Sois Felizes no Senhor?
MEADE MACGUIRE
QUANTAS vezes ouvimos dizer: "Bem, todos nós temos mais ou menos uma vida cheia de altos e baixos, se bem que me parece que alguns de nós estão mais vezes em baixo do que no alto." O lamentável acerca de observações como essas, é que tantas pessoas parecem tomar isto como coisa certa, e não fazem esforços para descobrir se é possível uma mudança.
Não quero com isto afirmar que se possa viver por muito tempo neste mundo arruinado pelo pecado, sem decepções, sofrimento e dor. A questão é se a pessoa pode enfrentar todas essas vicissitudes da vida, inclusive perda de propriedades, de amigos, saúde ou entes queridos, e ainda experimentar aquela paz interior e tranquilidade que coisa alguma pode perturbar.
Se devemos possuir aquela vida crista que satisfaz, precisamos assentar de uma vez para sempre que a Palavra de Deus quer dizer exactamente o que diz. Com demasiada frequência procuramos ajustar a Palavra a nossas próprias ideias, de preferência a pôr nossas teorias de acordo com as Escrituras. Talvez alguém diga: "Estou certo de que a Bíblia não quer dizer isto, pois tentei-o, e não deu certo". Outros, com mais fé e discernimento, ou com mais perseverança, acham que dá resultado. Resolvamos pegar a Deus em Sua Palavra, com absoluta certeza de que ela não pode falhar.
Uma vez escreveu o apóstolo Paulo: "Regozijai-vos sempre". I Tessalonicenses 5:16. E outra vez, quando escrevendo aos irmãos, disse: "Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos". Fil. 4:4. Não disse: Regozijai-vos no Senhor apenas quando estiverdes passando por alguma dolorosa prova, ou aflição, ou desapontamento. Disse, antes: "Regozijai-vos sempre".
Escrevendo, porém, sua epístola aos irmãos romanos, ele disse: "Em Cristo, digo a verdade, não minto (dando-me testemunho minha consciência no Espírito Santo): que tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração". Rom. 9:1 e 2. Se considerarmos isto superficialmente, poderemos ter a impressão de que o apóstolo não praticava aquilo que pregava. Mas ao vermos justamente o que ele tinha na ideia, compreendemos que não há contradição nestas declarações. Quando ele escreve acerca de "grande tristeza e contínua dor" em seu coração, está pensando nos entes queridos não salvos. E novamente ele fala de grande alegria por causa de almas por ele levadas a Cristo, as quais são fiéis e leais a seu Mestre.
"Grande é a ousadia da minha fala para convosco, e grande a minha jactância a respeito de vós; estou cheio de consolação; superabundo de gozo em todas as nossas tribulações." II Cor. 7:4. É evidente que podemos ter grande alegria e grande tristeza no coração ao mesmo tempo.
Penso na terrível tragédia que sobreveio a uma de nossas cidades anos atrás. Uma grande represa estava a ponto de rebentar, e um homem correu velozmente através do estreito vale, clamando e advertindo o povo para que subisse ràpidamente ao monte antes que viesse a inundação. Muitos não avaliaram a seriedade da situação, e levaram muito tempo a se aprontar. A enchente veio rugindo vale abaixo, destruindo lares e afogando muita gente. Tenho imaginado aquele homem, depois que passou a inundação, ao olhar os corpos de homens e mulheres e crianças que jaziam na margem, com coração profundamente triste. Ao mesmo tempo, exultava por ter consigo sua família.
Faz algum tempo, um homem me falava acerca de seus quatro filhos. Ele e a esposa haviam mourejado e se sacrificado e orado pelos filhos, e os tinham mandado à escola paroquial, a ginásio e colégio nossos. Tinham agora o coração pleno de alegria e de louvor a Deus, pois esses filhos eram todos zelosos e consagrados obreiros na causa do Senhor. Falou-me depois em seu irmão, cujos filhos receberam educação superior, mas não em nossas escolas. Acham-se todos em posições do mundo, sem nenhum interesse na causa de Deus. Sei que, ao passo que esse homem se regozija por causa dos próprios filhos, tem grande tristeza e dor pela família de seu irmão.
