Religião Positiva
ESTAVA um obreiro em visita a um casal de interessados, quando entra na sala a mãe da senhora. Após a troca de cumprimentos, observa ela:
- Os senhores são muito estreitos: para ingressar em sua igreja não se pode usar uma jóia, um brinco, uma vaidadezinha qualquer... Os senhores tolhem a liberdade da gente!
- Ah! respondeu o obreiro; a senhora se aproxima da religião pelo lado negativo. Temos de considerá-la pelo ângulo positivo. A religião não são proibições, restrições. Em vez de dizer: "A religião me proíbe fumar, beber, dançar", digamos: Graças à minha religião, libertei-me dos vícios. Já não tenho prazer em fumar, beber, dançar. Estou livre desses embaraços e despesas." Temos de ver nessas chamadas proibições, bênçãos e privilégios. A religião é liberdade, e não escravidão...
Ignoramos se a ligeira observação do obreiro, naquele dia, teve alguma influência sobre a atitude mental da distinta senhora. O que sabemos é que poucos meses depois èsse mesmo obreiro teve a satisfação de ministrar o batismo àquela senhora, já livre das incômodas peias de suas dantes acariciadas "vaidades inocentes". E é de ver-se a alegria que, apesar da tremenda oposição que sofre, se lhe estampa no rosto, nos gestos e palavras!
E assim é. O povo, em geral, tem idéia muito acanhada da religião, e especialmente da fé adventista. Os do mundo a têm, e entre nós mesmos, há os que participam, em ponto menor, dessa idéia tacanha e perigosa.
É que os crentes se dividem em dois grupos, que assim se podem definir: os que são melhorados, aperfeiçoados, transformados pela verdade que abraçaram, e os que não permitem que tal se dê, preferindo deixar-se enlear ainda pela sedução dos chamados prazeres. São os saudosistas do Egito. Como a mulher de Ló, olham ainda para o que tiveram de deixar atrás. Quais israelitas murmuros, têm e nutrem saudades do que o Egito do pecado lhes proporcionava. A verdade não se apoderou dêles. Possuem a verdade, mas esta não os possui. Não foram por ela tomados, transformados. Não se entregaram incondicionalmente a el. Fazem reservas mentais - às vezes numerosas...
Nos olhos, nos gestos, no coração, lobriga-se-lhes a queixa tácita: "Que pena! Quanta coisa tive que deixar, para me tornar adventista! Podia haver menos rigor... Aquêle cigarrinho perfumado... o delicioso cálice de vinho do Porto... e o cinema ali da esquina... e os rodopios no salão de baile..."
Revista Adventista - Agosto 1960 - Pg. 1
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