sexta-feira, 2 de novembro de 2018

História da Igreja Adventista do Sétimo Dia no Estado do Tocantins


        
                
        Introdução

Escrever a história do início da igreja em um determinado lugar não é tarefa fácil. Corre-se o risco de omitir fatos, esquecer pessoas, ou distorcer a própria história - principalmente quando não se vivenciou cada momento da mesma - apenas sabe de oitiva, ao conversar com pessoas que ouviram de terceiros.

Recebi a incumbência de escrever, em resumo, a história da igreja no Estado do Tocantins. Tive a petulância de aceitar. Agora, cá estou, tentando lembrar fatos, relembrar ditos a mim passados, há muitos anos, décadas mesmo, e relembrar mais de trinta anos de vivência por essas plagas.

Que Deus me ajude para que seja bem sucedido nessa tarefa. E se eu errar (e com certeza errarei) ao narrar os fatos: omitindo uns, deixando de citar outros e esquecer nomes, de antemão peço perdão. Nessa narrativa estou me valendo de lembranças por mim vividas e informações a mim passadas, ao longo de muitos anos, por pessoas que - muitas delas - nem mesmo lembro mais quem foram.

Início

As primeiras congregações da Igreja Adventista do Sétimo Dia no Tocantins tiveram início, quando o mesmo ainda era o norte do Estado de Goiás. Começaram em lugares diferentes, em épocas diferentes, totalmente desassociadas. Talvez nem soubessem da existência umas das outras. Os lugares onde surgiram estes primeiros agrupamentos no norte de Goiás (hoje Tocantins) foram Araguacema, Araguaína e Ponte Alta do Bom Jesus.

Araguacema, com certeza foi a cidade dos primeiros conversos ao adventismo no Estado. Quanto às outras duas cidades, tudo leva a crer que Ponte Alta do Bom Jesus registrou a presença de adventistas antes de Araguaína.

Ponte Alta do Bom Jesus

A presença da Igreja em Ponte Alta é resultado da migração de adventistas vindo de Barreiras/BA. Alguns deles evangelizados pelo grande missionário, Plácido da Rocha Pita, que fez história na Bahia.

A antiga “Missão Goiano Mineiro”, abrangia os territórios do Estado de Goiás, Distrito Federal, Tocantins e todo o Triangulo mineiro. O Pastor Wilson Sarli, na época presidente da mesma, ao saber desses adventistas em Ponte Alta, viajou até ali com o pastor distrital (não me consta quem era), fez batismos e organizou o grupo. Não recordo a data exata, apenas que foi na década de 60. Pioneiros daquela época em Ponte Alta são: o irmão Ziraías e sua família. Família dedicada à igreja e muito querida na cidade.

Araguaína

Foi no início da década de 1960 que dois colportores chegaram à cidade de Araguaína. Ao adentraram em um bar, venderam o livro Vida de Jesus a dois fregueses, sendo que um deles é o irmão José Ribamar, que mora em Arapoema, Tocantins. José Ribamar ficou 50 anos, lendo livros adventistas, defendendo de maneira veemente a igreja e discutindo nossas doutrinas com pastores pentecostais, porém nunca se batizava. Quando completou 50 anos de “adventista simpatizante”, já em 2013, o pastor Arôvel, teve o privilégio de batizá-lo.
Apenas em 1968 que se organizou a igreja em Araguaína com a chegada de duas famílias: Joaquim Martins e esposa, Maria Martins, e Antônio Gabriel e família. Depois foram chegando outras famílias. João Hertel, Sebastião Silvério, e Vicência Machado. Todos estes, com seus respectivos familiares.
João Hertel é o pai do irmão Berlindes Hertel, que mora em Porto Nacional e, por sua vez, é o sogro do Dr. Jandir, Ancião da igreja central de Palmas.
As primeiras reuniões da igreja em Araguaína foram realizadas em um salão alugado, muito precário, na “Rua da Tripa”, bairro entroncamento.  Hoje essa rua tem o nome de Rua Falcão Coelho.
Depois de algum tempo, e mudanças por vários outros salões, compraram um terreno na Rua 13 de Maio, esquina com a Rua Sadoc Correia, onde fizeram um pequeno salão. O salão era apenas uma meia água, dividido em duas salas. Na sala dos fundos se reuniam as crianças.
Lembro-me bem desse salão, quando eu passava por lá, colportando.  Ali fazíamos programas animados e muito inspiradores.
Mais tarde, após ser construído o templo, esse salão se tornou a primeira Escola Adventista de Araguaína.