Há, provavelmente, muitas pessoas que, se se vissem herdeiras de uma fortuna, ficariam quase histéricas de alegria. E se, por qualquer infortúnio, perdessem tudo isso, seu pesar e acabrunhamento seria tão profundo como o oceano. Isto mostra simplesmente como os sentimentos são afectados pelas circunstâncias. A alegria e a felicidade de um cristão, no entanto, têm origem diversa. Jesus disse: "Como o Pai me amou, Eu vos amei a vós; permanecei no Meu amor. Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor; do mesmo modo que Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai, e permaneço no Seu amor. Tenho-vos dito isto, para que o Meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo. O Meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei." S. João 15:9-12.
A alegria relaciona-se intimamente com o amor. Em verdade, o amor é a fonte de toda verdadeira alegria e felicidade que temos nesta vida, ou havemos de ter na vida futura. Se conhecemos realmente a Jesus, havemos de amá-l'O; e, se O amamos, obedecer-Lhe-emos. "Se alguém Me ama, guardará a Minha palavra". S. João 14:23. Se Lhe obedecermos, permaneceremos n'Ele; e essa relação afastará todo cuidado e ansiedade e temor de nossa vida, enchendo-nos o coração de alegria e paz. "A vida em Cristo é uma vida de tranquilidade." - Vereda de Cristo. É cultivando a consciência dessa constante presença de Jesus, nosso terno, amante e todo-poderoso Redentor, que nos erguemos acima dos cuidados e ansiedades que pesam esmagadoramente sobre os que não aprenderam o grande segredo de lançar sobre o Senhor todos os seus cuidados.
Pensamos na velha história do homem que ia mourejando estrada afora, sob pesado fardo. Foi alcançado por um carro e o guia convidou-o bondosamente a tomar lugar no veículo. Com prazer aceitou ele o oferecimento, e sentou-se, mas conservou o fardo nos ombros. Disse-lhe então o dono do carro: "Por que não deposita o fardo no carro?" "Oh", respondeu o homem, "o senhor já foi tão bondoso em me dar um lugar, que eu não podia pedir-lhe que levasse também minha carga!" Quantos cristãos andam a cumprir seus deveres com coração triste e pesado, porque levam seu fardo ao Senhor, mas não Lho depositam aos pés!
Muitos de nós ficaríamos surpreendidos se considerássemos seriamente a positiva declaração feita por Jesus a Seus discípulos, e que se aplica certamente a todos os que O seguem. "E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles, e disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus." S. Mat. 18:2 e 3. Não seria bom se nos dirigíssemos frequentemente a pergunta: Estou eu convertido, e sou como uma criança? Que queria Jesus dizer com essa declaração? Diz a Escritura: "O justo viverá da fé". Não é a fé o mais surpreendente e predominante traço de uma criança? A criança vive pela fé. Confia que os pais lhe satisfaçam todas as necessidades, que a protejam do perigo, resolvam-lhe os problemas presentes e futuros. Não nos surpreenderíamos de ver uma criança andar o dia inteiro a sorrir e cantar, livre de cuidados, caso possua pais cristãos, nobres e amorosos. Por que não confiaríamos em nosso Pai celeste tão implicitamente como uma criancinha confia em seus pais terrestres?
Talvez nenhum texto das Escrituras nos seja mais familiar que S. Mateus 1:21: "Chamarás o Seu nome Jesus; porque Ele salvará o Seu povo dos seus pecados". Aceitamos isto como o próprio fundamento do evangelho. Todavia não deixamos, com o espírito de uma criança, que Ele nos salve de nossos pecados. Concordamos em que Ele nos quer salvar, e que, sendo todo-poderoso, é capaz de fazê-lo, e ansiamos muito ser salvos de nossos pecados; no entanto, lutamos por anos, muitas vezes deprimidos, desanimados e em desespero porque não podemos obter a vitória sobre esses pecados. Certamente esta não é a atitude de uma criancinha. Quão preciosa nos deve ser a certeza: "Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplicas, com acção de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos
Revista Adventista - Março 1950 - Pg 1,2
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