sexta-feira, 14 de março de 2014

Shows cristãos: culto, entretenimento ou mundanismo?


Douglas Reis


No ano passado, grandes cidades brasileiras receberam a presença do cantor gospel David Phelps, em uma turnê pelo nosso país, que foi patrocinada por uma empresa que promove eventos, administrada por um adventista do sétimo dia. Além disso, a própria ADRA (Agência Adventista de Desenvolvimento de Recursos Assistenciais) recebeu alimentos doados à entrada de cada apresentação, e um pastor adventista participou do evento através de mensagens faladas.


Antes de Phelps tivemos a presença de outros nomes fortes da música evangélica cristã no Brasil: em 2005, Take Six e Michael Smith fizeram shows em São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, entre outras cidades. Isso sem contar a presença dos tenores Steve Green e Larnelle Harris, convidados de honra de dois aniversários do UNASP campus II (respectivamente, 10 e 15 anos). Isso nos leva a ter a certeza de que outros shows virão.


Mas seria adequado para o cristão envolver-se com esse tipo de evento? Quão válidos são os shows de artistas cristãos do ponto de vista espiritual? Ou seriam mero entretenimento? Este artigo tece algumas observações sobre os aspectos dos shows cristãos de uma forma geral, sem se ater à análise de um cantor ou grupo em especial. Alguns exemplos são citados como forma de elucidar cada ponto da argumentação. O principal é abrir a discussão sobre um fenômeno que recentemente tem se tornado parte da vida social dos adventistas do sétimo dia; contudo, apesar do foco denominacional, acreditamos que a abordagem favoreça o debate no contexto de outros grupos cristãos evangélicos.

CONSIDERAÇÕES CULTURAIS
É bom definirmos que, por show, nos referimos a uma apresentação artística. É isso que entendemos significar a palavra para a maioria dos brasileiros. sabemos que, em Inglês, show é um termo mais geral, que significa apresentação, não especificamente artística.

Cabe outra pergunta: em que os shows de cantores cristãos diferem do de intérpretes seculares, em questão de estilo musical, produção, figurino e ambiente? São vistas mais semelhanças ou contrastes no comparativo?

É notável que cantores cristãos se vestem e se apresentam de forma próxima aos padrões dos demais cantores pop. O próprio David Phelps frequentemente é visto usando jóias extravagantes. Como adventistas, acreditamos na orientação apostólica para não usarmos vestuário dispendioso e ornamento chamativo. (I Pedro 3:3). Como querer manter o princípio bíblico e passá-los aos jovens e adolescentes se os cantores cristãos que eles acompanham não seguem esses mesmos valores?

Também notamos que coreografias e danças fazem parte dos shows cristãos. Alguns cantores são acompanhados por bailarinos em suas apresentações. A maioria das igrejas protestantes não compartilha da admissão desse elemento em seus cultos. Alguns até poderiam argumentar que a bíblia menciona que Davi dançou diante da arca do Senhor e que isso seria válido em nossos dias. Notemos o que a escritora Ellen White afirma sobre o assunto:

"A dança de Davi em júbilo reverente, perante Deus, tem sido citada pelos amantes dos prazeres para justificarem as danças modernas da moda; mas não há base para tal argumento. Em nosso tempo a dança está associada com a extravagância e as orgias noturnas. A saúde e a moral são sacrificadas ao prazer. Para os que freqüentam os bailes, Deus não é objeto de meditação e reverência; sentir-se-ia estarem a oração e o cântico de louvor deslocados, na assembléia deles.


"Esta prova deve ser decisiva. Diversões que tendem a enfraquecer o amor pelas coisas sagradas e diminuir nossa alegria no serviço de Deus, não devem ser procuradas por cristãos. A música e dança, em jubiloso louvor a Deus, por ocasião da mudança da arca, não tinham a mais pálida semelhança com a dissipação da dança moderna. A primeira tendia à lembrança de Deus, e exaltava Seu santo nome. A última é um ardil de Satanás para fazer os homens se esquecerem de Deus e O desonrarem." (Patriarcas e Profetas, pp.313 e 314.)
Dada a diferença entre a espontânea e inocente coerografia do rei-salmista com a prática sensual em que se tornou a dança, não podemos torná-la uma prática livremente aceitável.

Para mim, o mais curioso é que as músicas de maioria de artistas cristãos poderia ser incluída dentro do gênero pop, ou seja, música altamente comercial, do mesmo tipo que se ouve nas FMs seculares.

O próprio Bill Gaither, no último DVD lançado pelo seu badalado quarteto "The Gaither Vocal Band" fez uma confissão curiosa: o compositor Kim Willians, que havia feito trabalhos com cantores do country music americana ( como Reba Mcentire, George Jones e Garth Brooks, entre outros), compôs uma das faixas gravadas no DVD em questão, em parceria com Benjamim Gaither, filho de Bill. A música "The Love can turning the World", é bem "soft", falando de temas gerais, como amor, aceitação, e mencionando muito pouco Jesus. Não se poderia esperar uma jóia espiritual proveniente de um compositor secular!

