a China é o dragão de Apocalipse 12.

PÓS-1991

Reordenação geopolítica com o colapso da União Soviética e o estabelecimento da unipolaridade norte-americana.

Perspectiva adventista

A queda da União Soviética favoreceu a visão da supremacia americana no tempo do fim, enquanto a solidificação das democracias desafiou a visão escatológica adventista sobre perseguição religiosa (Apocalipse 13).

A PARTIR DE 2020

Intensa reordenação geopolítica em torno da multipolaridade, da eclosão de conflitos regionais, da disputa entre potências, da criação de zonas de influência, de um enfraquecimento dos direitos individuais e da incerteza quanto à coexistência pacífica.

Perspectiva adventista

A ascensão chinesa e a multipolaridade desafiam a capacidade de os Estados Unidos liderarem a imposição de um futuro decreto em escala global. Por outro lado, surpreendentemente, discursos antidemocráticos ganham força, enquanto crises e incertezas globais abrem espaço para uma “nova” liderança com influência global (Apocalipse 13:1-8).

PRINCÍPIOS ÚTEIS

A fim de evitar os extremos da indiferença e do fanatismo, precisamos estar atentos tanto à forma de olhar para o texto bíblico quanto para a realidade atual. Seguem quatro princípios básicos:

1. O estudo das profecias deve ser multifacetado. Imagine um diamante: ele tem várias faces; cada uma reflete a luz de uma maneira. Para desenhar bem um diamante e compreendê-lo, é preciso contemplar cada uma de suas faces. Assim também é o estudo das profecias de Daniel e do Apocalipse. Precisamos começar por uma forma bíblica de interpretar – uma hermenêutica bíblica – seguida por uma exegese ou interpretação do texto específico que contemple todos os elementos envolvidos: a língua original, a etimologia, bem como a morfologia, a gramática, a sintaxe, o contexto literário, o tempo em que o texto foi escrito, a literatura e a iconografia da época, sem nos esquecer da relação do texto com o restante das Escrituras. Também é vital considerar a mensagem profética, em grande parte, incompreensível a Daniel e João quando a escreveram (Daniel 7:15; 8:27; 12:4, 8, 9). Porém, essa mensagem se tornaria compreensível no tempo do fim à luz da história (Daniel 12:4; João 16:4; Apocalipse 10:1-11) que se estende desde o tempo do autor bíblico até os dias atuais, segundo o modelo da explicação historicista bíblica do anjo-intérprete em Daniel 7 (v. 17, 23-27).

2. É preciso observar as grandes tendências atuais e não se perder com distrações periféricas ou não reveladas. Aspectos como o ano da volta de Jesus e dispositivos relacionados à marca da besta são pautas de uma visão futurista da realidade. Não devemos perder tempo com o que a Palavra não revelou (Deuteronômio 29:29). O grande ponto é: Como as tendências ajudam a mostrar em que direção os ventos da história seguem? Quais situações proféticas seriam plausíveis? Por exemplo, as sociedades democráticas estão mais ou menos inclinadas a abrir mão dos direitos individuais? Essa é uma forma mais segura de ler os tempos em que vivemos e descobrir se a água está esquentando antes de ela começar a ferver.

3.A história humana não é determinista nem caótica, mas avança de acordo com a concessão divina. É certo que os líderes humanos têm liberdade para tomar suas decisões, mas não significa que Deus abandonou a Terra (deísmo) nem que Ele determina cada evento (uma filosofia determinista da história). Deus dá liberdade para a ação humana, mas também estabelece limites que, quando ultrapassados, levam à ruína de líderes (Daniel 4:29-33) e potências mundiais (Daniel 5:27-31). A própria existência dos países ocorre por concessão divina (Atos 17:26, 27).

