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sábado, 17 de outubro de 2026

A Mãe

A Mãe

Pag. 1

Sra. E. G. WHITE


O TRABALHO da mãe muitas vezes se afigura, aos seus próprios olhos, sem importância. Raras vezes é apreciado. Pouco sabem os outros de seus muitos cuidados e encargos. Seus dias são ocupados por uma série de pequeninos deveres, exigindo todos paciente esforço, domínio de si mesma, tacto, sabedoria e abnegado amor; todavia ela não se pode vangloriar do que fez como de algum importante feito. Fez apenas com que tudo corresse suavemente no lar; muitas vezes fatigada e perplexa, esforçou-se por falar bondosamente às crianças, mantê-las ocupadas e satisfeitas, guiar os pequeninos pés no caminho recto. Sente que nada fez. Assim não é, entretanto. Anjos do céu observam a mãe fatigada de cuidados, notando suas responsabilidades dia a dia. Seu nome pode não ser ouvido no mundo, acha-se porém, escrito no livro da vida do Cordeiro.

Existe um Deus em cima no céu, e a luz e glória do Seu trono repousam sobre a fiel mãe enquanto ela se esforça por educar os filhos para resistirem à influência do mal. Nenhuma outra obra se pode comparar à sua em importância. Ela não tem, como o artista, de pintar na tela uma bela forma, nem, como o escultor, de cinzelá-la no mármore. Não tem, como o escritor, de expressar um nobre pensamento em eloquentes palavras, nem, como o músico, de exprimir em melodia um belo sentimento. Cumpre-lhe, com o auxílio divino, gravar na alma humana a imagem de Deus.

A mãe que sabe apreciar isso há-de considerar as oportunidades que se lhe oferecem como inestimáveis. Zelosamente há-de ela procurar, em seu próprio carácter e em seus métodos de educação, apresentar aos filhos o mais alto ideal. Com zelo, paciência e ânimo, há-de ela procurar desenvolver suas aptidões, de modo que empregue devidamente as mais altas faculdades de sua inteligência na educação dos filhos. Há-de inquirir com sinceridade a cada passo: "Que disse Deus?" Estudará diligentemente Sua palavra. Conservará os olhos fixos em Cristo, a fim de que sua vida diária, no humilde curso dos cuidados e deveres, seja um verdadeiro reflexo da única Vida verdadeira. - A Ciência do Bom Viver, págs. 329 e 330.

CABELEIRA PRIVADA

 "1. Apreciaria uma explicação de I Tim. 2:9. Que é "cabeleira frisada"? Ou "tranças" como diz outra tradução? Este texto é aplicável ao NOSSO tempo?

O texto adverte as mulheres para que "se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas ou vestuário dispendioso". Torna-se claro do contexto que Paulo aqui está falando da aparência das mulheres nos cultos públicos de adoração. Certamente isto não significa que quando não estejam elas nos cultos públicos os princípios básicos da admoestação sejam desatendidos.

"Cabelo frisado" provém do grego pleugma que às vezes significa "trançado". No grego clássico a palavra é empregada para designar coisas entrelaçadas, como os elos de uma videira ou trançado de vime. No contexto de I Tim. 2:9 a referência é ao cabelo. O exato processo de trançamento ou frisamento ou o estilo de arrumação do cabelo em questão não é hoje conhecido por nós. Contudo as pessoas que viviam nos dias de Timóteo sabiam de que estilo de cabelo Paulo estava falando. Provavelmente tratava-se de um estilo popular, e seu uso no culto de adoração em público talvez já tivesse sido debatido.

E esta admoestação aplicável nos dias atuais? Certamente em princípio. A modéstia e o bom senso são princípios eternos que nunca podem ser substituídos. Quanto ao "cabelo frisado" (ou trançado) desde que não é exatamente conhecido, que estilo de cabelo quer significar, as mulheres de hoje não saberiam o que se acha compreendido ao atenderem a antiga admoestação. É improvável que Paulo esteja aqui condenando o trançado do cabelo em si.

Esse antigo estilo de cabelo podia ter sido demasiadamente ostentoso. Ou de algum outro modo podia ter sido inconveniente para as mulheres cristãs. Alguma coisa que hoje seja inconveniente ou objeto de ostentação, deve ser da mesma forma condenada.

