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terça-feira, 6 de abril de 2021

Apossando-se da Justiça de Cristo

Ellen White


 Os que confiam inteiramente na justiça de Cristo, olhando para Ele com viva fé, conhecem o Espírito de Cristo e são conhecidos por Cristo. Fé simples habilita o crente a realmente considerar-se morto para o pecado, mas vivo para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor. Somos salvos pela graça, mediante a fé; e isto não vem de nós, é dom de Deus. Caso procurássemos desdobrar essas preciosas promessas aos sábios do mundo, eles zombariam de nós; pois "o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente". I Cor. 2:14.

Quando Jesus estava prestes a ascender ao alto, disse a Seus discípulos: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê, nem O conhece; mas vós O conheceis, porque habita convosco e estará em vós." João 14:16 e 17. Disse também: "Aquele que tem os Meus mandamentos e os guarda, este é o que Me ama; e aquele que Me ama será amado de Meu Pai, e Eu o amarei e Me manifestarei a ele." João 14:21.

Há muitos que encontram satisfação em identificar-se com falsas doutrinas, para que não haja perturbação ou diferença entre eles e o mundo; mas os filhos de Deus devem dar testemunho da verdade, não somente pela pena e pela voz, mas também pelo espírito e caráter. Nosso Salvador declara que o mundo não pode receber o Espírito da verdade. Eles não conseguem discernir a verdade, pois não discernem a Cristo, o Autor da verdade. Discípulos mornos, adeptos de coração frio que não se acham imbuídos do Espírito de Cristo, não são capazes de discernir a preciosidade de Sua justiça; mas procuram estabelecer sua própria justiça.

O mundo busca as coisas do mundo - negócios, honra mundana, ostentação, satisfação egoísta. Cristo procura romper esse fascínio que mantém os homens afastados dEle. Procura chamar a atenção dos homens para o mundo por vir, que Satanás tem conseguido ofuscar com sua própria sombra. Cristo coloca o mundo eterno dentro do alcance da visão das pessoas, apresenta-lhes suas atrações, declara-lhes que preparará mansões para eles e que virá outra vez e os receberá para Si mesmo. O desígnio de Satanás é encher a mente de tal maneira com descomedido amor de coisas sensuais que o amor de Deus e o anseio pelo Céu sejam expelidos do coração. ...


Mordomos Fiéis

Deus solicita que aqueles a quem Ele confiou os Seus bens se portem como mordomos fiéis. O Senhor quer que todas as coisas de interesse temporal ocupem um lugar secundário no coração e nos pensamentos; mas Satanás quer que as coisas da Terra ocupem o primeiro lugar em nossa vida. O Senhor quer que aprovemos aquilo que é excelente. Ele nos mostra o conflito em que precisamos empenhar-nos, e revela o caráter e o plano da redenção. Expõe diante de vós os perigos que tereis de enfrentar, a abnegação que será requerida, e recomenda que avalieis o preço, assegurando-vos que se vos empenhardes zelosamente no conflito, o poder divino unir-se-á ao esforço humano.

A batalha cristã não é uma luta travada contra a carne e o sangue, mas contra principados, contra potestades, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. O cristão tem de contender com poderes sobrenaturais, mas não deve ser deixado a empenhar-se sozinho no conflito. O Salvador é o capitão de sua salvação e com Ele o homem pode ser mais do que vencedor.

O Redentor do mundo não queria que o homem ficasse em ignorância dos ardis de Satanás. A grande confederação do mal é alistada contra os que querem vencer; mas Cristo deseja que olhemos para as coisas que não se vêem, para os exércitos do Céu que se acampam ao redor dos que amam a Deus, a fim de livrá-los. Os anjos do Céu estão interessados em favor do homem. O poder da Onipotência está à disposição dos que confiam em Deus. O Pai aceita a justiça de Cristo em favor de Seus seguidores, e eles são circundados de luz e santidade que Satanás não pode atravessar. A voz do Capitão de nossa salvação fala a Seus seguidores, dizendo: ""Tende bom ânimo; Eu venci o mundo." João 16:33. Sou vossa defesa; prossegui para a vitória."


A Cruz do Calvário

Por meio de Cristo provê-se ao homem tanto a restauração como a reconciliação. O abismo produzido pelo pecado foi transposto pela cruz do Calvário. Foi pago por Jesus um resgate pleno e completo, em virtude do qual o pecador é perdoado e mantida a justiça da lei. Todos os que crêem que Cristo é o sacrifício expiador podem chegar a Ele e receber o perdão dos pecados; pois pelos méritos de Cristo, franqueou-se a comunicação entre Deus e o homem. Deus pode aceitar-me como filho Seu, e eu posso invocá-Lo como meu Pai amoroso e nEle me regozijar.

Temos de polarizar nossas esperanças quanto ao Céu tão-somente em Cristo, porque Ele é nosso Substituto e Penhor. Nós transgredimos a lei de Deus, e pelas obras da lei nenhuma carne será justificada. Os melhores esforços que o homem, em suas próprias forças, pode fazer, não têm valor para satisfazer a santa e justa lei que ele transgrediu; mas pela fé em Cristo pode ele alegar a justiça do Filho de Deus como toda-suficiente. Cristo, em Sua natureza humana satisfez as exigências da lei. Suportou a maldição da lei pelo pecador, por Ele fez expiação, para que todo aquele que nEle cresse não perecesse mas tivesse vida eterna. A fé genuína apropria-se da justiça de Cristo, e o pecador é feito vencedor com Cristo; pois ele se faz participante da natureza divina, e assim se combinam divindade e humanidade.

Quem procura alcançar O Céu por suas próprias obras, guardando a lei, tenta uma impossibilidade. Não pode o homem salvar-se sem a obediência, mas suas obras não devem provir de si mesmo; Cristo deve operar nele o querer e o efetuar, segundo Sua boa vontade. Se o homem pudesse salvar-se por suas obras, teria ele algo em si mesmo, pelo qual se alegrar. O esforço que o homem faz em suas próprias forças para obter a salvação, é representado pela oferta de Caim. Tudo que o homem pode fazer sem Cristo é poluído pelo egoísmo e pecado; mas aquilo que é operado pela fé é aceitável a Deus. Quando procuramos alcançar o Céu pelos méritos de Cristo, a alma faz progresso. Olhando para Jesus, autor e consumador de nossa fé, podemos prosseguir de força em força, de vitória em vitória; pois por meio de Cristo a graça de Deus operou nossa salvação completa. Mensagens Escolhidas, vol. 1, págs. 363 e 364.


Fé e Obras  91 - 94

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Obediência e Santificação

Ellen White

 

"E andai em amor, como também Cristo vos amou e Se entregou a Si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave." Efés. 5:2. Em toda a plenitude de Sua divindade, em toda a glória de sua imaculada humanidade, Cristo Se entregou a Si mesmo por nós, como sacrifício completo e amplo, e todo aquele que vai ter com Ele deve aceitá-Lo como se fosse o único indivíduo pelo qual foi pago o preço. Assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo; pois os obedientes serão ressuscitados para a imortalidade, e os transgressores ressurgirão dentre os mortos para sofrer a morte, a penalidade da lei que eles violaram.

Obediência à lei de Deus é santificação. Há muitos que têm idéias erradas a respeito dessa obra na vida, mas Jesus orou que Seus discípulos fossem santificados pela verdade, e acrescentou: "A Tua Palavra é a verdade." João 17:17. A santificação não é uma obra instantânea, mas progressiva, assim como a obediência é contínua. Enquanto Satanás nos importunar com suas tentações, a batalha pela vitória sobre o próprio eu terá de ser travada reiteradas vezes; mas pela obediência, a verdade santificará a alma. Os que são leais à verdade irão, pelos méritos de Cristo, vencer toda debilidade de caráter que tem feito com que sejam moldados por toda e multiforme circunstância da vida.


Engano e Cilada de Satanás

Muitos têm adotado o conceito de que não podem pecar porque estão santificados, mas isto é uma enganosa cilada do maligno. Há constante perigo de cair em pecado, pois Cristo nos admoestou a vigiar e orar para que não entremos em tentação. Se estivermos cientes da debilidade do próprio eu, não seremos presunçosos nem indiferentes ao perigo, mas sentiremos a necessidade de recorrer à Fonte de nossa força: Jesus, Justiça nossa. Iremos em arrependimento e contrição, com pungente senso de nossa própria fraqueza finita, e aprenderemos que precisamos apropriar-nos diariamente dos méritos do sangue de Cristo, a fim de que nos tornemos vasos preparados para uso do Mestre.

