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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Uma imagem distorcida

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FLÁVIO PEREIRA DA SILVA FILHO
O grande conflito e o verdadeiro vilão da história





Em lembrança ao atentado contra sua sede, ocorrido no dia 7 de janeiro do ano passado, o semanário francês Charlie Hebdo publicou nesta quarta-feira, 6 de janeiro, mais uma de suas polêmicas charges. A capa da edição especial estampa a figura de um deus ensanguentado, com uma metralhadora nas costas e o seguinte título: “Um ano depois, o assassino ainda está à solta”.
A publicação despertou críticas de alguns grupos religiosos ao redor do mundo. Um exemplo disso foi a resposta do Osservatore Romano, diário oficial do Vaticano, que considerou que “usar Deus para justificar o ódio é uma verdadeira blasfêmia”.
Não convém gastar tempo buscando responder aos ataques mordazes feitos pelo periódico francês à religião. Mas o fato me fez pensar na imagem distorcida que alguns têm de Deus, a ponto de retratá-lo como assassino.
No entanto, à luz da Bíblia temos a correta compreensão de quem é, de fato, o vilão da história. O verdadeiro assassino que está foragido, ou que continua à solta, é apresentado nas Escrituras como Lúcifer – nome de origem latina que significa “portador de luz”, mas que, na verdade, se tornou o príncipe das trevas. A Bíblia o descreve como “homicida desde o princípio” e como alguém que odeia a verdade (Jo 8:44).
A mudança de nome e de caráter do “filho do amanhecer”, ou “estrela da manhã”, para “adversário”, ou “acusador”, é um elemento-chave para entendermos como Lúcifer conseguiu inverter os valores, fazendo com que a culpa que deveria cair sobre ele mesmo fosse atribuída a Deus. Em primeiro lugar, é importante relevar que a descida de Lúcifer pelo caminho da escuridão não foi como o acionar de um interruptor que, quando tocado, transforma automaticamente tudo em trevas. Na verdade, o caminho dele foi uma jornada em que a luz desapareceu aos poucos. Esse caminho gradual e, ao mesmo tempo, inexplicável deu origem ao que a Bíblia chama de pecado, o que em linguagem simples é a “quebra da Lei de Deus” (IJo 3:4). Antes do pecado não existia a morte, sendo que “não matar” é um dos fundamentos da lei divina.
Apesar de não existir uma explicação para a origem do pecado, a revelação bíblica estabelece uma base segura para que, acima de qualquer perplexidade, se saiba que Deus não é o responsável pelo seu surgimento. Nesse sentido, em Ezequiel 28:12, o rei de Tiro, um monarca bem-sucedido em sabedoria e riqueza, é usado como um sinônimo perfeito para o entendimento parcial do fenômeno da queda de Lúcifer. A medida que o texto se desenvolve, dos versos 12 a 19, com a descrição da glória e posterior decadência do querubim cobridor, aquele que servia a Deus de maneira direta, junto ao Seu trono, vê-se que o ponto fundamental para a queda foi o orgulho. Como mostra a Bíblia de Estudo Andrews (p. 1.068), esta seção do livro de Ezequiel é organizada como em um espelho, pelo qual se pode ver a condição de Lúcifer antes e depois:
É exatamente no ponto central desse padrão simétrico (ou quiasma), em que um ser perfeito se entrega à corrupção (Ez 28:15,16), que se estabelece o começo do grande conflito entre Cristo e Satanás, que teve sua origem no Céu e foi transferido para a Terra (Is 14:12-14; Ez 28:12-18; Gn 3), alcançando o seu clímax no momento em que Cristo entra na história como homem (Gl 4:4), travando a batalha diretamente contra seu adversário (Ap 12:4-9). Tendo em vista o princípio unificador do grande conflito, conclui-se que essa guerra envolve todo o universo (1 Co 4:9; Hb 1:13,14) e que todas as criaturas inteligentes são, direta ou indiretamente, afetadas pelo confronto entre os dois poderes que polarizam o bem e o mal (Gn 6-8; 2 Pe 3:5-7).
Conforme argumenta Ranko Stefanovic no livro Revelation of Jesus Christ: commentary on the book of Revelation (p. 135 e 136), o Apocalipse apresenta a solução definitiva para a controvérsia, também em um padrão simétrico em que o ponto central (a subseção de Ap 11:19-13:18) é o mais importante:
No meio da principal subseção, que apresenta de maneira direta o grande conflito entre Cristo e Satanás, é fornecida a chave para a vitória: “o sangue do Cordeiro” (Ap 12:11). Aqui vemos não “um Deus foragido”, mas alguém que é julgado, condenado e morto mesmo sendo inocente. É exatamente aqui que “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5:8). Aqui não vemos um “Deus assassino que ainda está à solta”, mas um Deus assassinado, que enfrentou a morte de cruz para salvar a humanidade.
FLÁVIO PEREIRA DA SILVA FILHO, mestre em Teologia Bíblica, é pastor e jornalista