2. Referindo-se a Ezequiel 33:8 alguém observou: "Não creio que Deus prive uma pessoa da salvação apenas devido à minha omissão em testemunhar". Esta pessoa estava certa ou errada?

Da maneira como a pergunta é redigida, não posso responder ou "certa" ou "errada". Diz o texto. "Se eu disser ao ímpio: 0 ímpio, certamente morrerás; e tu não falares, para avisar o ímpio do seu caminho, morrerá esse ímpio na sua iniqüidade, mas o seu sangue Eu o demandarei de ti". O sentido é evidente. O impio não advertido morre em sua iniqüidade.

Se, porém, este homem se perde, é correto dizer que Deus o privou da salvação? Não. Deus não deve ser culpado. O pecado, é que o é. Ele introduziu a iniqüidade no caso."


("CONSULTORIA DOUTRINÁRIA", Revista Adventista, Janeiro de 1980, p. 10)

domingo, 11 de outubro de 2026

Doutrina inventada?

 

Doutrina inventada?

Pags. 15 e 16

Qual é a base da crença fundamental adventista sobre o santuário

CLINTON WAHLEN


A doutrina do santuário é realmente bíblica ou teria sido criada para evitar o constrangimento causado pelo fato de Cristo não ter voltado em 22 de outubro de 1844? Em resposta a alegações que surgiram a partir da década de 1970, a Comissão de Daniel e Apocalipse da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em parceria com o Instituto de Pesquisa Bíblica, dedicou-se ao tema em uma série de sete volumes.

As obras da chamada série DARCOM, publicadas originalmente em inglês e lançadas posteriormente no Brasil pela Unaspress, demonstram que a doutrina do santuário se fundamenta solidamente nas Escrituras. A pesquisa também confirmou que a compreensão desenvolvida pelos primeiros adventistas estava correta: a "purificação do santuário", mencionada em Daniel 8:14, não se refere à purificação da Terra na segunda vinda de Cristo, mas à purificação do santuário celestial por meio de uma obra de juízo.

Daniel 2, 7 e 8 apresentam, em essência, a mesma sequência profética, embora cada capítulo acrescente novos detalhes. Em Daniel 2, os quatro metais que compõem a estátua representam quatro reinos sucessivos. Em Daniel 7, esses mesmos reinos são simbolizados por quatro animais impuros, aos quais se acrescenta um chifre pequeno que surge do quarto animal (v. 8). Em seguida, a cena se desloca para um tribunal celestial, onde ocorre um julgamento do qual participam o "Ancião de Dias" (v. 9) e "alguém como um Filho do Homem" (v. 13).

Daniel 8 repete essa mesma sequência profética, mas omite Babilônia, pois ela já se aproximava de seu fim quando a visão foi concedida. Desta vez, dois animais puros – um carneiro e um bode – representam a Média-Pérsia e a Grécia. O chifre pequeno de Daniel 8 surge de um dos quatro ventos, isto é, dos quatro pontos cardeais, apontando para Roma. Ele representa Roma pagã em sua expansão territorial (horizontal), descrita nos versos 9 e 10, e Roma papal em seu ataque (vertical) ao Céu, ao Príncipe do exército e ao lugar do santuário de Deus (v. 11, 12). Um animal puro seria inadequado para simbolizar Roma em razão de sua "transgressão desoladora" (v. 13), também chamada de "abominação desoladora" (Daniel 11:31; 12:11; ver também Mateus 24:15).

A resposta do Céu ao ataque do papado contra o santuário de Deus e Seu povo, simbolizados pelo "exército" e pelas "estrelas" (Daniel 12:3), aparece em Daniel 8:14: depois de 2.300 "tardes e manhãs", o santuário seria purificado. Essa declaração aponta para um Dia da Expiação celestial. No ritual do santuário terrestre, tanto um carneiro quanto um bode eram oferecidos nesse dia, e nessa ordem (Levítico 16:3, 9). Na ocasião, o santuário era purificado dos pecados confessados ao longo do ano. O sangue do bode para o Senhor era aspergido primeiramente no lugar santíssimo, sobre e diante do propiciatório, a fim de fazer expiação pelos pecados contra a lei depositada dentro da arca da aliança (v. 15).