Confiando assim em Deus, não seremos achados a pelejar contra a verdade, mas sempre seremos habilitados a colocar-nos ao lado do que é direito. Devemos apegar-nos ao ensino da Bíblia e não seguir os costumes e tradições do mundo, as palavras e os atos de homens.

Quando surgem erros e são ensinados como verdade bíblica, os que têm ligação com Cristo não confiarão no que diz o pastor, mas, à semelhança dos nobres bereanos, examinarão as Escrituras todos os dias para ver se essas coisas são de fato assim. Quando eles descobrem qual é a recomendação do Senhor, colocam-se ao lado da verdade. Ouvem a voz do verdadeiro Pastor dizendo: "Este é o caminho; andai nele." Isa. 30:21. Assim sereis ensinados a fazer da Bíblia o vosso conselheiro, e não ouvireis nem seguireis a voz do estranho.


Duas Lições

Para que o ser humano seja purificado, enobrecido e habilitado para as cortes celestiais, há duas lições a serem aprendidas - abnegação e domínio-próprio. Alguns aprendem essas importantes lições com mais facilidade do que outros, porque são adestrados pela simples disciplina que o Senhor lhes aplica com brandura e amor. Outros requerem a morosa disciplina do sofrimento, para que o fogo purificador possa livrar-lhes o coração do orgulho e da confiança em si mesmo, da paixão terrena e do egoísmo, a fim de que apareça o verdadeiro ouro do caráter e eles se tornem vitoriosos pela graça de Cristo.

O amor de Deus fortalecerá o indivíduo, e em virtude dos méritos do sangue de Cristo podemos permanecer ilesos no meio do fogo da tentação e prova. Mas nenhuma outra ajuda poderá ser útil para salvar, senão Cristo, Justiça nossa, o qual se nos tornou sabedoria, santificação e redenção.

Verdadeira santificação não é nada mais nem menos do que amar a Deus de todo o coração e andar irrepreensivelmente em Seus mandamentos e preceitos. Santificação não é uma emoção, mas um princípio de origem celestial que coloca todas as paixões e desejos sob o domínio do Espírito de Deus; e essa obra é efetuada por meio de nosso Senhor e Salvador.

A falsa santificação não glorifica a Deus, mas leva os que dizem possuí-la a exaltar e glorificar a si mesmos. Tudo que surge em nossa experiência, quer de alegria ou de tristeza, que não reflete a Cristo nem aponta para Ele como seu autor, dando-Lhe glória e deixando o próprio eu fora de vista, não constitui verdadeira experiência cristã.

Quando a graça de Cristo é implantada na alma pelo Espírito Santo, seu possuidor tornar-se-á humilde de espírito e buscará a companhia daqueles cuja conversação é sobre as coisas celestiais. Então o Espírito tomará as coisas de Cristo e no-las revelará, e glorificará, não o recebedor, e, sim, o Doador. Se, portanto, tiverdes no coração a sagrada paz de Cristo, vossos lábios estarão cheios de louvor e ações de graça a Deus. Vossas orações, o desempenho de vosso dever, vossa benevolência, vossa abnegação, não serão o assunto de vosso pensamento ou conversação, mas engrandecereis Aquele que Se entregou a Si mesmo por vós quando ainda éreis pecadores. Direis: "Eu me entrego a Jesus. Achei Aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas." Enaltecendo-o, tereis uma preciosa bênção, e todo o louvor e glória pelo que é efetuado por vosso intermédio será restituído a Deus.


Não Turbulento nem Indomável

A paz de Cristo não é um elemento turbulento nem indomável manifestado em altas vozes e exercícios corporais. A paz de Cristo é uma paz inteligente, e não faz com que os que a possuem se caracterizem pelo fanatismo e extravagância. Não é um impulso casual, mas procede de Deus.

Quando o Salvador comunica Sua paz à alma, o coração estará em perfeita harmonia com a Palavra de Deus, pois o Espírito e a Palavra estão de acordo. O Senhor honra Sua palavra em todas as Suas relações com os homens. Ela é Sua própria vontade, Sua própria voz, que é revelada aos homens, e Ele não tem outra vontade, nem outra verdade, à parte de Sua Palavra, para revelar a Seus filhos. Se tendes uma maravilhosa experiência que não está em harmonia com as explícitas instruções da Palavra de Deus, bem podeis pô-la em dúvida, pois sua origem não é do alto. A paz de Cristo advém do conhecimento de Jesus a quem a Bíblia revela.

Se a felicidade é extraída de fontes exteriores, e não da Fonte Divina, será tão variável como as multiformes circunstâncias podem torná-la; mas a paz de Cristo é uma paz constante e duradoura. Ela não depende de qualquer circunstância na vida, da quantidade de bens materiais, nem do número de amigos terrenos. Cristo é a fonte de águas vivas, e a paz e a felicidade extraídas dEle nunca se esgotarão, pois Ele é a origem da vida. Os que confiam nEle podem dizer: "Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia. Pelo que não temeremos, ainda que a Terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares. Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza. ... Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do Altíssimo." Sal. 46:1-4.

Temos motivo para incessante gratidão a Deus porque Cristo, por Sua perfeita obediência, reconquistou o paraíso que Adão perdeu pela desobediência. Adão pecou, e os filhos de Adão partilham de sua culpa e suas conseqüências; mas Jesus assumiu a culpa de Adão, e todos os filhos de Adão que correrem para Cristo, o segundo Adão, podem livrar-se da penalidade do homem suportando a prova a que Adão deixou de resistir; pois Ele obedeceu perfeitamente à lei, e todos os que têm correta compreensão do plano da redenção verão que não podem estar salvos enquanto continuam na transgressão dos santos preceitos de Deus. Precisam cessar de transgredir a lei e apegar-se às promessas de Deus que se acham à nossa disposição por meio dos méritos de Cristo.


Não Confiar em Pessoas

Nossa fé não deve apoiar-se na habilidade dos homens, e, sim, no poder de Deus. Há perigo em confiar em homens, mesmo que tenham sido usados como instrumentos de Deus para realizar grande e boa obra. Cristo deve ser nossa força e nosso refúgio. Os melhores homens podem cair de sua firmeza, e o melhor da religião, quando corrompido, é o que há de mais perigoso em sua influência sobre as mentes. A religião pura e viva se encontra na obediência a toda palavra que procede da boca de Deus. A justiça exalta as nações, e sua ausência degrada e arruina o homem.


"Crede, Tão-Somente Crede!"

Dos púlpitos modernos são proferidas as palavras: "Crede, tão-somente crede! Tende fé em Cristo; nada tendes que ver com a velha lei; tão-somente confiai em Cristo." Quão diferente é isso das palavras do apóstolo, o qual declara que a fé sem as obras é morta! Diz ele: "Sede cumpridores da Palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos." Tia. 1:22. Precisamos ter aquela fé que opera pelo amor e purifica a alma. Muitos procuram substituir a retidão de vida por uma fé superficial, pensando obter deste modo a salvação.

O Senhor requer neste tempo o mesmo que Ele requereu de Adão no Éden - perfeita obediência à lei de Deus. Precisamos ter justiça sem um defeito, sem uma mancha. Deus deu o Seu Filho para morrer pelo mundo, mas Ele não morreu para revogar a lei que era santa e justa e boa. O sacrifício de Cristo no Calvário é um argumento irrefutável que mostra a imutabilidade da lei. Sua penalidade foi sentida pelo Filho de Deus em favor do homem culpado, para que por Seus méritos o pecador pudesse obter a virtude de Seu caráter imaculado pela fé em Seu nome.

Proporcionou-se ao pecador uma segunda oportunidade para guardar a lei de Deus na força de seu divino Redentor. A cruz do Calvário condena para sempre a idéia de que Satanás colocou diante do mundo cristão, a saber: que a morte de Cristo aboliu não somente o sistema típico de sacrifícios e cerimônias, mas também a imutável lei de Deus, o fundamento de Seu trono, a transcrição de Seu caráter.

Por meio de todo artifício possível, Satanás tem procurado invalidar o sacrifício do Filho de Deus, tornar inútil Sua expiação e Sua missão um fracasso. Ele tem afirmado que a morte de Cristo tornou desnecessária a obediência à lei e possibilitou que o pecador caísse nas boas graças de um Deus santo sem abandonar o seu pecado. Ele tem declarado que a norma do Antigo Testamento foi rebaixada no evangelho e que os homens podem ir a Cristo, não para serem salvos de seus pecados, mas em seus pecados.