sábado, 7 de janeiro de 2017

O ancião e a pesquisa histórica


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Flávio P. da Silva Filho

O ancião e a pesquisa histórica

Trata-se de um estudo investigativo que auxilia a igreja a ter uma visão mais clara da Bíblia 



Quando o profeta Daniel estudou a profecia de Jeremias 25:12, comparando o período profético dos 70 anos do cativeiro babilônico aos eventos históricos que ocorriam nos seus dias, e entendeu que havia chegado o momento para que a profecia se cumprisse, ele decidiu orar pelos seus irmãos para que estivessem preparados. Da mesma forma, no momento em que Guilherme Miller relacionou a data exata da “saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém” (Dn 9:25) com os 2.300 dias de Daniel 8:14, descobrindo que a purificação do santuário celestial aconteceria em sua época, recebeu a missão de transmitir a mensagem para a igreja. Na Segunda Guerra Mundial, Franz Hasel, um adventista convocado contra a própria vontade para servir no exército da Alemanha nazista, mostrava para seus companheiros de guerra seu cartãopostal no qual estava impressa a figura da estátua de Daniel 2, com notas explicativas datilografadas no verso, para justificar uma possível derrota de Adolf Hitler. Unindo o acontecimento histórico à profecia, ele esclarecia o futuro para seus colegas no campo de batalha. Dentro dessa perspectiva, da mesma forma que o profeta Daniel, Guilherme Miller e Franz Hasel conduziram pessoas dos eventos históricos para a Bíblia – a pesquisa histórica, quando acompanhada de uma correta interpretação das profecias bíblicas, capacita o ancião para guiar a igreja de maneira segura, alertando-a com equilíbrio e conduzindo-a para uma visão mais clara do tempo presente e também dos eventos finais. A aliança da pesquisa histórica com a Bíblia é um método eficaz a ser utilizado pelo ancião para fornecer à sua igreja um entendimento correto da missão, que é a pregação do evangelho (ver Mt 24:14). Por meio dessa pesquisa descobrimos que “os primeiros adventistas fundamentaram sua filosofia missioná- ria nas Escrituras” e que “eles se identificaram com a mensagem dos três anjos de Apocalipse, que tinham ‘um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a Terra, e a cada nação, e tribo, e língua e povo’” (Ap 14:6; Guia Para Anciãos, ed. 2004, p. 75). A pesquisa também mostra que “a Igreja Adventista começou como um pequeno movimento regional na América do Norte” (Ibid.), mas, após quase dois séculos de existência, os adventistas estão presentes em 215 dos 237 países e áreas reconhecidas pela ONU (Quick Statistics on the Seventh-day Adventist Church. Disponível em . Acesso em 30 de mar- ço de 2016). Entretanto, em todas as ocasiões em que o ancião apresentar sua pesquisa histórico-bíblica para a igreja, é necessá- rio esclarecer que “no centro da mensagem evangelística encontra-Se Jesus, enviado ao mundo para regenerar, por Seu sacrifício sem pecado, a raça humana decaída” (Ibid.), e que a vinda de Jesus ao mundo é um evento histórico, pois “um método apropriado e adequado de pesquisa do texto bíblico precisa levar em conta a realidade de Deus e de Sua participação na História” (Gerhard Hasel, Teologia do Novo Testamento, p. 164). É por meio de Cristo que Deus age na História para salvar a humanidade. Nesse contexto, o mais fiel de todos os registros das ações de Deus na Histó- ria é a Bíblia. E as Escrituras revelam que quando ocorrer o segundo advento de Cristo, Deus vai intervir na História de maneira aberta, direta e universal. E nesse momento, ao olharmos para as páginas viradas da nossa vida, louvaremos ao Senhor porque nos conduziu bondosamente, assim como um Pai segura a mão do Seu filho.

