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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Esperar...

 

Esperar...

Pag. 12

JUDITE FLORES PRATES


É tão vago esperar!

A espera tem em si uma profunda ansiedade,

Um desejo incontido, uma saudade

Do que, talvez, nem mesmo há de voltar ...

É tão triste esperar,

Quando se tem a alma doente, agonizante,

Ao sentir-se morrer, num só instante,

A ilusão colorida de um sonhar!

É cruel esperar.

A espera va enche de mágoa o pobre coração

Com retalhos de dor — recordação

Do que jamais se deixará de amar.

Mas é bom esperar,

Apesar das tristezas e dos ais,

Porque é melhor, mesmo sem alegria,

Do que sofrer a amarga nostalgia

De não esperar mais ...

Santa Maria, 23-8-59.


Revista Adventista - Julho 1960 - Pg. 12

terça-feira, 28 de julho de 2026

Prece -- Margarida Lopes de Almeida

 

Prece -- Margarida Lopes de Almeida


Senhor!

Venho dar-Te,

a sorrir, toda a minha alegria,

minha imensa alegria,

minha felicidade,

meu riso, meu amor...

Senhor,

todos vêm a Ti para chorar,

para implorar, para suplicar de Ti

Consolação, auxílio,

bênção e perdão.

Eu não, Senhor,

eu venho para dar!

Sobeja-me ventura!

Transborda em minha vida,

Sol, fulgor, claridade,

e meu sonho de amor e de beleza

foi bem menor do que a realidade.

Eu venho para dar!

Recebe em Tuas mãos,

habituadas a receber

preces, imprecações,

lágrimas e desesperos,

um ramo perfumado,

de lírios e de rosas,

de cantos e sorrisos,

de hosanas e de graças.

Toma de mim

um pouco de ventura,

para dares a cada criatura

que na vida não conheça a glória de ser feliz!

Tenho-a tanta, meu Deus,

que embora a tomes,

fica-me farta messe, para distribuir

e para dar ainda!

Quero que todos saibam

minha alegria infinda,

quero gritar ao mundo

que amo a vida,

que é bela, e boa,

e forte e apetecida!

E que mesmo que um dia

minha sorte se transforme de súbito,

e o que é bom e alegre

a morte me arrebate das mãos com crueldade,

eu bendirei a vida, na saudade

de um bem que tive,

e que é tão grande

que há de iluminar

mesmo a treva mais densa e mais profunda.

Senhor,

uma luz fulgurante os meus olhos inunda,

toma-me um pouco de luz,

derrama-a sobre aquêle que é cego

de ventura, ou mau, ou pervertido.

E deixa-me dizer-Te com amor:

Obrigada, Senhor,

por ter nascido-

obrigada, Senhor!


Revista Adventista. - Fevereiro 1960 Pag. 10

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

SAUDADE

Assunção Souza

SAUDADE

               Dizem que saudade é coisa de louco
               Ou de quem vive no mundo da lua
               Perca alguém amado e vera.
               Que isso são palavras suas

                         Quem vive sendo amado
                         E por ser amado, o outro está vivendo
                         Vai ver que saudade existe
                         Quando se perde alguém amando.

               Não faça da saudade um fardo
               Nem muito menos um castigo
               Por que é gostoso amar alguém
               Mesmo que seja escondido.

                          E quando esse alguém se for
                          Terás tempo pra conferir
                          Se teu amor era verdade
                          Ou se saudade faz sentido existir.
               
               E quando ele se for não chores
               E nem deixe os outros saber
               Se vais sentir saudades
               Ou será  apenas mais um anoitecer.
              
                                           Fim.

domingo, 10 de agosto de 2014

Porque hoje é sábado

 

Porque hoje é sábado

 

vini-de-moraes

Dia da Criação

Vinicius de Moraes
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas, por via das dúvidas, livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.

De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada

Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos

Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo

E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

 Fonte - http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/porque-hoje-e-sabado-2/

terça-feira, 15 de maio de 2012

Um sentimento estranho


Foto compartilhada pelo usuário


Ana Paula Garcia






Eu não tinha conhecimento,
eu não sabia o que era.

Pude compreender aos poucos
a sensibilidade, de entender
o que era então...Esse ser, esse querer,
essa estrondosa e emocionante sensação, de liberdade.