Quando, porém, João contemplou a Jesus, disse qual era Sua missão, declarando: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." João 1:29. A toda alma penitente, a mensagem é: "Vinde, então, e argüi-Me, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã." Isa. 1:18


Fé e Obras 85 90.


sexta-feira, 2 de abril de 2021

Reação ao Sermão de Ottawa

 Ellen White 

 

Na reunião de Kansas foi minha oração no sentido de que fosse quebrantado o poder do inimigo, e de que o povo, que estivera em trevas, abrisse coração e mente à mensagem que Deus lhe enviasse, a fim de que vissem a verdade, nova para muitos espíritos, como verdade antiga em novos moldes. O entendimento do povo de Deus tem sido entenebrecido, pois Satanás tem representado erradamente o caráter de Deus. Nosso bom e gracioso Senhor tem sido apresentado perante o povo revestido dos atributos de Satanás, e homens e mulheres que têm estado à procura da verdade, por tanto tempo têm olhado a Deus através de um falso prisma, que é difícil espancar de seus olhos a nuvem que obscurece a Sua glória. Muitos têm vivido numa atmosfera de dúvida, e parece quase impossível lançarem mão da esperança que no evangelho de Cristo lhes é apresentada. ...

No sábado [11 de maio] foram apresentadas verdades que eram novas para a maioria da congregação. Coisas novas e velhas foram tiradas da casa do tesouro da Palavra de Deus. Foram reveladas verdades que o povo quase não conseguia compreender e alcançar. Brilhou sobre a Palavra de Deus, em relação à lei e ao evangelho, e em relação a ser Cristo nossa justiça, uma luz que às almas famintas da verdade se figurava preciosa demais para ser recebida.

Mas as reuniões do sábado não foram em vão. No domingo de manhã houve positiva evidência de que o Espírito de Deus estava operando grandes mudanças no estado moral e espiritual dos que ali estavam reunidos. Manifestou-se uma entrega de espírito e coração a Deus, e preciosos testemunhos foram dados pelos que por muito tempo tinham estado em trevas. Um irmão falou da luta que experimentara antes de poder receber as boas novas de que Cristo é nossa justiça. A luta foi árdua, mas o Senhor operava com ele, e teve o espírito mudado, e renovadas as forças. O Senhor apresentou perante ele a verdade com clareza, revelando o fato de que Cristo, unicamente, é a fonte de toda esperança e salvação. "NEle estava a vida, e a vida era a luz dos homens." João 1:4. "E o Verbo Se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade." João 1:14.

Um de nossos jovens irmãos participantes disse que fruíra mais da bênção e do amor de Deus durante aquela reunião do que em toda sua vida anterior. Outro afirmou que as provas, perplexidades e conflitos mentais que sofrera foram de natureza tal que se vira tentado a desistir de tudo. Julgara não haver mais esperança para ele, a menos que obtivesse mais da graça de Cristo; mas, por influência das reuniões, experimentara uma mudança de coração, e obtivera melhor conhecimento da salvação pela fé em Cristo. Viu que era privilégio seu ser justificado pela fé; tinha paz com Deus, e com lágrimas confessou que alívio e bênção lhe viera à alma. Em cada reunião, muitos testemunhos eram dados falando de paz, conforto e alegria que se haviam encontrado ao receber a luz.

Agradecemos ao Senhor, de todo o coração, termos preciosa luz para apresentar ao povo, e regozijamo-nos por ter, para este tempo, uma mensagem que é verdade presente. As novas de que Cristo é nossa justiça têm trazido alívio para muitas, muitas pessoas, e Deus diz ao Seu povo: "Avante!" A mensagem à igreja de Laodicéia é aplicável à nossa condição. Quão claramente é pintada a situação dos que julgam ter toda a verdade, que se orgulham no conhecimento da Palavra de Deus, ao passo que seu poder santificador não foi sentido em sua vida! Falta em seu coração o fervor do amor de Deus, mas é este mesmo fervor de amor que torna o povo de Deus a luz do mundo.


A Mensagem Laodiceana

Diz a Testemunha Verdadeira, de uma igreja fria, sem vida e sem Cristo: "Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente: oxalá foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da Minha boca." Apoc. 3:15 e 16. Notai as palavras seguintes: "Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu." Apoc. 3:17. Aqui está representado um povo que se orgulha na posse de conhecimento e vantagens espirituais. Não corresponderam, porém, às imerecidas bênçãos que Deus lhes tem concedido. Têm estado possuídos de rebelião, ingratidão e esquecimento de Deus, e todavia Ele os tem tratado como um pai amoroso e perdoador trata um filho ingrato e corrompido. Resistiram à Sua graça, abusaram de Seus privilégios, desprezaram Suas oportunidades, e têm-se satisfeito com descansar contentes, em lamentável ingratidão, vazio formalismo e hipócrita insinceridade. Com farisaico orgulho têm-se gloriado até que deles foi dito: "Dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta."

Porventura não enviou o Senhor Jesus mensagem após mensagem de repreensão, de advertência, de súplica a esses satisfeitos consigo mesmos? Não têm sido desprezados e rejeitados os Seus conselhos? Não têm sido os mensageiros por Ele enviados tratados com desprezo, e suas palavras recebidas como fábulas ociosas? Cristo vê aquilo que o homem não vê. Ele vê os pecados que, se não houver arrependimento, esgotarão a paciência de um Deus longânimo. Cristo não pode defender os nomes dos que estão satisfeitos em sua presunção. Não pode intervir em favor de um povo que não sente necessidade de Seu auxílio, que alega saber e possuir tudo.

O grande Redentor representa-Se como um mercador celeste, carregado de riquezas, indo de casa em casa, apresentando Seus inapreciáveis bens, e dizendo: "Aconselho-te que de Mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e vestidos brancos, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta, e bato: se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo." Apoc. 3:18-20.

Consideremos a nossa condição perante Deus; levemos a sério o conselho da Testemunha Verdadeira. Que ninguém de nós se possua de preconceito, como fizeram os judeus, de modo que a luz não penetre em nosso coração. Que não seja necessário Cristo dizer de nós o que disse deles: "E não quereis vir a Mim para terdes vida." João 5:40.

Em todas as reuniões, desde a Assembléia Geral, pessoas têm ansiosamente aceito a preciosa mensagem da justiça de Cristo. Damos graças a Deus por existirem pessoas que reconhecem estar em necessidade de algo que não possuem: o ouro da fé e amor, as vestes brancas da justiça de Cristo, o colírio do discernimento espiritual. Se possuirdes estes dons preciosos, o templo da alma humana não será qual uma capela profanada. Irmãos e irmãs, convido-vos, em nome de Jesus Cristo de Nazaré, a trabalhar onde Deus trabalha. Agora é o dia de graciosa oportunidade e privilégio. Mensagens Escolhidas, vol. 1, págs. 355-358.


Fé e Obras,  Pags 81 - 84

terça-feira, 30 de março de 2021

Não Há Auto-Salvação

   Ellen White                                          

                                                 Não Há Auto-Salvação

Ora, podeis apegar-vos a vossa justiça e pensar que procurastes fazer o que é correto, e que, afinal de contas, sereis salvos por fazer isso. Não podeis ver que é Cristo quem efetua tudo isso. "Tenho de arrepender-me primeiro" dizem alguns. "Tenho de ir até certo ponto, por mim mesmo, sem Cristo, e então Ele vem ao meu encontro e me aceita."

Não podeis ter um pensamento sem Cristo. Não podeis ter a propensão de ir a Ele se Cristo não puser em movimento certas influências e não imprimir Seu Espírito na mente humana. E se há alguém sobre a face da Terra que tenha alguma inclinação para Deus, isto se dá em virtude das muitas influências que atuam sobre sua mente e seu coração. Essas influências requerem lealdade a Deus e apreço pela grandiosa obra que Deus realizou por nós.

Nunca digamos, portanto, que podemos arrepender-nos por nós mesmos, e então Cristo perdoará. Não mesmo! É o favor de Deus que perdoa. É o favor de Deus que nos conduz ao arrependimento, pelo Seu poder. Portanto, é tudo de Jesus Cristo, tudo dEle, e só tendes de dar glória a Deus. Por que não sois mais sensíveis quando vos congregais em vossas reuniões? Por que não sentis a vivificante influência do Espírito de Deus quando vos é apresentado o amor de Jesus e Sua salvação? É porque não vedes que Cristo é o primeiro, o último e o melhor, bem como o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o próprio Autor e Consumador de nossa fé. Não compreendeis isto, e permaneceis, portanto, em vossos pecados. Por que isso? É porque Satanás está lutando e batalhando aqui pelas almas dos homens. Ele lança sua sombra infernal em cheio sobre o nosso caminho, e tudo que podeis ver é o inimigo e seu poder.