sábado, 19 de março de 2016

Livros da morte

Livros da morte 

FLÁVIO PEREIRA DA SILVA FILHO,

Como autores têm usado o poder da literatura para o mal enquanto outros levam vida e salvação por meio da página impressa

Ilustração: Eduardo Olszewski
Ilustração: Eduardo Olszewski
No contexto da literatura europeia e, mais especificamente, da literatura alemã, 2016 tem sido considerado o ano do livro Mein Kampf (Minha Luta). Inclusive, um raro exemplar da obra escrita por Adolf Hitler foi arrematada por 20.665 dólares em um leilão realizado nesta sexta-feira, 18 de março, nos Estados Unidos. A cópia leiloada foi encontrada por soldados americanos da 45º Divisão de Infantaria no apartamento do ditador alemão, em Munique, em maio de 1945, durante a tomada da capital pelas tropas aliadas. Segundo os responsáveis pela casa de leilões, provavelmente o exemplar tenha sido mantido por Hitler para seu próprio uso ou com o intuito de presentear algum admirador.
Setenta anos depois do suposto suicídio de Hitler, o livro entrou em domínio público no dia 1º de janeiro deste ano, e tem quebrado recordes de venda, figurando na lista dos best-sellers alemães desde o fim de fevereiro.
No entanto, Mein Kampf, a “bíblia do nazismo”, é caracterizada pela incitação ao ódio e ao racismo. Como consequência da aplicação prática de sua doutrina política, o livro autobiográfico e propagandístico de Hitler alimentou a ideologia que levou ao extermínio de seis milhões de judeus, bem como à perseguição a negros, ciganos, homossexuais e a outros grupos que não se enquadravam no ideal de uma suposta “raça pura”.
Outro livro da morte é O Manual Completo de Suicídio, de Wataru Tsurumi, publicado em 1993. Na obra, o autor ensina, de maneira sistemática, vários métodos de suicídio. Como desdobramento dessa terrível pedagogia, existem muitos registros de suicídio, nos quais o “manual” foi encontrado próximo ao corpo.
Com mais de um milhão de cópias vendidas, o livro de Wataru também se tornou um best-seller. No entanto, seis anos após seu lançamento, as autoridades japonesas cogitaram restringir a venda do livro, haja vista que em 1999, a taxa de suicídio entre os jovens de Tóquio aumentou 85% – e entre a população japonesa em geral houve um crescimento de 35%. “Nós temos recebido ligações de pessoas que seguiram as instruções do livro, mas falharam em se suicidar, estando sob grande dor”, afirmou na época Yukiko Nishihara, fundador de um serviço telefônico de emergência em Tóquio, em entrevista à BBC.
É pertinente lembrar que muito tempo antes, em 1774, a publicação do romance Os Sofrimentos do Jovem Werther pelo escritor alemão J. W. Goethe já gerou uma onda de suicídios entre os jovens. Em boa parte dos casos, as vítimas imitavam as características da morte do protagonista do livro. Devido a esse incidente, ainda hoje, na literatura psiquiátrica, o tipo de morte em que o suicida imita algum personagem midiático recebe o nome técnico de “efeito de Werther”.
Em suma, tanto Mein Kampf quanto o Manual Completo do Suicídio e Os Sofrimentos do Jovem Werther, entre várias outras literaturas que fazem apologia à destruição da vida, ou à autodestruição, são pregadores silenciosos que agem como legítimos livros da morte.
Livros que salvam