Fui alimentando, na dimensão exagerada,
foi crescendo, parecia desconhecido
mas foi se tornando familiar,
era tremulo, era torcido, era realmente estranho,

Fez parte de mim.
Talvez já estivesse a muito tempo ali
mas não o reconheci
foi criando forma, foi aparecendo asas, reacendeu...
Esta ali, estava todo tempo ali
eu nunca o vi, mas estava tão perto de mim, tão dentro de mim.

Por vezes me enganava,
mudava, em agitação constante que revelava ser,
o que não parecia existir,
poucas vezes saiu. Acanhado, tímido, covarde; querendo ser valente,
foi algo diferente que resolveu me enfrentar,
mas continuava ainda estranho, errante...

Eu não conseguia entender o que queria dizer,
por diversas vezes eu ignorei, relutei
fiz confusão; criei situação pra sair da confusão,
dessa bola de neve tão leve, tão doce...

Era o céu... Era estranho, mas eu não me entregava a esse devaneio,
não ousava sonhar, acreditar.

Dificilmente dávamos certo,
sua loucura por papel, uma escrita infiel,
sua dor constante, minha vida num desgaste constante,
foi entorpecendo minhas entranhas
com a loucura insuportável da dor,
dilatava minha alma, corria meu ser,
vibrava no timbre mas agudo a estranha e frenética sensação...

Era estranho,
aos poucos foi fazendo parte do que eu não conseguia entender,
gritava miseravelmente, pela morte que lhe consumia,
que achava ser sua sorte
era incompreensível, doía muito, machucava, inflamava,
mas aos poucos queria viver

Entendia depois de uma mente ofuscada,
que o melhor seria viver,
seu choro ainda era suportado,
no silencio que lhe carcomia, no horizonte da aflição;
fazia renascer a tal da esperança,
como uma voz uníssona brotava a fé...

Não importava mais as barreiras,
a intransponível conformidade foi sumindo,
no além da dor que sentia,
foi mais e mais reacendendo a labareda,
daquele toque mutilado, agora renovado,
disposto a impor sobre o medo da rejeição.

A luz aproximou, ]
onde outrora era escuro, fez nascer ali, a emoção, a canção,
reconheceu um coração apaixonado.

A ciência que evolui e que destrói,
a certeza do amanhã, de um menininho
que sonha em ser herói,
reconheceu a importância de seu papel peculiar,
de fazer do lápis, sua admiradora,
de tratar com ternura a borracha que a fere,
para um refazer melhor, uma publicação mas justa.
uma digitação organizada, uma publicação mas clara.

Eu era assim,
perdida dentro de mim.
Estranhamente perdida,
mexia com meu interior,
era meu desabafo, escondido, minha alegria sem fim,

Eu era ela assim
tremula, esquisita, apaixonada, descontraída...

Era, e sou,
e sempre será a minha iludida escrita,

Poesia metida,
minha cínica critica percorrida num papel,
meu sorrir e meu chorar, que dentro de mim vai estar,
e ela, só ela, pode me dar essa momentânea sensação de voar.

A escrita, o escrever...
Ela só existe, para me fazer viver,
Me fazer sofrer,
Ela faz parte de mim, e de você.


Ana Paula Garcia é dona de casa, mora em Goiânia, e é poetisa nas horas vagas



A vida castiga, e a rapadura é dura


Foto compartilhada pelo usuário

Ana Paula Garcia











Quando foi a ultima vez que conversamos?, 
eu me recordo que já faz algum tempo, 
eu não me lembro ao certo, 
mas notei que muitas vezes estavas por perto. 

Já não sou aquela criança 
em que na infância, 
havia mas liberdade de expressão. 

Lembro-me ainda que, 
não era maldade, 
mas pura simplicidade, 
Eu dizia: 
quando eu crescer eu vou me casar com você; 
tudo era motivo de graça 
e a brincadeira era com meu pai. 

Bem eu não me lembro quando foi
 a ultima vez que tive uma conversa sincera 
sem receio e sem preconceito, 
sem acusações, sem interrupções, 
já faz algum tempinho 
uns 20 ou mais aninhos 
que falar o que se pensa 
ainda não era uma ofensa 
ou deixava uma magoa, 

Eu era uma criança.

Ajude-me a crescer, 
e a entender o mundo por onde estou caminhando, 
O céu por onde eu passava, era mais azul, 
As borboletas ainda era uma revoada revoltante 
pra quem tinha pavor e medo, 
O segurar na minha mão me fez perder o medo, 
eu tinha mais equilíbrio pra andar.

