Doutrina inventada?
Qual é a base da crença fundamental adventista sobre o santuário
CLINTON WAHLEN
A doutrina do santuário é realmente bíblica ou teria sido criada para evitar o constrangimento causado pelo fato de Cristo não ter voltado em 22 de outubro de 1844? Em resposta a alegações que surgiram a partir da década de 1970, a Comissão de Daniel e Apocalipse da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em parceria com o Instituto de Pesquisa Bíblica, dedicou-se ao tema em uma série de sete volumes.
As obras da chamada série DARCOM, publicadas originalmente em inglês e lançadas posteriormente no Brasil pela Unaspress, demonstram que a doutrina do santuário se fundamenta solidamente nas Escrituras. A pesquisa também confirmou que a compreensão desenvolvida pelos primeiros adventistas estava correta: a "purificação do santuário", mencionada em Daniel 8:14, não se refere à purificação da Terra na segunda vinda de Cristo, mas à purificação do santuário celestial por meio de uma obra de juízo.
Daniel 2, 7 e 8 apresentam, em essência, a mesma sequência profética, embora cada capítulo acrescente novos detalhes. Em Daniel 2, os quatro metais que compõem a estátua representam quatro reinos sucessivos. Em Daniel 7, esses mesmos reinos são simbolizados por quatro animais impuros, aos quais se acrescenta um chifre pequeno que surge do quarto animal (v. 8). Em seguida, a cena se desloca para um tribunal celestial, onde ocorre um julgamento do qual participam o "Ancião de Dias" (v. 9) e "alguém como um Filho do Homem" (v. 13).
Daniel 8 repete essa mesma sequência profética, mas omite Babilônia, pois ela já se aproximava de seu fim quando a visão foi concedida. Desta vez, dois animais puros – um carneiro e um bode – representam a Média-Pérsia e a Grécia. O chifre pequeno de Daniel 8 surge de um dos quatro ventos, isto é, dos quatro pontos cardeais, apontando para Roma. Ele representa Roma pagã em sua expansão territorial (horizontal), descrita nos versos 9 e 10, e Roma papal em seu ataque (vertical) ao Céu, ao Príncipe do exército e ao lugar do santuário de Deus (v. 11, 12). Um animal puro seria inadequado para simbolizar Roma em razão de sua "transgressão desoladora" (v. 13), também chamada de "abominação desoladora" (Daniel 11:31; 12:11; ver também Mateus 24:15).
A resposta do Céu ao ataque do papado contra o santuário de Deus e Seu povo, simbolizados pelo "exército" e pelas "estrelas" (Daniel 12:3), aparece em Daniel 8:14: depois de 2.300 "tardes e manhãs", o santuário seria purificado. Essa declaração aponta para um Dia da Expiação celestial. No ritual do santuário terrestre, tanto um carneiro quanto um bode eram oferecidos nesse dia, e nessa ordem (Levítico 16:3, 9). Na ocasião, o santuário era purificado dos pecados confessados ao longo do ano. O sangue do bode para o Senhor era aspergido primeiramente no lugar santíssimo, sobre e diante do propiciatório, a fim de fazer expiação pelos pecados contra a lei depositada dentro da arca da aliança (v. 15).
A comparação entre Daniel 7 e 8 deixa claro que Daniel 8:14 descreve o mesmo julgamento celestial retratado no capítulo anterior. Esse julgamento não envolve apenas os animais e o chifre pequeno (Daniel 7:11, 12, 26; 8:13, 25), mas também o povo de Deus (Daniel 7:9, 10, 13, 14, 22, 27; 8:13, 24, 25).
O início desse julgamento está diretamente relacionado à profecia das 70 semanas de Daniel 9. Ambos os períodos proféticos se concentram na obra expiatória de Cristo: as 70 semanas apontam para Seu sacrifício na cruz, enquanto os 2.300 dias apontam para Seu ministério no Dia da Expiação, no santuário celestial.
Antes que Cristo retorne como "REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES" (Apocalipse 19:16), os súditos de Seu reino precisam ser claramente identificados por meio desse julgamento celestial, iniciado em 1844. Somente então Ele poderá recompensar "a cada um segundo as suas obras" (Apocalipse 22:12).
CLINTON WAHLEN é diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica
Revista Adventista - Outubro 2026 - Pg. 15, 16