A comparação entre Daniel 7 e 8 deixa claro que Daniel 8:14 descreve o mesmo julgamento celestial retratado no capítulo anterior. Esse julgamento não envolve apenas os animais e o chifre pequeno (Daniel 7:11, 12, 26; 8:13, 25), mas também o povo de Deus (Daniel 7:9, 10, 13, 14, 22, 27; 8:13, 24, 25).

O início desse julgamento está diretamente relacionado à profecia das 70 semanas de Daniel 9. Ambos os períodos proféticos se concentram na obra expiatória de Cristo: as 70 semanas apontam para Seu sacrifício na cruz, enquanto os 2.300 dias apontam para Seu ministério no Dia da Expiação, no santuário celestial.

Antes que Cristo retorne como "REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES" (Apocalipse 19:16), os súditos de Seu reino precisam ser claramente identificados por meio desse julgamento celestial, iniciado em 1844. Somente então Ele poderá recompensar "a cada um segundo as suas obras" (Apocalipse 22:12).

CLINTON WAHLEN é diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica


Revista Adventista - Outubro 2026 - Pg. 15, 16

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Reavivamento hoje

 

Reavivamento hoje

Pag. 4              


A prioridade que não pode esperar

STANLEY ARCO                     


Em 2026, uma mudança simples chama atenção e, ao mesmo tempo, revela um propósito maior: o projeto “10 Dias de Oração” agora passa a ser chamado de “10 Dias de Clamor e 365 Dias de Oração”. Não é simplesmente a troca de nome, mas o lembrete oportuno de que a busca por Deus não se limita a um evento, mas precisa se tornar um hábito inegociável em nossa vida.

O propósito é mobilizar a igreja para 10 dias de clamor intencional pelo derramamento do Espírito Santo e, depois, sustentar essa dependência em uma comunhão diária e profunda ao longo do ano. Em um tempo como o nosso, não há espaço para uma fé vacilante: precisamos orar, buscar e perseverar, porque “a maior e mais urgente de todas as nossas necessidades é de um reavivamento da verdadeira piedade entre nós".*

O tema deste ano, "O Espírito Santo e o Tempo do Fim", lembra-nos que não estamos diante de um assunto teórico, mas de uma realidade decisiva. A caminhada cristã não se resume a ajustar hábitos; ela aponta para algo maior: "a renovação da mente", para que experimentemos “qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2).

Essa obra não nasce da força de vontade nem se sustenta apenas por boas intenções. Ela acontece quando o Espírito Santo purifica o coração, forma em nós o caráter de Cristo e nos capacita a cumprir a missão.

A promessa feita a Joel e cumprida parcialmente no Pentecostes continua viva em nós: "E acontecerá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei o Meu Espírito sobre toda a humanidade. Os filhos e as filhas de vocês profetizarão, os seus jovens terão visões, e os seus velhos sonharão. Até sobre os Meus servos e sobre as Minhas servas derramarei o Meu Espírito naqueles dias, e profetizarão. Mostrarei prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra: sangue, fogo e nuvens de fumaça. O sol se transformará em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Atos 2:17-21).

Por isso, clamor não é ansiedade religiosa, é confiança. Não é pressão para “sentir mais”, mas entrega para viver guiado por Deus. Quando a igreja ora assim, com perseverança, ela aprende a esperar como quem sabe que o Céu não é indiferente às súplicas sinceras.

Que esse movimento de clamor e oração seja mais do que um programa: seja um recomeço. Um retorno à fonte. Um chamado para conhecer e prosseguir em conhecer o Senhor, até que a presença do Espírito Santo seja, para nós, tão necessária quanto o ar e tão certa quanto o amanhecer (Oseias 6:3).

STANLEY ARCO é presidente da Igreja Adventista para a América do Sul

Referência

Ellen G. White, Serviço Cristão* (CPB, 2022), р. 35.