Araguacema

O inicio da igreja em Araguacema foi dramático e comovente.
A senhora Ernestina Leite, casada com o professor Manoel Ataíde, com quem teve dois filhos, não foi feliz no casamento, e após alguns desentendimentos, separou-se do esposo e mudou-se para o sul de Goiás, indo morar em Araguari.  
Visitando alguns parentes em Goiânia, conheceu a mensagem adventista e a aceitou prontamente, tornando-se a primeira pessoa, do hoje estado do Tocantins, a fazer parte da igreja adventista.
O esposo, que ainda era jovem, com a separação da esposa, resolveu se tornar padre, para tanto, entrou em um seminário e foi estudar teologia,
Depois de formado, veio a ser o pároco da própria cidade de onde saíra. Muito empreendedor, criou um colégio, que também era um orfanato. Ali estudava alunos oriundos de muitas cidades de Goiás, inclusive de Goiânia, e o mesmo, era custeado pela igreja e pelo estado.
Havia, porém, um problema com aquele padre. Ele sonhava em ser ordenado e não podia, pois era casado. Na época não havia divórcio, e mesmo que houvesse, a igreja católica não aceita o divorcio, portanto não poderia ser ordenado.
Ele celebrava alguns ritos da igreja, mas não todos, pois era apenas diácono. Mas ele queria ser padre ordenado, mas só poderia se fosse solteiro ou viúvo.
Teve uma ideia. Reuniu algumas beatas para fazer uma novena. Rezariam nove dias pedindo que a esposa morresse. No último dia, ao terminar a última reza, um raio caiu sobre ele e ele morreu.
Com sua morte, o bispo da diocese veio para passar os bens dele para a igreja, alguns alqueires de terra, gado, casa e o colégio. A viúva, irmã Ernestina, ao saber da morte do esposo, veio de Goiânia, requerer os bens que por direito pertencia a ela e aos seus filhos. O Bispo dizia que os bens do falecido pertenciam à igreja, pois ele era padre e os bens dos padres pertencem a igreja
Ela se opôs. Ele tinha esposa e filhos, ela disse. Aqui estão as certidões de casamento e registro dos filhos, portanto, tudo que pertenceu a Manoel Ataíde (nome do esposo) pertence a mim, e aos meus filhos.
O bispo, juntamente com o Juiz da comarca, resolveu dar “um jeitinho brasileiro” para tomar os bens dela. Fariam um documento, deserdando ela do marido e dando maioridade ao filho mais velho dela, que tinha entre 15/16 anos. Ele, o filho, passaria a escritura dos bens do pai, para a igreja, e em troca, eles, os padres, enviariam o rapaz para a Europa, para estudar o que quisesse.
No dia da audiência, para fazer esse documento, reuniram-se no fórum, Juiz, advogado, o bispo, padres, escrivão e etc. proibiram ela de entrar ali, e puseram dois policiais na porta para impedi-la.