Não apenas o estilo é secular, mas, em muitos casos, parte do repertório também! Em um mega-show patrocinado pela Sociedade Bíblica Americana, o extinto quarteto 4 Him, em determinado momento, cantou um dos sucessos do grupo Bee Gees.

Aqui no Brasil temos muitos exemplos e extraídos de adventistas do sétimo dia! A cantora Tatiana Costa lançou seu CD/DVD intitulado "Faça a Diferença". Num dueto com o cantor Leonardo Gonçalves, eles regravam um dos sucessos da canadense Celine Dion. Até no clip da música em questão, "Sou seu anjo", Tatiana se veste de branco, como a própria Celine no vídeo original. Fica difícil fazer a diferença quando se tenta ser igual...

Outra cantora adventista, a conhecida Alessandra Samadello, foi pivô de uma polêmica quando compareceu no programa da apresentadora Hebe Camargo e, sem qualquer menção ao fato de ser cristã, começou a cantar música popular brasileira, na tentativa de promover um show que faria em São Paulo.

O maior perigo, no entanto, é que o show se centralize na pessoa do artista, ou em algum traço de sua pessoa, como carisma, técnica vocal, etc. Isto significa que o louvor está sendo dado a homens e Deus vem a ser roubado de Sua glória. O Senhor não divide o palco com ninguém - ou Lhe damos todo o louvor ou Ele fica sem louvor nenhum!

Pelos aspectos que acabamos de ver, fica claro que shows cristãos, do ponto de vista cultural, não diferem de forma significativa de shows seculares e muito menos se pautam pelos padrões bíblicos de conduta ou adoração. Ainda assim, queremos analisar o assunto da adoração de forma separada.

LENÇO NA MÃO E PRÓXIMO DE DEUS
Uma amiga minha compareceu ao show de Michael Smith e disse que a apresentação a elevou espiritualmente. Desde que se voltou para o gênero de "Worships" (hinos curtos, de estrutura musical pobre e bem emocionais), Michael se tornou uma referência internacional. Ele e cantores de worship influenciam do Ministério Diante do Trono ao Ministério de Louvor do Pr. Fernando Iglesias. 

Minha esposa me relatou recentemente que, ao ouvir as músicas do DVD comemorativo de 20 anos de louvor de Luís Cláudio reconheceu não apenas as mesmas músicas de Michel Smith, mas o mesmo clima emocional, com direito a aleluias e palmas.

Sem percebermos, os shows de artistas evangélicos influenciam os nossos e, por tabela, a forma de nossos cantores se apresentarem dentro de nossas igrejas. Porém, temos nos esquecido de que a forma de adorar a Deus tem que ver com o entendimento que temos de Sua pessoa. Uma adoração emocional não reflete a santidade do Deus da Bíblia. Não quero dizer que a adoração tenha que ser "fria", apenas racional; mas tem de haver respeito à Pessoa Divina. Sairmos emocionados de um show não implica em um encontro real com Deus. Nossas emoções nunca foram base segura para medir nossa comunhão com Deus (Jeremias 17:3, I João 3:20).

Ainda assim, alguns pensam que essa forma de programa possa servir para atrair não-cristãos para Deus. Será?

A ISCA CERTA
Se uma pessoa "curte" rock, axé, samba, tecno, pop, hip-hop, não seria mais lógico atraí-la para Cristo colocando uma letra cristã no gênero musical de sua preferência?

Por mais razoável que isso soe, trata-se, em verdade, de uma inversão de valores. Primeiro porque a música no culto tem a função principal de expressar nossa adoração a Deus, tendo, portanto, de estar fundamentada naquilo que agrada ao Senhor (expressando sentimentos como reverência, entrega, submissão, paz, etc). Qualquer influência de ritmos seculares compromete a adoração e não pode servir para uma atuação ideal do Espírito (uso o adjetivo "ideal" porque muitas vezes o Espírito até pode usar algo que fuja do ideal para a Sua glória, sem que essa ressalva anule o princípio).

Note, porém, que quando a adoração é praticada de forma ideal os descrentes são, conseqüentemente influenciados:

"Vi que todos devem cantar com o espírito e com o entendimento também. Deus não Se agrada de algaravia e dissonância. O correto é sempre mais agradável a Ele que o errado. E quanto mais perto o povo de Deus se puder aproximar do canto correto, harmonioso, tanto mais é Ele glorificado, a igreja beneficiada e os incrédulos favoravelmente impressionados." (Evangelismo, p. 508, grifos meus).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em nenhum lugar da Bíblia ou do Espírito de Profecia os cristãos são proibidos de realizarem programas musicais fora do contexto de uma igreja local, como num anfiteatro ou ginásio, por exemplo; agora, tendo visto o que apresentamos acima, devem ser feitas as devidas considerações sobre o caráter do evento para que o nome de nosso Salvador não seja desonrado. Devemos igualmente julgar o ambiente, caráter e produção das apresentações ditas "gospel" antes de, inadvertidamente, comprarmos o ingresso. Temos de ter sabedoria, porque, a medida em que o tempo avança, mais Satanás trabalha para misturar sentimentos mundanas com as práticas do verdadeiro cristianismo.


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