4. Acontecimentos históricos podem surpreender nossas expectativas, mas ao final confirmam a profecia. Após 1945, muitos questionavam o cumprimento da visão adventista de Apocalipse 13, pelo fato de existir uma superpotência antagônica e rival aos Estados Unidos, a União Soviética. Hoje é tão surpreendente a ascensão da China quanto o aparente declínio dos Estados Unidos e isso parece contradizer todo o nosso entendimento de Apocalipse 13. Porém, os eventos ainda estão se desenrolando e coisas podem mudar: a China pode ter graves retrocessos, e os problemas que afligem os Estados Unidos podem ser contornados por medidas extremas que levem, mais cedo ou mais tarde, ao cenário profético. Medidas desesperadas geralmente ocorrem em situações de grave crise, e alianças se formam quando a força de uma única parte é insuficiente. Então, cabe aqui uma pergunta: A segunda besta de Apocalipse 13 age somente a partir de uma posição de força ou também de fraqueza, pelo fato de precisar se aliar e se submeter à primeira besta? O que um evangelicalismo cada vez mais envolvido na política indica como tendência para os próximos anos? O que uma ala liberal-secular cada vez mais agressiva aos princípios judaico-cristãos indica sobre a batalha decisiva de Daniel 11?

Ellen White afirmou que “a Bíblia revela a verdadeira filosofia da história”⁹ e que “na Palavra de Deus [...] a cortina é afastada, e contemplamos em todas as dimensões e em toda a marcha e contramarcha das paixões, do poder e dos interesses humanos a força de um Ser misericordioso, que executa, de forma silenciosa e paciente, as determinações de Sua própria vontade.”¹⁰ Isso nos tranquiliza, anima e dá esperança. Os fatos atuais fazem aparecer blips no nosso radar, por um lado confirmando as profecias. Por outro, notamos coisas estranhas e novas às nossas expectativas. Isso nos faz mais humildes em relação aos detalhes e ao mesmo tempo confiantes na palavra profética e na direção divina.

DIOGO CAVALCANTI, ex-gerente editorial associado da CPB, é estudante do PhD em Teologia do Antigo Testamento pela Universidade Andrews (EUA)

Referências

¹ World Bank, "GDP (current US$) - China", https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD?locations=CN.

² Alexandre Pierro, "O que o Brasil deve aprender com a China", Empresas & Negócios, 18 de julho de 2025, https://jornalempresasenegocios.com.br/artigos/o-que-o-brasil-deve-aprender-com-a-china.

³ Leiden Ranking Traditional Edition, https://traditional.leidenranking.com/ranking/2025/list; Mark Arsenault, "Chinese Universities Surge in Global Rankings as U.S. Schools Slip", The New York Times, 15 de janeiro de 2026, https://www.nytimes.com/2026/01/15/us/harvard-global-ranking-chinese-universities-trump-cuts.html.

⁴ OIM-ONU, "Relatório Mundial sobre Migração de 2024 revela as últimas tendências e desafios mundiais para a mobilidade humana", 7 de maio de 2024, https://brazil.iom.int/pt-br/news/relatorio-mundial-sobre-migracao-de-2024-revela-ultimas-tendencias-e-desafios-mundiais-para-mobilidade-humana#:~:text=Com%20281%20milhões%20de%20migrantes,milhões%20ao%20final%20de%202022.

⁵ Stockholm International Peace Research Institute, "Global military spending rise continues as European and Asian expenditures surge", 27 de abril de 2026, https://www.sipri.org/media/press-release/2026/global-military-spending-rise-continues-european-and-asian-expenditures-surge.

⁶ "It is now 85 seconds to midnight", Bulletin of the Atomic Scientists, https://thebulletin.org/doomsday-clock/2026-statement/.

⁷ James Swanson, Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains: Greek (New Testament (Logos Research Systems, 1997); Logos Bible Software.

⁸ Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains (United Bible Societies, 1996), p. 332.

⁹ Ellen G. White, Educação (CPB, 2021), p. 123.

¹⁰ White, Educação, p. 123.


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