O promotor estava viajando para Goiânia, viagem de muitos dias, pois viajava a cavalo.  Porem no meio do caminho desistiu da viagem e resolveu voltar. Chegou no dia e na hora da audiência. A cidade toda comentava o fato. Uns eram contra, achavam aquilo uma injustiça, outros eram a favor, afinal, diziam, ela é protestante, não tem direito de herdar nada de um padre.
O promotor ao tomar conhecimento do fato, dirigiu-se ao fórum e a encontrou chorando na rua, e perguntou: “Por que a senhora esta aí fora?” ela respondeu: “aqueles guardas não me deixam entrar”. “Pois vamos comigo”, disse ele. Ela entrou acompanhada, do promotor.
Ao chegar à sala da audiência, o promotor se dirigiu ao Juiz e perguntou: “O senhor não se envergonha de querer tomar os bens de uma viúva, para entregar a um estrangeiro?” (o bispo não era brasileiro). Aqui está a constituição do Brasil, o senhor vai rasgar a constituição? O juiz ficou calado. O promotor pegou a pasta com os documentos e as escrituras, entregou a ela e disse: Toma. Vá cuidar dos seus bens.
Entre os bens, estava o orfanato. Ela assumiu a direção do mesmo, porem o bispo proibiu, sob pena de excomunhão, qualquer pessoa de ajuda-la. Como alimentar cerca de 60 alunos e pagar funcionários e professores, sem a ajuda do estado, da igreja e da comunidade?
O presidente da Missão Goiano Mineiro, Pastor Wilson Sarli, ao saber da situação, passou a ajuda-la, com alimentos, e dinheiro, e passou a levar os alunos que concluíam o ensino primário, para o instituto adventista em campinas. IASP.  Dezenas de alunos estudaram naquele internato e muitos se tornaram obreiros. Entre eles, Edimar Martins, que foi tesoureiro no IASP e outros campos, inclusive na Associação Brasil Central. Dr. Manoel, diretor clinico do hospital adventista de Manaus, vários obreiros na Casa Publicadora Brasileira, Pastor Diomar Cruz, sobrinho de Ernestina, e Dioi Cruz, filho do Diomar, que hoje é o Reitor do Instituto de cursos avançados e pós-doutorado nas Filipinas. Dioi não chegou a ser aluno de Ernestina, mas é neto espiritual na fé, daquela grande mulher além desses citados há dezenas servindo a obra, ou como obreiros, ou como voluntários. Entre eles, o Jonas Ribeiro, esposa da irmã Terezinha, membros da igreja central de Palmas, Luiz, que mora em porto Nacional, Zequinha, da igreja 305 Norte, Professora Josefa, em Araguacema e tantos outros.
Tive o prazer de ter conhecido Ernestina Leite, eu ainda jovem, 20 anos, e ela com mais de 70. Foi uma inspiração.
No primeiro batismo em Araguacema ocorreu em 1954. Cerca de dez pessoas estavam doutrinadas, todas pela irmã Ernestina, que foi uma grande missionária. Este foi o primeiro batismo no norte de Goiás. Entre os batizandos estava a Irmã Rute, membro até hoje da Igreja de Araguacema, que na hora de entrar nas águas, pediu para ser a primeira, e entrou antes de todos. Mas tarde, Rute se tornou nora de Ernestina. Portanto, a primeira pessoa batizada no Tocantins se encontra em nosso meio.

