quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A Face Humana do Apocalipse - parte 1

A Face Humana do Apocalipse - parte 1
Dr. José Carlos Ramos
Novembro de 2013
            O maior livro profético da Bíblia, o Apocalipse, é declarado ser uma “revelação de Jesus Cristo” dada por Deus para benefício de Sua Igreja (Ap 1:1). Este título comporta dois sentidos fundamentais, um subjetivo, que aponta a Jesus como o autor da revelação, e outro objetivo, que O torna o objeto da revelação. Isto significa que a revelação é feita por Jesus e é acerca dEle e de Sua obra salvífica. O mesmo texto faz referência ao instrumento humano usado por Jesus para que a revelação se efetivasse e alcançasse o seu destino: “o seu servo João”. Quem foi ele?
            Bem, o Novo Testamento alude a pelo menos quatro pessoas que tiveram esse nome:
1.    João Batista, que morreu antes da crucifixão de Jesus;
2.    Um parente do sumo-sacerdote Anás, e inimigo do evangelho (At 4:6);
3.    João Marcos (At 12:12), o autor do segundo Evangelho;
4.    O apóstolo João, o discípulo amado e autor do quarto Evangelho.
            Por razões óbvias, nem o primeiro nem o segundo poderiam ter sido o escritor do Apocalipse. Dificilmente sê-lo-ia o terceiro. O estilo e a redação do último livro da Bíblia são bem diferentes dos do segundo evangelho. Ninguém na Igreja primitiva associou o Apocalipse a Marcos.
            As evidências apontam para o apóstolo João como o escritor. A tradição primitiva assim o reconhece, e todos os escritores cristãos até o 3° século confirmam esse fato.
            Também é crido que João passou os seus últimos anos em Éfeso. Irineu (130-202) declara que na sua juventude vira o idoso Policarpo de Esmirna que “conversou com muitos que tinham visto a Cristo”, entre eles João que permaneceu em Éfeso até os dias de Trajano (98-117). O próprio Policarpo teria sido um discípulo do apóstolo João.
            Policrato (130-200), bispo de Éfeso, também afirma que João, o discípulo amado que se reclinou no peito do Senhor, “repousou em Éfeso.” Vale notar que, no Apocalipse, o escritor se dirige à igreja desta localidade (Ap 1:4, 11).
            Alguns alegam a existência de outro João de influência na Igreja ao fim do 1° século, fundamentados no seguinte testemunho de Papias:
            “E não hesitarei anexar às interpretações tudo quanto aprendi bem dos presbíteros... Se, então, em qualquer tempo vinha alguém que seguira os presbíteros, eu inquiria acerca das palavras dos presbíteros, o que André, ou Pedro, ou Filipe, ou Tomé, ou Tiago, ou João, ou Mateus, ou qualquer outro dos discípulos do Senhor, disseram, e o que Aristion e o presbítero João, os discípulos do Senhor, dizem. Não suponho que a informação dos livros me ajudasse tanto quanto a palavra duma voz viva e sobrevivente.” (História Eclesiástica de Eusébio, III.39.3, 4).
            Baseado nesse texto, o historiador Eusébio concluiu que dois cristãos de destaque, chamados João, viviam na Ásia no fim do 1° século, o apóstolo e um presbítero, e que o último escrevera o Apocalipse, enquanto o primeiro escrevera o Evangelho.
            Todavia, uma das formas de interpretar a declaração de Papias é ver nela a presença de dois grupos de pessoas, com o nome João em cada grupo, mas com a instância de haver apenas uma pessoa com esse nome, mencionada duas vezes. As pessoas de ambos os grupos são chamadas de discípulos do Senhor. As do 1º grupo disseram, isto é, haviam vivido antes de Papias e anunciado as palavras de Jesus. As do 2º grupo dizem, isto é, viviam no tempo de Papias e anunciavam as palavras de Jesus. Se, como se acredita, o apóstolo João alcançou o final do 1° século, então Papias, que morreu em 163, foi seu contemporâneo, e pode tê-lo ouvido de viva voz. Neste caso, o apóstolo é tanto o 1º João citado como o 2º, com a diferença que, do corpo apostólico, ele era o único sobrevivente. Quanto a Aristion, não há qualquer outra referência, no Novo Testamento ou fora dele. Mas é significativo que, na declaração de Papias, Aristion não é chamado de presbítero, e sim João, o mesmo título aplicado aos apóstolos no 1º grupo. Não estaria Papias, então, se referindo a um apóstolo, ao mencionar pela 2ª vez o nome João?
            Alguns pensam também que João não poderia ter escrito o Apocalipse no fim do 1° século por ter sido morto muito antes pelos judeus, a exemplo do que aconteceu com o seu irmão Tiago (At 12:1, 2), o que teria cumprido a previsão de Jesus a respeito deles (Mr 10:38, 39). Mas isto não quer dizer que João haja morrido ao mesmo tempo de seu irmão. Vários anos depois do martírio de Tiago, João é mencionado por Paulo como sendo um dos baluartes da Igreja (Gl 1:9). Se por acaso ele também enfrentou o martírio, o que é improvável, seria bem mais tarde, pois o próprio Apocalipse dá a entender que no fim do 1° século os judeus ainda perseguiam os cristãos.
            A verdade, porém, é que não era necessário que João fosse martirizado para que as palavras de Jesus alcançassem cumprimento. O Salvador poderia perfeitamente estar se referindo à senda de sofrimento que os dois teriam pela frente, em contraposição ao pedido por grandeza feito por eles. Há ainda a se considerar as palavras de Jesus em Jo 21:22, “quero que ele permaneça até que Eu venha”, que, em contraste com o tipo de morte que Pedro enfrentaria (v. 19), podem significar que João não enfrentaria o martírio.
            Dionísio, bispo de Alexandria falecido em 265, também afirmou que o escritor do Apocalipse não poderia ter sido o apóstolo João, autor do quarto Evangelho, em vista da diferença de linguagem entre uma obra e outra. Muitas palavras empregadas com frequência por João no Evangelho, são raras ou mesmo omitidas no Apocalipse. O uso de sinônimos igualmente reforça essa posição. Exemplo: a palavra grega para cordeiro no Evangelho é amnós, enquanto que no Apocalipse é arníon.
            Devemos, todavia, lembrar que a natureza do assunto pode ter levado o escritor a empregar termos diferentes no Apocalipse face à necessidade de repetir ou combinar as afirmações de antigos profetas, considerando que os quadros do Antigo Testamento são predominantes no livro. As circunstâncias sob as quais o Apocalipse foi produzido devem ser igualmente levadas em conta. Foram bem menos favoráveis que aquelas sob as quais o Evangelho emergiu. O Apocalipse foi escrito sob condições adversas, na própria ilha de Patmos, palco das visões que proveram o seu conteúdo. Havia ali uma colônia penal e para lá o apóstolo fora enviado como prisioneiro. Vale lembrar também que, com respeito à composição do Evangelho, a tradição primitiva indica ter tido João a assistência de um secretário, o que também explicaria a diferença vocabular.
            Assim, a hipótese mais plausível aponta para o apóstolo João como o escritor do Apocalipse. Em minha próxima postagem veremos que sua experiência como seguidor de Cristo foi simplesmente maravilhosa. O exemplo que ele nos legou demonstra como a graça de Deus pode operar uma grandiosa transformação na vida daquele que a ela se rende.
 

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