Desviai o olhar de seu poder para Aquele que é poderoso para salvar totalmente. Por que vossa fé não avança através da sombra até onde Cristo está? Ele levou cativo o cativeiro, e concedeu dons aos homens. Ensinar-vos-á que Satanás reivindica toda pessoa que não se une com Ele como Sua propriedade.


O Principal do Grande Conflito

Satanás é o autor da morte. Que fez Cristo depois que Ele colocou a Satanás sob o domínio da morte? As últimas palavras de Cristo ao expirar na cruz foram: "Está consumado." João 19:30. O diabo viu que se excedera a si próprio. Ao morrer, Cristo consumou a morte de Satanás e trouxe à luz a imortalidade.

E que fez Cristo depois de ressurgir por ocasião da ressurreição? Ele apossou-Se de Seu poder e empunhou o Seu cetro. Abriu as sepulturas e trouxe para fora a multidão de cativos, testificando a todos em nosso mundo e no Universo que Ele tinha poder sobre a morte e que resgatou os cativos da morte.

Nem todos os que creram em Jesus foram trazidos à vida nessa ocasião. Foi apenas um exemplo do que se dará, para que saibamos que a morte e a sepultura não hão de reter os cativos, porque Cristo os levou para o Céu. E quando vier outra vez, com poder e grande glória, Ele abrirá as sepulturas. A prisão será aberta, e os mortos ressurgirão para uma gloriosa imortalidade.

Eis aí os troféus que Cristo levou para o alto junto com Ele e apresentou ao Universo celestial e aos mundos que Deus criou. Qualquer afeição que acaso eles tivessem por Lúcifer, que era o querubim cobridor, foi então destruída. Deus lhe deu a oportunidade de revelar seu caráter. Se não houvesse feito isso, poderia haver os que considerariam válida a acusação que ele lançara contra Deus, de que Ele não lhe dera uma oportunidade razoável.

O Príncipe da vida e o príncipe das trevas estavam em conflito. O Príncipe da vida prevaleceu, mas a um preço infinito. Seu triunfo é nossa salvação. Ele é nosso Substituto e Penhor, e o que Ele diz ao que vencer indica se o homem tem de fazer algo, ou não. Como? "Ao que vencer, lhe concederei que se assente comigo no Meu trono, assim como Eu venci e Me assentei com Meu Pai no Seu trono." Apoc. 3:21.


A Parte do Vencedor

Nosso Salvador não teve de vencer algo? Ele não manteve a batalha com o príncipe das trevas até ser um vencedor em todos os pontos? Então Ele deixou a obra diretamente nas mãos de Seus seguidores. Temos algo a fazer. Não nos cabe a parte dos vencedores, de elaborar e ganhar a vitória? Não temos de prosseguir passo a passo em conhecer ao Senhor até que saibamos que Suas saídas são preparadas como a alva? Sua luz irromperá até que cheguemos à luz mais intensa. Vós o compreendereis, e prosseguireis e captareis mais intensa luz dos oráculos de Deus quando o suplicardes ao Deus do Céu.

Jacó foi enredado. Ele esbulhou seu irmão do seu direito de primogenitura. Quando lutou com Cristo, seus pecados se apresentaram diante dele. E o Anjo lutou com ele e disse: "Deixa-me ir", e Jacó respondeu: "Não te deixarei ir, se me não abençoares." Gên. 32:26.

Fareis isso? Lutareis com Deus nesta reunião até que saibais que Ele Se revela a vós? Há pecados que afligem vossa alma; vossos pecados vos angustiam. Direis: "Agora, Senhor, o perdão tem de ser consignado ao lado de meu nome", e lutareis e pleiteareis com Deus, apegando-vos à justiça de Cristo, dizendo: "Ele tem de salvar; creio nEle; aceito o que Ele afirma"? Pois bem, irmãos, que faremos?

Jacó alcançou a vitória, e seu nome foi mudado aquele dia. Isso sucedeu quando ele prevaleceu com Deus. Sou tão agradecida porque Deus providenciou um meio pelo qual podemos ter salvação completa e abundante! Não precisamos olhar para as sombras que Satanás lança em nosso caminho. Ele quer obliterar-nos o Céu e a Jesus, bem como a luz e o poder do Céu, e continuamos a falar do poder de Satanás. Mas não precisamos falar sobre isso. Isaías apresenta-o desta maneira: "Porque um Menino nos nasceu, um Filho se nos deu; e o principado está sobre os Seus ombros; e o Seu nome será Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz." Isa. 9:6. Não significa isto que eu e meu Pai somos um?

Deus nos ajude, irmãos, a despertar e a dar-nos pressa em fazer agora tanto quanto foi feito pelo paralítico; a fazer tanto quanto foi efetuado pelo homem decrépito e pelo homem com o braço paralisado. Eles fizeram exatamente o que lhes foi ordenado. Deus nos ajude a crer no Filho de Deus e que Ele pode salvar-nos totalmente, e teremos a vida eterna.

Muitos de vós procedeis, porém, como se não houvesse suficiente animação em vossa alma para atender à verdade. Alguns de vós procedeis como se pensásseis que Jesus Se acha encerrado no sepulcro novo de José. Ele não está ali: ressurgiu dentre os mortos, e temos hoje um Salvador vivo que está fazendo intercessão por nós.

Falai então de Seu amor, falai de Seu poder, louvai-O. Se tendes uma voz para dizer algo, falai de Deus, falai do Céu, falai da vida eterna. Sei de pessoas que em seus lares falavam tão alto que seus vizinhos podiam ouvi-los, mas se levantavam nas reuniões e murmuravam algumas palavras que não podiam ser ouvidas. Precisais mostrar que tendes aprendido na escola de Cristo e que estais progredindo. "Com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação." Rom. 10:10. Quantos crêem nas verdades que ouvistes hoje? Quereis que decorram alguns meses antes que reconheçais que nelas há luz? Quereis deter-vos para deduzir tudo isso logicamente? Morrereis antes desse tempo.


Crer na Declaração de Deus

Crede-o porque é a verdade, porque Deus o declara, e apegai-vos ao sangue meritório de um Salvador crucificado e ressurreto. Ele é vossa única esperança, Ele é vossa justiça, vosso Substituto e Penhor, vosso tudo em tudo. Quando compreendeis isso, só Lhe podeis trazer uma oferta de louvor. Se, porém, não estais dispostos a ir a Cristo e reconhecer que Ele faz tudo isso, se achais que tendes primeiro de dar alguns passos e ir até certo ponto para que Deus venha ao vosso encontro, isso é exatamente como a oferta de Caim. Ele não conhecia a Jesus, e não sabia que o sangue de Jesus podia purificar seus pecados e tornar sua oferta aceitável a Deus. Há mais de um Caim, com ofertas maculadas e sacrifícios poluídos, e sem o sangue de Jesus. Deveis chegar-vos a Jesus Cristo em todo passo. Com o sangue de Jesus e Seu poder purificador, fazei vossas petições a Deus e orai a Ele com fervor, estudando a Bíblia como nunca antes.

A pergunta é: "Que é a verdade?" Não é quantos anos eu o tenho crido que o torna verdade. Deveis levar vosso credo à Bíblia e deixar que a luz da Bíblia defina vosso credo e revele suas deficiências e onde está a dificuldade. A Bíblia deve ser vossa norma, os vivos oráculos de Jeová devem ser vosso guia. Deveis cavar a verdade como a tesouros escondidos. Deveis descobrir onde está o tesouro, e então arar toda polegada desse terreno a fim de obter as pedras preciosas. Deveis explorar as minas da verdade em busca de novas gemas, de novas diamantes, e haveis de encontrá-los.

Sabeis como é com o poder papal. As pessoas não têm o direito de interpretar as Escrituras por si mesmas. Precisam de que alguma outra pessoa interprete as Escrituras para elas. Não tendes uma mente? Não tendes a faculdade do raciocínio? Deus não concedeu discernimento ao povo comum, assim como aos sacerdotes e maiorais? Quando Cristo, o Senhor da vida e glória, veio ao nosso mundo, se eles O tivessem conhecido, jamais O teriam crucificado. Deus recomendou que examinassem as Escrituras: "Porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de Mim testificam." João 5:39.

Deus nos ajude a ser estudantes da Bíblia. Até que possais ver a razão para isso por vós mesmos e um "assim diz o Senhor" nas Escrituras, não espereis que homem algum interprete a Bíblia para vós. E quando podeis ver isto, vós o conheceis por vós mesmos, e sabeis que é a verdade de Deus. Direis: "Eu o li, eu o vi e meu próprio coração se apega a isso, e é a verdade que Deus proferiu para mim de Sua Palavra." Pois bem, é isso o que devemos ser - cristãos individuais. Precisamos ter uma experiência individual e pessoal. Precisamos converter-nos, como era o caso dos judeus. Se vedes uma pequena luz, não deveis recuar e dizer: "Esperarei até que meus irmãos a tenham visto." Se o fizerdes, continuareis nas trevas.