Revista Adventista - Fevereiro - 2026

Cristianismo, política e liberdade

 

07 outubro 2026

Cristianismo, política e liberdade

Klemens Rabelo


Para quem é jovem e deseja um mundo mais justo, essa busca é legítima e merece reflexão. A juventude cristã é chamada a olhar para uma sociedade na qual a dignidade humana seja respeitada. A Bíblia também ensina que a busca pela justiça precisa caminhar ao lado da verdade, da responsabilidade e da liberdade.
Para isso, convém olhar para as ideias políticas com serenidade. O cristão tem grande responsabilidade na eleição dos governantes. Antes de escolher uma posição, é necessário perguntar: a ideia desse candidato é compatível com os princípios ensinados por Cristo? O que a história revela sobre sua posição?

A Bíblia reconhece a propriedade privada e condena o roubo e a cobiça dos bens alheios. O oitavo mandamento é direto: “Não furtarás” (Êxodo 20:15). O décimo também protege aquilo que pertence ao próximo. Ao mesmo tempo, as Escrituras ensinam generosidade e cuidado com os necessitados. O cristianismo, portanto, apresenta duas responsabilidades que precisam caminhar juntas: respeitar aquilo que pertence ao outro e socorrer quem precisa de ajuda.
O trabalho ocupa um lugar central na visão bíblica. Paulo advertiu os cristãos de Tessalônica: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2 Tessalonicenses 3:10). A passagem condena a ociosidade voluntária e exige o esforço individual. A solidariedade cristã requer uma postura ativa da pessoa diante da própria existência.
Esse princípio também ajuda a refletir sobre a liberdade econômica. A capacidade de trabalhar, empreender, produzir e administrar os próprios recursos está relacionada à responsabilidade pessoal. A Constituição brasileira também reconhece a importância da livre iniciativa, da propriedade privada, do trabalho e da redução das desigualdades sociais. O Estado possui responsabilidades importantes diante da pobreza e das desigualdades, mas a ação estatal precisa ser examinada com cuidado. Uma sociedade justa precisa proteger os vulneráveis sem eliminar a liberdade, a iniciativa e a responsabilidade das pessoas de promoverem o próprio sustento.
Esse ponto merece reflexão quando analisamos ideias socialistas ou comunistas. Essas correntes apresentam propostas para a organização econômica e social. Defendem ampla participação do Estado na economia; especialmente as linhas marxistas e comunistas, propõem a extinção da propriedade privada dos meios de produção e uma transformação radical da sociedade.
O comunismo revolucionário produziu experiências históricas que precisam ser conhecidas. A União Soviética, a China de Mao Tsé Tung e o Camboja sob o Khmer Vermelho estiveram associados a regimes autoritários, perseguições políticas, restrições severas às liberdades e mortes em grande escala, apenas por discordarem politicamente. Também houve perseguição religiosa em diferentes períodos e países. Conhecer essa história permite compreender que determinadas ideias, quando combinadas com concentração extrema de poder, podem produzir consequências terríveis. É inconcebível que o Estado, ou líderes políticos perseguem, torturam, matam ou exilam seus concidadãos. Os regimes totalitários extremam essas práticas, sufocam a liberdade de expressão e eliminam a oposição política.
Karl Marx também formulou uma crítica severa à religião, resumida na conhecida expressão de que ela seria o “ópio do povo”. É óbvio que a fé cristã não depende do Estado, de um partido ou de um sistema econômico. A Igreja pertence a Cristo. Mas o cristão deve conhecer essa crítica marxista para rebatê-la com firmeza.
A mesma prudência vale para as questões morais. Para o cristão, a proteção da vida, a família, a educação dos filhos, a liberdade religiosa e a dignidade humana não são apenas bandeiras partidárias. São temas que envolvem convicções morais profundas. Por isso, precisam ser examinados à luz das Escrituras e também das propostas concretas de cada candidato e partido.
Um cristão pode ter uma posição política, mas precisa saber por que a possui. Rejeite opiniões prontas das redes sociais. É necessário conhecer os argumentos, verificar os fatos e comparar as propostas com os princípios que orientam sua consciência, partindo do princípio de que a consciência cristã é norteada pela Bíblia. Decisões, alianças, propostas e posicionamentos que entrem em conflito com suas convicções cristãs devem ser examinados com a mesma liberdade. A fidelidade a Cristo exige independência em relação a qualquer partido.
Essa independência é importante porque nenhum político merece ocupar, na consciência de um cristão, o lugar que pertence a Deus. Um cristão pode admirar determinadas propostas de um governante, discordar de outras, reconhecer seus acertos e apontar seus erros. Evite transformar uma pessoa em símbolo de salvação nacional. A Bíblia já advertia contra essa tendência. Os cristãos de Corinto começaram a criar grupos em torno de líderes humanos: “Eu sou de Paulo”, “eu, de Apolo” e “eu, de Cefas”. Paulo respondeu perguntando: “Acaso Cristo está dividido?” (1 Coríntios 1:12-13).
A advertência continua atual. Quando um líder político passa a ser tratado como alguém infalível, a política deixa de ser analisada racionalmente. O eleitor passa a defender qualquer atitude do seu líder, mesmo quando ela contradiz princípios que anteriormente considerava importantes. Lyle H. Rossiter, em A Mente Esquerdista: As Causas Psicológicas da Loucura Política, Ed. Vide Editorial, procura interpretar determinados comportamentos políticos a partir da psicologia. Para ele a esquerda radical opera como doença mental coletiva.
O cristão precisa conservar sua liberdade de consciência. Pode votar em determinado candidato, apoiar determinado partido ou defender determinada proposta. Mas sua lealdade maior permanece com Cristo. Quando um líder político determina que seus seguidores defendam tudo aquilo que ele faz, o cristão deve parar e pensar. Quando um político é apresentado como a única esperança para o país, também deve haver cautela.
Por isso, antes de formar uma opinião sobre qualquer candidato, procure suas propostas originais, seu histórico de decisões e votações, suas declarações públicas e os resultados de suas administrações. Compare aquilo que ele promete com aquilo que efetivamente realizou. Examine também suas alianças políticas e as consequências de suas decisões. Faça isso com todos.
Aplique o mesmo critério para o candidato de sua preferência e para o seu adversário político. Se uma determinada conduta é errada quando praticada por um político da esquerda, ela também deve ser considerada errada quando praticada por alguém da direita. A verdade não muda conforme a cor partidária.
As redes sociais tornam esse exercício ainda mais importante. Seus algoritmos podem criar ambientes nos quais ouvimos apenas aquilo que confirma nossas próprias convicções. Assim surgem as bolhas políticas, nas quais cada grupo acredita possuir toda a verdade e enxerga o outro como ignorante ou mal-intencionado. Romper essa bolha exige coragem.