Eu queria crescer e esquecer quem eu fui, 
pois estou amando. 
Quem eu sou?.. 
Não, lamentavelmente não posso dizer isso ainda, 
pois há um bombardeio que incendeia todo dia 
a imagem de quem eu sou; 
me mostrando em um corpo enorme 
o que precisa e não preciso. 

Quando meus pés já não querem caminhar, 
quando meus pensamentos já são todos misturados, 
onde tenho que fazer muitas escolhas... 
Sim escolhas, 
são elas as determinantes dessa vida 
que hoje vivo, na aflição avassaladora 
que atropela meus pensamentos singelos, 
pela mediocridade do meu crescimento, 
da maturidade ainda imatura, 
pois cresci, e tenho que andar, 
e agora sozinha devo seguir. 

E,... já faz muito tempo, 
e meu coração ainda se engana, 
na menininha pequena que não queria crescer, 
nas palavras incertas, 
onde havia risos e correções doces.

A vida castiga, e a rapadura é dura, 
E como dura... e não pode parar...

Eu queria congelar no tempo
 ou trazer para meu tempo, 
o apreço de amar e ser amada, 
de chorar e ser consolada, 
de cair e ser carregada, 
de sorrir e ter um olhar fixo dizendo-me. 
Você sorri tão gostoso! 

Gostaria de ter minhas grandes frustrações, 
como meu pirulito caído, 
meu sorvete derretido, 
ou o ovo de páscoa de numero 21, que não ganhei, 
pois queria um bem grandão.

Desde a ultima vez que conversei 
eu ia crescendo e não ia percebendo
que carregava comigo os traços de uma geração, 
o sabor amargo da independência, 
de saltar do meu lar, 
de não mas receber os aplausos familiar, 
e ter agora a tirania e a ditadura, 
das legislações já pré-concebidas 
da atualidade que eu já andava fazendo parte
que adentrava dentro do meu interior, 
que me fez trocar o pijama infantil, 
e que acima de tudo, eu compactuei com tudo isso, 
fui enganada, 
eu não vi, o tempo passar. 

A gente cresce.

Não é tarde ainda para sonhar, 
sermos cidadãos de respeito, 
receber e dar o que uma sociedade frustrante 
geme por atos despercebidos, 
por crescimentos maus compreendidos, 
o caiu a ficha ainda não caiu, 
crescemos e os mimos ainda queremos, 
e hoje vemos que a coisa esta mudando 
drasticamente, rapidamente, 

As crianças estão sendo torturadas lentamente 
pela megalomania das tecnologias 
e dos avanços estúpidos 
que não as deixam ter a infância 
que jamais queria sair.


Os atropelamentos modernos 
fazem bonsai infantis 
que são carinhosamente recebidas como inteligentes, 
ou avançados, adiantados, 
sabe tudo, ou estrela infantil. 

Uma mediocridade sem limites. 
O banho de rio ou mar no exterior 
estão marcados em “junhembro”, 
onde os junhos e os dezembros 
estão amontoados de pimpolhos desgovernados, 
claro, porque aquilo é fato raro 
para quem tem pais tão ocupados 
esperando as férias benditas. 

O choro lamentável dessa geração que carrego comigo. 
E, onde você esta meu amigo?... 
Sim, já há muito tempo que não conversamos livremente 
sem que alguém tente nos compreender, 
estou ha muito tempo marcando 
e sempre algo vem adiando 
e não sei o porque.

Talvez eu ainda me engane, 
ou fuja desse tormento de crescer, 
e ter que acompanhar as regras 
dessa sociedade que impõe sobre mim, 
minha casa, meu lar. 

Todo mundo tem uma criança dentro de si, mas cadê? 
Eu nunca vi, 
Eu só vejo pessoas com cara de paisagens, 
sorrindo, 
e quando perguntamos como vai, 
é onde o desabamento vem. 

Sim, a infância está ficando tão rara, 
pois os que nascem já querem logo crescer.

Sim já faz muito tempo, que não conversamos,
tenho obrigações, tenho planos, 
idéias, compromissos, 
uma correria infernal 
e ainda tenho que acompanhar as ultimas tendências da moda, 
pra não ser chamada de careta e sem graça. 
Pouco não?... 
Para quem não queria crescer...


Ana Paula Garcia é dona de casa, mora em Goiania, e é poetisa nas horas vagas

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