Deus nos ajude a ter conhecimento da verdade, e se tendes visto a verdade de Deus, dirigi-vos diretamente para a luz e deixai os obstáculos para trás de vós. Não façais da carne o vosso amparo; mas tende uma viva experiência por vós mesmos, e então vosso semblante brilhará com a glória de Deus. Tendes andado com Ele, e Ele vos tem sustido. Tendes lutado e pleiteado com Ele, e Ele tem permitido que Sua luz incida sobre vós.


Falar de Fé, Viver e Agir Pela Fé

Ora, irmãos, vós vos tendes educado tanto em dúvidas e suspeitas que tendes de educar vossa alma no âmbito da fé. Tendes de falar de fé, tendes de viver pela fé, tendes de agir pela fé, para que tenhais um aumento de fé. Exercendo essa fé viva, tornar-vos-eis vigorosos homens e mulheres em Cristo Jesus. Permita Deus que esta reunião que estamos realizando seja uma reunião na qual nasça para vós o Sol da Justiça e brilhe em vosso coração com seus raios mais claros, fazendo de todos vós luzeiros no mundo.

Podeis ser precisamente o que Cristo disse que Seus discípulos devem ser - "a luz do mundo". Mat. 5:14. Deveis difundir essa luz, esperança e fé aos outros. Não deveis ir gemendo pelo vosso caminho em Seu serviço, como se Ele fosse um feitor severo, pondo fardos sobre vós que não podeis levar. Este não é o caso. Ele quer que sejais cheios de alegria, cheios da bênção de Deus, para compreender a largura e o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Deus, que excede o entendimento. Quando é mencionado o Seu nome Ele quer que ele fira a nota tônica, e haverá uma resposta em vosso coração. Então podereis render ações de graça, e glória, e honra e louvor Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro.

Deveis aprender a entoar esse cântico aqui; e quando fordes transformados num momento, num abrir e fechar de olhos, sabereis exatamente como executar o cântico de triunfo com os anjos celestiais e com os santos redimidos. Faremos com que as abóbadas celestes vibrem de louvor e glória. Pois bem, deixai que as abóbadas vibrem aqui. Permiti que este lugar suscite louvor em vosso coração. Enquanto estais sobre este terreno olhai para as majestosas árvores, para a relva verdejante e aveludada, e permiti que seja avivado o louvor em vosso coração. Louvai a Deus por termos o privilégio de estar neste mundo, tão belo como ele é. Estamos indo para um lugar melhor. A Terra será purificada, dissolvida e formada sem pecado.

Não temos tudo para que nosso pensamento esteja nas coisas celestiais? Não temos tudo para erguer-nos diretamente deste mundanismo e sensualidade, desta conversa frívola e destituída de senso, destes gracejos e zombarias, destes relatos falsos, mexerico e ruins suspeitas? Eliminai tudo isso! É uma desonra para a igreja! Debilita e enfraquece a igreja.

Nossa conversação deve ser santa. Como Deus é santo em Sua esfera, sejamos santos em nossa esfera. Exultemos no precioso Salvador, o qual morreu para resgatar-nos, e reflitamos a glória de volta a Deus. Unamo-nos com o céu em nossos louvores aqui e com os cânticos dos anjos celestiais na cidade de nosso Deus.


Fé e Obras 73 - 79

segunda-feira, 29 de março de 2021

A Serpente de Bronze

Ellen White 

A Serpente de Bronze

Eis aqui outro caso que Cristo apresentou a Nicodemos - a serpente que foi levantada no deserto - declarando: "Assim importa que o Filho do homem seja levantado." João 3:14. E se Ele for levantado, atrairá todos os homens a Si mesmo, "para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna". João 3:15. Pois bem, olhai simplesmente para essa serpente de bronze. Os filhos de Israel não perceberam que Deus os estivera guardando por Seus anjos enviados para ser seu auxílio e sua proteção. O povo não havia sido destruído pelas serpentes em suas longas viagens pelo deserto. Tinha sido um povo ingrato.

Somos exatamente assim. Não percebemos os milhares de perigos de que nosso Pai celestial nos tem livrado. Não percebemos a grande bênção que Ele nos tem concedido dando-nos alimento e vestuário, e preservando nossa vida enviando os anjos da guarda para cuidar de nós. Cada dia devemos ser agradecidos por isso. Cumpre-nos avivar a gratidão em nosso coração e chegar-nos diariamente a Deus com uma oferta de gratidão. Todos os dias devemos reunir-nos em volta do altar da família e louvá-Lo por Seu vigilante cuidado de nós. Os filhos de Israel perderam de vista que Deus os estava protegendo dos animais peçonhentos. Quando, porém, Ele retirou Sua mão, foram afligidos pelas picadas deles.

Que aconteceu então? Ora, Cristo mesmo ordenou que Moisés erguesse uma haste, fizesse uma serpente de bronze e a colocasse nessa haste, levantando-a à vista dos israelitas, para que todo aquele que olhasse para ela pudesse viver. Eles não tinham que fazer uma grande obra. Deviam olhar porque Deus dissera que o fizessem.

Suponhamos, porém, que eles se detivessem a deduzi-lo logicamente e dissessem: "Ora essa, não pode ser que sejamos curados olhando para essa serpente de bronze! Nela não há vida!" Mas o olhar de fé curou-os precisamente como Deus lhes dissera que seria o caso. Os que olharam viveram. Os que se detiveram a argumentar e a explicá-lo, morreram.

Que devemos fazer? Olhar e viver. "E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado." João 3:14. Por que razão? Para que os que O contemplarem não pereçam, mas tenham a vida eterna. (João 3:16.)

Que espécie de fé é essa? É crer simplesmente, ou é uma fé de aceitação? Há muitos aqui que têm essa espécie de fé. Credes que Jesus era o Filho de Deus; tendes, porém, uma fé pessoal no tocante a vossa própria salvação? Credes que Jesus é vosso Salvador? Que Ele morreu na cruz do Calvário para vos resgatar? Que Ele vos oferece o dom da vida eterna se credes nEle?


Justiça Pela Fé

E que é crer? É aceitar plenamente que Jesus Cristo morreu como nosso sacrifício; que Ele Se tornou maldição por nós, tomou nossos pecados sobre Si e imputou-nos Sua própria justiça. Por isso reivindicamos essa justiça de Cristo, cremos nela, e ela é nossa justiça. Ele é nosso Salvador. Ele nos salva porque disse que o faria. Ocupar-nos-emos em fazer todas as explanações sobre como Ele pode salvar-nos? Possuímos a virtude em nós mesmos que nos torne melhores e nos purifique das manchas e máculas do pecado, habilitando-nos então a aproximar-nos de Deus? Simplesmente não podemos fazer isso.

Não sabeis que quando o jovem se aproximou de Cristo e Lhe perguntou que devia fazer para alcançar a vida eterna, Cristo recomendou-lhe que guardasse os mandamentos? Disse ele: "Tudo isso tenho observado." Ora, o Senhor desejava inculcar bem essa lição. "Que me falta ainda? Sou perfeitamente íntegro." Mat. 19:20, Versão Inglesa. Não viu que havia alguma coisa com ele que o impedia de alcançar a vida eterna. "Tudo isso tenho observado", disse ele. Então Cristo toca no ponto sensível de seu coração, declarando: "Vem, segue-Me, e terás vida."

Que fez o jovem? Retirou-se muito pesaroso, por ser dono de muitas propriedades.

Pois bem, ele não havia absolutamente guardado os mandamentos. Devia ter aceito a Jesus Cristo como seu Salvador e se apoderado de Sua justiça. Então, tendo a justiça de Cristo, poderia guardar a lei de Deus. O jovem príncipe não podia pisotear essa lei. Precisava respeitá-la; precisava amá-la. Então Cristo combinaria o poder divino com os esforços humanos.

Cristo tomou sobre Si a humanidade, por nós. Cobriu Sua divindade, e a divindade e a humanidade foram combinadas. Ele mostrou que era possível observar aquela lei que Satanás declarou não se poder observar. Cristo assumiu a forma humana para estar aqui em nosso mundo e mostrar que Satanás havia mentido. Tomou sobre Si a natureza humana para demonstrar que, com a divindade e a humanidade combinadas, o homem podia guardar a lei de Jeová. Separai a humanidade da divindade, e podereis procurar desenvolver vossa própria justiça desde agora até que Cristo venha, e isso não passará de um fracasso.