Leia a matéria completa, no l blog do autor 
veja o link abaixo
https://www.rabelo.blog.br/2026/10/cristianismo-politica-e-liberdade.html?m=1#more

terça-feira, 6 de outubro de 2026

A santa ceia foi instituida antes ou depois do lava-pés?

 

A santa ceia foi instituida antes ou depois do lava-pés?

Pags. 1 e 2











Como esta questão fosse suscitada já por diversas vezes, vamos consideral-a mais detidamente.

Algumas versões, como por exemplo a ingleza e a portugueza, traduzem João 13:2 como segue: "E acabada a ceia,*) tendo já o diabo insinuado no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que o trahisse... levantou-se (Jesus) da ceia, tirou os vestidos e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou agua numa bacia, e começou a lavar os pés aos discipulos." Muitos tiraram dahi a conclusão de que Jesus procedera ao lavamento dos pés depois da ceia, e que assim cumpria fazer tambem.

Admitte-se geralmente que os evangelhos foram escritos na seguinte successão: o de Mattheus, cerca de seis annos depois da resurreição; o de Marcos 10 annos depois da resurreição; o de Lucas 28 annos depois da resurreição e o de João 63 annos depois da resurreição. Dahi vê-se que o evangelho de João foi escrito muito tempo depois dos outros evangelhos. João dedica tambem a maior parte do seu evangelho a acontecimentos que occorreram na ultima semana da vida de Jesus sobre a terra. Como João escrevesse o seu evangelho por ultimo, o Espirito de Deus estimulou-o a escrever justamente aquellas coisas que podiam ser particularmente uteis á egreja e que os evangelhos anteriores haviam passado em silencio. Assim por exemplo Matheus, Marcos e Lucas não fazem menção do lava-pés, ao passo que todos os tres tratam minuciosamente a santa ceia. João, ao contrario, não faz nenhuma menção da ceia, mas se extende largamente sobre o acto do lava-pés. Onde deve collocar-se o lava-pés?