Pastores

O primeiro pastor a visitar o norte de Goiás, hoje Tocantins, que se tem notícia, foi o pastor José Dias Campos, que era o pastor do distrito de Anápolis. O distrito dele começava em Anápolis e se estendia até o Bico do Papagaio.
Depois o distrito foi dividido, e Uruaçu tornou-se sede, o distrito abrangia de Uruaçu, até o bico do papagaio.
Porém o primeiro distrito no território do Tocantins foi Araguaína, com a divisão do distrito de Uruaçu, Araguaína tornou-se sede e o primeiro pastor, foi Emerson Sousa Costa, e Elita a esposa, que tocava sanfona. Como era agradável, ouvi-la tocar.
O distrito de Araguaína começava em Gurupi e ia até Esperantina. Os primeiros batismos em Araguatins foram feitos pelo pastor Emerson Costa.
Depois do pastor Emerson, os distritais em Araguaína, foi: João Maximino Lelis, Carlos Enoc Polheim, Josemi Azevedo, e outros.
Tempos depois, foi criado o segundo distrito, com sede em Paraíso, e o primeiro pastor distrital foi Moisés Ribeiro, nos tornamos bons amigos.
Logo em seguida, foi criado o distrito de Gurupi, e o distrital foi o pastor João Batista Macedo.
Com a criação do Estado do Tocantins, a Associação Brasil Central, abriu mais um distrito, com sede em Miracema, que era a capital provisória do estado. O pastor enviado para esse novo distrito, tinha uma dupla função: pastorear oito igrejas e plantar igrejas na nova capital, Palmas.
Recebeu essa honrosa missão, o signatário dessas linhas, o pastor Manoel Barbosa da Silva.
Aquele pastor ficou dois anos em Miracema, pois não tinha como morar em Palmas, pois a cidade de Palmas, não havia, era só matas e cerrados. Ele viu Palmas nascer. Viu as primeiras ruas serem abertas. Plantou as primeiras igrejas da nova capital.  Palmas.

Palmas

A primeira igreja em Palmas foi Taquaralto. Começou no primeiro sábado de abril de 1990, em uma construção descoberta, pertencente ao irmão João Sabino. Nesse mesmo dia o grupo foi organizado com 16 pessoas.
Quinze dias depois, aconteceu a primeira escola sabatina no centro de Palmas.
Aconteceu assim. O irmão Lourival e esposa, recém-chegados da cidade de Fátima, não sabendo que havia um grupo de irmãos em Taquaralto, resolveu fazer a escola sabatina em casa.
Colocaram as cadeiras em forma de auditório, ele sentou ali com os filhos, que eram três, e ela foi a frente dirigir a escola sabatina com toda a formalidade da mesma, inclusive com o informativo mundial e lição geral
Depois foi a vez de ele pregar, e ela ficou com as crianças ouvindo o sermão.
Na semana seguinte, ele encontrou alguns irmãos recém-chegados em Palmas. Antônio Carneiro, Almir Maciel, Irmão Brito, e irmã Ivani.  Todos com suas famílias, portanto, a segunda escola sabatina central, foi bastante animada.
No segundo sábado de maio, o pastor organizou o grupo central de Palmas.
Depois foram surgindo outras igrejas. Cada quadra nova que surgia, fazia-se um requerimento ao poder público, conseguia-se um terreno e começavam uma nova igreja.
As primeiras igrejas de palmas foram. Pela ordem: Taquaralto, Aureny 2, Aureny 4 Aureny 3
Em Palmas: Central, 1108 Sul, 305 norte, 604 Norte.
Isso no seu primeiro período de pastorado em palmas. Ele foi pastor da igreja central oito anos. Nos primeiros quatro anos, fundou estas oito igrejas citadas. Em seguida foi transferido para Brasília, quatro anos depois retornou e no segundo período fundou mais sete igrejas na cidade.
Hoje Palmas têm mais de trinta igrejas e cerca de dois mil membros

Escola Adventista

Seu primeiro sonho para a nova capital era construir uma escola, e o primeiro terreno que ele solicitou ao governo, foi para construir a Escola Adventista. Recebeu aquele terreno, onde é o Colégio Adventista, ainda no meio da mata. Não havia as ruas ainda, apenas picadas onde seriam as ruas, e pequenas estacas entre as árvores, demarcando o terreno.
No mesmo ano começou a construção da igreja, e no ano seguinte começou a escola. Quando foi transferido para Brasília, deixou o primeiro bloco da escola, pronto, e mais de 60 alunos matriculados.
Hoje, quando ele vê o desenvolvimento das igrejas adventistas em Palmas e a pujança do colégio Adventista, sente-se realizado, e diz em alto e bom som: Louvado Seja Deus.

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