Por meio de fé viva, por meio de fervorosa oração a Deus e confiando nos méritos de Jesus, somos revestidos de Sua justiça e somos salvos. "Oh! sim - dizem alguns - somos salvos não fazendo nada. De fato, estou salvo. Não preciso guardar a lei de Deus. Sou salvo pela justiça de Jesus Cristo." Cristo veio ao nosso mundo para reconduzir todos os homens à lealdade a Deus. Adotar a posição de que podemos transgredir a lei de Deus, pois Cristo cumpriu tudo isso, é uma posição de morte, porque seremos realmente tão transgressores como qualquer pessoa.

Que é então? É ouvir e ver que com a justiça de Cristo que possuís pela fé, justiça provida por Seus esforços e por Seu poder divino, podeis guardar os mandamentos de Deus.


Não Salvos na Indolência

Precisamos dessa fé. Porém, será o homem salvo na indolência? Poderá ser salvo não fazendo nada? Nunca, jamais! Ele deve ser cooperador de Jesus Cristo. Não pode salvar-se a si mesmo. "Somos cooperadores de Deus." I Cor. 3:9. E como é isso? Todo o Céu está labutando para elevar a raça humana da degradação do pecado. Todo o céu está aberto aos habitantes da Terra. Os anjos de Deus são enviados para ministrar em favor dos que hão de herdar a salvação. "Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a Sua boa vontade." Filip. 2:13.

E é dessa fé operante que necessitais. Como ela opera? Ela opera pelo amor. Que amor? Ora, o amor que procede da cruz do Calvário. Essa cruz está entre a Terra e o Céu, e a salvação é obtida ao olhar para ela. O Pai aceitou-a, e os anjos acercaram-se dessa cruz, e o próprio Deus inclinou-Se em aceitação do sacrifício. Ela satisfaz a reivindicação do Céu, e o homem pode ser salvo por Jesus Cristo, se tão-somente tivermos fé nEle. O homem é reconciliado com Deus, e Deus com o homem, mediante o sacrifício completo, perfeito e total.

Pois bem, irmãos, precisamos de fé; precisamos educar a alma na fé; precisamos que todo passo seja um passo de fé; precisamos de fé nesse sacrifício que foi efetuado por nós. "A misericórdia e a verdade se encontraram; a justiça e a paz se beijaram." Sal. 85:10. Ora, quando vemos um raio de luz precisamos apoderar-nos dele. O diabo trabalha contra isso em todo o tempo. É a fé que opera pelo amor que é demonstrada por Jesus Cristo na cruz do Calvário. É o amor que Ele tem tido por minha alma. Cristo morreu por mim. Adquiriu-me a um preço infinito, e expiou tudo que Lhe é repulsivo. Preciso cooperar com Ele. Preciso tomar sobre mim o Seu jugo. Preciso levar o jugo de Cristo. Preciso erguer os Seus fardos. Preciso ensinar a outros como podem elevar-se do estado pecaminoso em que eu me encontrava e apossar-se, com fé viva, da justiça que há em Cristo Jesus. Essa é a única maneira pela qual o pecador pode ser salvo.


Fé e Obras  Pags, 68 - 72

domingo, 28 de março de 2021

A Fé do Paralítico

                                 A Fé do Paralítico

Ellen White

Reporto-me ao paralítico, o qual não usara seus membros por muitos anos. Ei-lo ali! Os sacerdotes, os maiorais e os escribas examinaram o seu caso e declararam que era desesperador. Disseram-lhe que ele se achava nessa condição devido a seu próprio pecado, e que não havia esperança para ele. Mas recebeu a informação de que havia um homem chamado Jesus, o qual realizava prodígios. Ele estava curando os doentes, e até ressuscitava os mortos. "Mas como poderei ir ter com Ele?" perguntou o homem.

"Nós o levaremos a Jesus", responderam os seus amigos; "bem à Sua presença; ouvimos dizer que Ele chegou a tal e tal lugar."

E assim eles pegaram o homem desesperançado e o levaram aonde sabiam que Jesus estava. Mas a multidão circundava tão de perto o edifício em que Jesus Se achava, que eles nem sequer teriam a oportunidade de chegar até à porta. Que iriam fazer? O paralítico sugeriu que abrissem o eirado, tirando os ladrilhos, e o descessem por essa abertura.

E assim ele manifestou sua fervorosa fé. Eles o fizeram, e o homem foi posto bem na frente de Jesus, onde Este pudesse olhar para ele. E Jesus, vendo-o, compadeceu-Se dele e disse: "Filho, os teus pecados estão perdoados." Mar. 2:5. Bem, que alegria foi essa! Jesus sabia exatamente o que necessitava essa alma enferma de pecado. Sabia que esse homem fora afligido por sua própria consciência, e disse portanto: "Os teus pecados estão perdoados." Que alívio lhes adveio à mente! Que esperança lhe encheu o coração!

Então os sentimentos se exacerbaram no coração dos fariseus: "Quem pode perdoar pecados, senão um, que é Deus?" Mar. 2:7.

A seguir, disse-lhes Jesus: "Para que saibais que o Filho do homem tem sobre a Terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), Eu te digo: Levanta-te, toma a tua cama e vai para tua casa." Luc. 5:24. O quê? Erguer o leito com os braços paralisados! O quê? Colocar-se em pé com as pernas entrevadas! O que ele fez? Ora, ele fez simplesmente o que lhe foi ordenado. Efetuou o que o Senhor lhe mandou fazer. O poder da vontade foi aplicado para mover suas pernas e braços paralisados, e eles reagiram, embora não houvessem reagido por longo tempo. Essa manifestação revelou às pessoas que havia Alguém no meio deles que não somente podia perdoar pecados, mas também curar os doentes.

No entanto, essa poderosa evidência concedida aos fariseus não os converteu. Os homens podem encerrar-se de tal maneira em descrença, dúvida e infidelidade, que a ressurreição dos mortos não os convenceria. Devido a sua descrença, eles estariam na mesma posição de incredulidade, não convencidos nem convertidos. Mas todos os que têm coração para aceitar a verdade e ouvidos para ouvir, glorificam a Deus. Eles exclamam: "Anteriormente nunca o havíamos visto deste modo!"


A Reação do Paralítico

Houve o paralítico, e, falando Cristo com ele, esse indivíduo contou-Lhe a lamentável história de como, assim que ele descia à água para ser curado, alguma outra pessoa entrava antes dele. Cristo perguntou-lhe: "Queres ser curado?" João 5:6. Que pergunta! Era por isso que ele estava ali, mas Cristo queria suscitar a expressão do desejo de ser curado no coração desse homem. E quando Cristo ordenou que ele se levantasse, tomasse o seu leito e andasse, o homem fez exatamente o que Cristo determinou. Ele não disse: "Ora essa! Estou aqui há trinta anos, e não dei um só passo durante esse tempo." Não se deteve para argumentar, mas fez exatamente o que lhe foi ordenado. Tomou o seu leito e saiu andando, e ficou curado desse momento em diante.

É dessa fé que necessitamos. Se, porém, vos detiverdes a explicar tudo e a deslindar logicamente todo ponto, morrereis em vossos pecados, pois nunca ficareis satisfeitos.


Fé e Obras  67, 68

DECRETO DOMINICAL

 

Desde os primeiros adventistas sabatistas o decreto dominical é visto na escatologia adventista como um evento do fim do tempo. A partir da ideia da “marca da besta” e do “selo de Deus” no Apocalipse, entende-se que a lei dominical vai distinguir os que pertencem ao reino de Deus daqueles que optam pelo governo da besta.

A escolha de se obedecer à lei de Deus implicará a exposição a um estado de intolerância e perseguição momentânea. Por outro lado, a decisão de se filiar à besta terá consequências eternas. Essas questões estão bem claras nas visões proféticas de Daniel e Apocalipse.

As profecias e a lei de Deus
Em Apocalipse 13, duas metáforas proféticas representam a atuação do papado na Idade Média e nos Estados Unidos no tempo do fim. O entendimento dessas visões elucida a perspectiva dos pioneiros adventistas referente ao tal decreto.

Curiosamente, ambas as metáforas apocalípticas retomam símbolos de Daniel. A primeira besta de sete cabeças e dez chifres (Apocalipse 13:1) é construída a partir dos quatros animais: leão, urso, leopardo de quarto cabeças e o animal terrível de dez chifres (Daniel 7:3-7). A besta não só apresenta elementos desses animais, como suas sete cabeças são a soma das cabeças das quatro bestas de Daniel. Isso indica que João viu a besta como sendo um desdobramento do poder perseguidor já representado nesses animais figurativos dos impérios babilônico, persa, grego e romano.