*) Luthero traduz: "E na ceia (isto é, na ocasião da ceia)" ao passo que a Miniaturbibel da essa passagem nestes termos: "E havendo chegado a ceia (isto é, a hora da ceia)."

Depois de terminado este acto e os discipulos estarem instruidos a respeito do mesmo, lemos no versiculo 21: "Tendo Jesus dito isto, turbou-se em espirito, e testificou e disse: Na verdade vos digo que um de vós me ha de trahir."

Si compararmos agora Matth. 26:20. 21 e Marc. 14:17. 18, com a passagem supracitada, vemos que as palavras citadas por João no versiculo 21 e que ali foram proferidas depois de Jesus haver lavado os pés aos seus discipulos, foram ditas antes da santa ceia, porque em Mattheus e em Marcos a distribuição da ceia propriamente dita, isto é, da ceia commemorativa dos soffrimentos e da morte de Jesus, tem logar depois de Jesus haver proferido as palavras: "Em verdade vos digo que um de vós me ha de trahir." Logo é claro que o lava-pés precedeu a distribuição da ceia.

"E houve tambem contenda entre elles, sobre qual delles parecia ser o maior." Cada qual aspirava em seu coração á principal posição no reino de Deus. O pedido de João e de Thiago para se assentarem um á direita e outro á esquerda de Christo no seu reino havia provocado escandalo entre os outros discipulos. Quando estavam pois reunidos no cenaculo os corações dos discipulos se achavam penetrados de inveja. Um outro motivo de contenda se havia manifestado entre elles. Era costume na occasião da paschoa que um servo lavasse os pés aos hospedes, e tal disposição fôra tambem tomada aqui. O jarro, a bacia e a toalha ahi se achavam, faltava porém o servo para desempenhar esse serviço, sendo por isso o dever dos discipulos se encarregarem do mesmo. Cada um delles porém estava resolvido a não exercer o mister de um servo. Recusavam humiliar-se. Como poderia Jesus valer a essas pobres almas para que Satanáz não conseguisse uma victoria cabal sobre ellas? Como poderia Elle mostrar-lhes que a verdadeira grandeza se manifesta no exercicio da caridade e da humildade? Como deveria Elle suscitar o verdadeiro amor em seus corações? Até que elles fossem trazidos a uma condição de humildade e de amor, elles não estariam promptos a participar nem da paschoa nem da ceia que Jesus estava a ponto de instituir... Seus corações tinham de ser purificados.

Os discipulos nem siquer menção faziam de se servirem uns aos outros. Jesus esperou algum tempo a ver o que fariam. Então levantou-se da mesa. Tirando a capa, que poz de um lado, pegou da toalha e cingiu-se. Surprenhendidos, os discipulos O contemplaram, curiosos do que pretendia fazer. "Então deitou agua numa bacia, e começou a lavar os pés aos discipulos, e a enxugar-lh'os com a toalha com que estava cingido." Este acto de Jesus abriu os olhos aos seus discipulos. Seus corações sentiram-se humiliados e contrictos. A tacita censura era delles cabalmente comprehendida. O orgulho e o egoismo haviam determinado contenda e inveja, mas tudo isto Jesus fez desaparecer lavando-lhes os pés. Olhando então sobre elles, Elle pôde dizer com verdade: "Vós estaes limpos."

O lavamento dos pés por parte de Jesus implicava mais do que uma simples ablução. Jesus com este acto instituia uma ceremonia religiosa que devia ser observada pelos seus discipulos para que tivessem sempre presente os ensinamentos de Jesus acerca da humildade e da caridade. Era a preparação instituida por Jesus para a santa ceia. Emquanto o orgulho, a inveja e a contenda dominam no coração este não pode ter communhão com Jesus, e não está preparado para gozar da communhão do seu amor e do seu sangue. Por isso Jesus ordenou que fosse observada em tal occasião a memoria de sua humilhação.

Dahi poder-se-á vêr claramente: primeiro, o que é propriamente o fim do lava-pés; segundo, quando deve ser praticado; e, terceiro, que elle só preenche o seu fim sendo observado antes da santa ceia.

F. W. Spies.


Revista Adventista - Fevereiro 1909 

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