Enquanto alguns escritores têm usado sua influência para o mal outros levam vida e salvação por meio da página impressa, ajudando a reerguer o ser humano. Falo por experiência própria, pois testemunhei o poder de transformação dos bons livros.
No início do ano 2000, com um histórico de consumo de cocaína, maconha e álcool, eu estava numa condição de debilidade física e mental. Um dia tive uma forte sensação de taquicardia que me levou ao estado de pânico. Naquele momento, com apenas 22 anos de idade, pensei que seria o fim da linha. Porém, sobrevivi. E dali em diante comecei a repensar meus hábitos de vida.
Foi um momento de desespero e de procura por respostas. Naquela ocasião, o Espírito de Deus me fez lembrar do livro Nutrição Orientada, de Durval Stocler de Lima (publicado pela CPB), que havia lido quando criança. Essa obra foi distribuída pelos colportores na década de 1980. “Como o braço direito da terceira mensagem angélica, os métodos de Deus para tratamento da doença abrirão portas para a entrada da verdade presente” (Evangelismo, p. 516). Pude experimentar na prática o significado desse texto da escritora norte-americana Ellen G. White.
Pastor guarda livro publicado pela CPB que o influenciou a mudar de vida. Créditos da imagem: arquivo pessoal
Pastor guarda livro publicado pela CPB que o influenciou a mudar de vida. Créditos da imagem: arquivo pessoal
Ao seguir as instruções do livro, comecei a sentir uma grande mudança na minha condição mental. Diminuí o consumo de cafeína, açúcar e carne na dieta alimentar. Depois de ter iniciado essa reforma de saúde, também abandonei o ateísmo e comecei a acreditar em Deus através da simples observação da natureza. Como afirma o apóstolo Paulo, “os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas, de modo que esses homens são indesculpáveis” (Rm 1:20).
Em meados daquele mesmo ano, ouvi mentalmente uma voz que me disse: “Você é tão preocupado em ajudar as pessoas, mas não tem ajudado aquelas que mais precisam de seu auxílio: sua esposa e sua filha”. Até aquela ocasião, meu casamento havia sido uma farsa. Eu vivia em uma cidade e minha esposa em outra, tendo que carregar sozinha o fardo das responsabilidades familiares.
Ao ouvir aquela voz, fui imediatamente até minha casa e arrumei as malas. Meu objetivo era resgatar minha família. O único livro que levei para ler durante a viagem foi uma edição antiga do Vida de Jesus, de Ellen G. White. Em ocasiões anteriores, quando alguém olhava para minha biblioteca e perguntava sobre esta obra, eu dizia que era uma literatura sem valor e que não desse importância para ela. Mas, a partir daquele dia, passei a ver esse livro com outros olhos.
Em 2001, Jorselins Barbosa, um professor de matemática, pregou o evangelho para mim, e me presenteou com o livro O Grande Conflito. No ano seguinte, tomei a decisão de me batizar.
Mais recentemente, seguindo os passos de meu avô, Francisco Lago Souza, que trabalhou como colportor durante as décadas de 1970 e 1980, tive a oportunidade de dedicar cerca de oito anos da minha vida para evangelizar por meio da literatura. Na minha história, os livros da vida venceram os livros da morte.

FLÁVIO PEREIRA DA SILVA FILHO, mestre em Teologia Bíblica, é pastor e jornalista

Fonte - http://www.revistaadventista.com.br/blog/2016/03/18/livros-da-morte/

VEJA TAMBÉM: Pastor conta sobre sua transformação de vida no programa 180 graus

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