Observa-se que as características humanas retratadas no tal “chifre pequeno” (Daniel 7:8) e na besta (Apocalipse 13:5-6) indicam que essas entidades incorporam tanto uma dimensão política quanto religiosa. De fato, o papado medieval era um poder político e religioso. É a religião que, ao manipular o poder político, leva esse poder a perseguir o povo de Deus, como se vê na visão da mulher “montada” na besta em Apocalipse 17. Em Daniel, o “chifre pequeno” faz guerra contra os “santos” (Daniel 7:21) e cuida em “mudar os tempos e a lei” (7:25).

Da mesma forma, a besta persegue os “santos” (Apocalipse 13:7), os quais guardam os “mandamentos de Deus” (14:12). Nota-se que a investida tanto do “chifre pequeno” quanto da “besta” contra os “santos” tem sua motivação na adesão deles à lei de Deus, naquele ponto em que essa lei implica uma diferença social: a prática do sábado. É importante lembrar que tanto o Império Romano quanto o papado medieval sustentaram uma lei dominical contrária à lei de Deus.

Apocalipse 13 e Daniel 8
Por outro lado, a besta de dois chifres parecendo cordeiro (Apocalipse 13:11) retoma o carneiro de Daniel 8. Os chifres indicam que os símbolos representam um poder resultante da união de duas entidades, e que são a princípio aliados do povo de Deus, mas depois são perseguidores. Os persas fizeram aliança com os medos e, assim, se formou o Império Persa. Com essa coalizão, Ciro conseguiu tomar a Babilônia de Belsazar (Daniel 5). Ele libertou os judeus e os permitiu voltar à sua terra (Isaías 44:28; 45:1-7) e gozar de liberdade civil e religiosa (Esdras 7:21-26). Porém, no tempo da rainha Ester, a Pérsia chegou a emitir um decreto de morte aos judeus (Ester 3:8-9). No Apocalipse, a região denominada como “terra” é lugar de proteção e guarida para a “mulher” após os 1.260 dias-anos (Apocalipse 12:1, 14-16). No entanto, nesta mesma “terra”, depois se levanta a besta de dois chifres para perseguir os que não têm a “marca da besta” (Apocalipse 13:11, 17).

Há um paralelismo entre Apocalipse capítulos 12 e 13, que elucida o antagonismo da besta de dois chifres aos que não têm a marca. Em Apocalipse 12, após a menção ao fato de a mulher achar guarida na “terra” após os 1.260 anos, é dito que o dragão investe contra ela e faz guerra aos seus descendentes “que guardam os mandamentos de Deus”. Em Apocalipse 13, após os 42 meses (1.260 dias) de atuação da besta (Apocalipse 13:5), ela é ferida de morte, e então retorna por meio da “imagem da besta” que impõe o boicote econômico e a perseguição aos que não têm a “marca da besta”. Isso indica que os que guardam os mandamentos de Deus são os mesmos que não têm a marca.

O surgimento da imagem da besta
A segunda visão de Apocalipse 13 pode ser dividida em duas fases. Inicialmente a besta “opera” sinais (v. 13), “seduz” as pessoas (v. 14) e comunica “fôlego” à imagem da besta (v. 15). Nesta fase inicial, ela é, portanto, um poder religioso, ou seja, atua como o “falso profeta” (Apocalipse 16:13; 19:20).

Após esse poder religioso comunicar fôlego ao que está morto no contexto, ou seja, a primeira besta, levanta-se a “imagem da besta”. De fato, a besta ferida de morte ressuscita, mas por meio da “imagem da besta”. Assim, nesta segunda fase da visão, a imagem “faz” morrer (v. 15), impõe uma marca (v. 16) e controla a economia (v. 17). Agora, trata-se, portanto, de um poder político: “um rei” (conforme Apocalipse 17:11; 19:20).

Ellen White, pioneira adventista, profetisa e escritora, explica a formação da imagem da besta a partir da aproximação dos poderes religioso e civil. “A imagem é feita pela besta de dois chifres [enquanto falso profeta], e é uma imagem à primeira besta.” Portanto, “a fim de formarem os Estados Unidos uma imagem da besta, o poder religioso deve a tal ponto dirigir o governo civil que a autoridade do estado também seja empregada pela igreja para realizar os seus próprios fins”[1]

Para ela, a “imagem da besta” representa “a forma de protestantismo apóstata que se desenvolverá quando as igrejas protestantes buscarem o auxílio do poder civil para imposição de seus dogmas”[2] Nessa linha, o poder religioso toma a iniciativa para a formação da imagem da besta, pois “no próprio ato de impor um dever religioso por meio do poder secular, formariam as igrejas mesmas uma imagem à besta”[3].

É importante frisar que o poder civil opressor da crise final, segundo Apocalipse 13:11-18, é denominado de “imagem da besta”. É essa entidade que impõe a marca, persegue e faz morrer. A primeira besta, de fato, retorna, mas somente por meio da sua imagem reproduzida na América protestante.

Nesse caso, o que João revela é que “a autoridade medieval da primeira besta novamente será exercida por meio da besta que surge da terra”. Além disso, está claro que “a segunda besta substituirá a primeira besta em poder e autoridade universais e agirá como o poder opressivo global do tempo do fim”.[4]

Desta forma, o conflito desencadeado no fim do tempo pela “imagem da besta” contra os fiéis de Deus tem sua motivação na guarda dos mandamentos. Ellen White afirma que “o último grande conflito entre a verdade e o erro não é senão a luta final da prolongada controvérsia relativa à lei de Deus”[5].

De fato, a investida de Satanás contra os mandamentos de Deus atravessa toda a história. Ao longo da história, portanto, identificamos marcas desse conflito entre a lei da besta (o poder imperial) e a lei de Deus. Ao longo da história tem havido um povo ou comunidade de fiéis que mantém a aliança com Deus e reivindica sua lei na terra, o principado usurpado por Satanás. O inimigo de Deus tenta firmar seu governo, anulando a lei de Deus na terra. No entanto, um remanescente fiel mantém viva a chama do decálogo divino.

Que evidências as Escrituras Sagradas e a história nos oferecem para essa batalha contra a lei de Deus? Esses eventos históricos servem como uma antecipação do que será a luta contra a lei de Deus no fim do tempo. Mas será possível que os regimes democráticos do atual estado de direito venham a assumir tal postura de intolerância aos que guardam a lei divina?

Lei dominical na história
Desde o antigo Egito, há evidências de que os impérios, em diversos momentos, perseguiram o povo de Deus por causa do sábado. A princípio, no antigo Egito, houve intolerância aos israelitas por causa da lei de Deus. Quando eram um povo autônomo, os filhos de Israel puderam guardar a lei de Deus livremente. No entanto, chegou um tempo em que eles estiveram sob a lei do estado egípcio. Nesse contexto, por determinação do Faraó, os israelitas foram privados do “descanso” sabático. O termo traduzido por “distrair” (Êxodo 5:5, ver ARA) é o verbo hebraico shabath.

No reino da Pérsia, onde muitos judeus permaneceram após o cativeiro babilônico, o oficial Hamã convenceu o rei Assuero a fazer um decreto contra os judeus. A motivação dele não deixa dúvidas: “Existe espalhado, disperso entre os povos em todas as províncias do teu reino, um povo cujas leis são diferentes das leis de todos os povos … Se bem parecer ao rei, decrete-se que sejam mortos” (Ester 3:8-9). Ante a manipulação de Hamã, Assuero “tirou da mão o seu anel, deu-o a Hamã”, o “adversário dos judeus” (Ester 3:10). Exceto o sábado, os demais mandamentos da lei de Deus não impunham distinção significativa entre os judeus e os povos da Pérsia. De fato, Ellen White afirma que o decreto de morte a ser expedido pela “imagem da besta” será “muito semelhante ao que Assuero promulgou contra os judeus” (Ellen White, Profetas e Reis, página 605).

Séculos depois, em 321 d.C., no Império Romano, foi emitido o Edito de Constantino: “Que todos os juízes, e todos os habitantes da cidade, e todos os mercadores e artífices descansem no venerável dia do Sol.” Durante a Idade Média, igualmente, prevaleceu a lei católica romana que ordenava “guardar domingos e festas”, o terceiro mandamento, em detrimento do sábado da lei de Deus (Êxodo 20:8-11).

Dia do Senhor
Na Idade Moderna, os protestantes ingleses foram os primeiros a promover a guarda do dia do Senhor. Isso resultou da tradução da Bíblia por William Tyndale (século 16). O reformador muito se impressionou com o tema da aliança, ao qual fez várias notas de margem no Pentateuco. Mais tarde, o estabelecimento da igreja pela coroa britânica levou os protestantes ingleses a enxergarem a si mesmos como os substitutos dos antigos israelitas, como herdeiros da Aliança.

Desta forma, as notas de Tyndale e a noção de um povo eleito levaram os protestantes ingleses à redescoberta do dia do Senhor como o sinal da Aliança. No início do século 17, o ministro anglicano Nicholas Bownd passou a ensinar que “profanar o sábado era profanar a Deus”.[6] Assim, os puritanos ingleses passaram a ensinar que “trabalhar no sábado era um pecado tão grave quanto matar ou cometer adultério”,[7] pois seria uma quebra da Aliança com Deus. O posterior retorno da coroa britânica ao catolicismo deixou os protestantes zelosos pela lei de Deus expostos à intolerância.

No entanto, a despeito de lerem o Pentateuco, os protestantes ingleses guardavam o dia do Senhor no primeiro dia da semana, e chamavam esse dia de “sábado”. Não demorou, porém, para que alguns concluíssem que o sábado de descanso devia ser guardado no sétimo dia. Os puritanos John Trask e sua esposa Dorothy começaram a guardar o sábado do sétimo dia já no início do século 17, razão pela qual foram perseguidos.

Em 19 de junho de 1618, Trask foi “sentenciado a ser chicoteado, ridicularizado, mutilado e condenado a prisão perpétua” acusado de “conspiração”. Ele era o líder de uma seita de separatistas que acreditavam que “o sábado do sétimo dia e a lei dietética mosaica continuavam em vigência para os cristãos.” Infelizmente, Trask se retratou e foi solto. Porém, sua esposa Dorothy “ficou presa por 25 anos por não desistir do sábado do sétimo dia”.[8]

Os puritanos zelosos do “sábado”, guardado no primeiro dia da semana, não puderam ter paz na Inglaterra sob influência posterior de Roma. Assim, eles desejavam uma terra onde pudessem manter os “mandamentos de Deus” sob proteção da lei civil. A colonização americana foi a saída para eles.

Em 1620, os puritanos chegaram “à América a fim de estabelecer uma nova Jerusalém que preservasse o sábado em sua integridade”.[9] Considerado o papel dos protestantes puritanos e sua motivação no desenvolvimento dos Estados Unidos, deve se assumir que “a guarda do santo dia de sábado é uma de suas poderosas pedras angulares”.[10] Sob esse ímpeto, as colônias puritanas, na América do Norte, logo desenvolveram uma “legislação dominical contra a profanação do dia do Senhor, com pesadas e graves penalidades para as violações”.[11]

A chamada Nova Inglaterra aprovou leis que proibiam “não só crimes sexuais, mas também blasfêmia, embriaguez, jogos de azar e violação da santidade do sábado”.[12] O sábado, porém, seguia observado por esses puritanos no primeiro dia da semana.

Em função disso, uma lei dominical a ser desenvolvida pelos países cristãos tem, portanto, claros precedentes e motivações históricas.

O domingo no horizonte global
Nas décadas recentes, movimentos pela guarda do domingo têm se fortalecido em vista das encíclicas papais sobre o assunto. A chamada European Sunday Alliance defende a guarda do domingo como caminho para renovação da família e da sociedade.[13] Por sua vez, a Lord’s Day Alliance, nos Estados Unidos, propõe que a guarda do domingo é compatível com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, pois os empregadores devem “honrar as necessidades dos trabalhadores por observâncias de fé oportunas, tratamento justo e descanso regenerativo”.[14]

Em maio de 1998, o papa João Paulo II lançou a encíclica Dies Domini (“Dia do Senhor”), na qual defende que a guarda do domingo é o meio para a “reforma social”, fortalecimento da família e restauração da igreja. Ele cita “a lei civil do Império Romano”, que reconheceu o “dia do sol”, para que todos nesse dia deixassem de trabalhar. No parágrafo 67, ele afirma que “é natural que os cristãos se esforcem para que, também nas circunstâncias específicas do nosso tempo, a legislação civil tenha em conta o seu dever de santificar o domingo.”[15]

Em 2017, o papa Francisco lançou a encíclica Laudato Si (Louvado sejas), em que defende que o ecossistema precisa de um descanso dominical. No parágrafo 71, ele embasa sua argumentação na lei divina sobre o “sábado”. Para ele, a necessidade do descanso da terra e de seus habitantes no domingo “está patente, por exemplo, na lei do Shabath”. Pois, “no sétimo dia, Deus descansou de todas as suas obras. Deus ordenou a Israel que cada sétimo dia devia ser celebrado como um dia de descanso, um Shabath (cf. Gênesis 2:2-3; Êxodo 16, 23; 20, 10)”.[16]

Evidentemente, os que defendem a lei dominical, tanto católicos quanto protestantes, afirmam que a mesma será coerente com o estado de liberdade mantido pela Carta dos Direitos Humanos. No entanto, o contexto de instabilidade e as atuais situações de emergência, em que a sobrevivência da humanidade é colocada em perspectiva, tal lei dificilmente manteria direitos de minorias contrárias. Em vista disso e das previsões proféticas, não há dúvida de que a lei dominical contribuirá para acirrar oposição e intolerância.

Nessa linha, Ellen White afirma que, no contexto da lei dominical, será feita “a alegação de que a corrupção que rapidamente se alastra pode ser atribuída em grande parte à profanação do descanso dominical, e que a imposição da observância do domingo melhorará grandemente a moral da sociedade” (Ellen White, O Grande Conflito, 587).

Os Estados Unidos, como o poder civil representado pela “imagem da besta”, serão o primeiro país a aprovar essa lei. Mas, em decorrência de sua influência e poder sobre as demais nações, essa mesma lei se reproduzirá pelo mundo. “Quando os Estados Unidos, o país da liberdade religiosa, aliar-se ao papado, a fim de dominar as consciências e obrigar as pessoas a reverenciar o falso sábado, os povos de todos os demais países do mundo serão induzidos a imitar seu exemplo” (Ellen White, Eventos Finais, página 85).

Deve se observar que a guarda do domingo, por milhões de cristãos sinceros, não é em si a marca da besta. “A observância do domingo não é ainda o sinal da besta, e não o será até que saia o decreto” (Ellen White, Eventos Finais, página 224). Desta forma, é a lei dominical imposta que determina a condição da marca da besta. No contexto de Apocalipse 13 fica claro que a besta pretende, a exemplo de Nabucodonosor (Daniel 3:15), assumir o lugar de Deus.

Portanto, seguir a lei da besta e ter sua marca será uma condição para se viver na Terra e ter a proteção da lei do estado. Por outro lado, seguir a lei de Deus e ter o selo de Deus é a condição da cidadania celestial e da proteção divina. A escolha diante desse dilema definirá de fato uma filiação à besta ou a Deus.

Os guardadores do sábado devem ter em mente que a lei dominical, em nível mundial, é o último evento escatológico. Pois, “a substituição da lei de Deus pela dos homens, a exaltação, por autoridade meramente humana, do domingo, posto em lugar do sábado bíblico, é o último ato do drama. Quando essa substituição se tornar universal, Deus se revelará” (Ellen White, Testemunhos Seletos, volume 3, páginas 142 e 143).

Conclusão
A revelação profética, portanto, apresenta-se coberta de persuasão no tempo atual. De fato, o mundo caminha para um evento escatológico de grandes proporções em que a lealdade ao Deus criador será posta à prova. As profecias apontam para uma retomada da relação entre Igreja e Estado como caminho para a emergência de um novo e último estado de intolerância e perseguição religiosa.

Essa intolerância tende a se manifestar naquele mesmo ponto em que a lei de Deus se distingue da lei dos homens: o dia de descanso e culto, o dia em que se celebra o Deus criador como digno de adoração e fidelidade. A guarda desse dia marca uma relação entre criatura e Criador, é um elo entre Deus e sua criação (Gênesis 2:1-3). Portanto, como parte do esforço satânico contra Deus, o decreto pretende quebrar essa ligação.

O povo de Deus, no entanto, não deve temer as consequências de sua lealdade, pois a adesão ao selo de Deus garante a cidadania celestial e a proteção divina.

Vanderlei Dorneles (via ASN - Parte 1 / Parte 2)

Este artigo foi escrito originalmente para o e-book intitulado Eventos Finais, produzido pela editora Safeliz e disponível neste link.

Do Blog - https://megaphoneadv.blogspot.com/2021/03/decreto-dominical.html

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