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domingo, 3 de março de 2013

O mundo é dos mansos


CRISTIANE SEGATTO - 

Que tal rever o seu conceito de sucesso?
CRISTIANE SEGATTO
CRISTIANE SEGATTO  Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 15 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismo. Para falar com ela, o e-mail de contato é cristianes@edglobo. (Foto: ÉPOCA)
O título desta coluna é uma adaptação livre de uma frase bíblica. Acho que ela é bastante apropriada aos nossos tempos. Seja você religioso ou não. Tanta competição nas empresas, tantas demandas de consumo, tanta violência nas ruas nos levam a acreditar que os vencedores são sempre os prepotentes e os agressivos.
Faz bem ao corpo e à alma refletir sobre o conceito de sucesso. Estamos correndo atrás de quê? Para quê? À custa de quê? Boa parte do trabalho do cardiologista Cláudio Domênico, membro da Sociedade Europeia de Cardiologia, é conduzir os pacientes a essa reflexão. Parece simples, pouco tecnológico, mas o resultado costuma ser transformador.
Domênico é um médico da alta roda. No consultório de Ipanema atende gente acostumada ao sucesso profissional. Muitos são famosos, como Luiz Fernando Pezão, vice-governador do Rio, o jornalista Zuenir Ventura, a atriz Mariana Ximenez, a produtora cultural Flora Gil, entre outros.
No consultório de Domênico, boa parte dos pacientes é um prodígio no aspecto “pessoa jurídica” e um fracasso no lado “pessoa física”. Eles têm dinheiro, sucesso, prestígio e, ao mesmo tempo, uma vida miserável. Não dormem, comem mal, são sedentários, incapazes de manter relações amorosas satisfatórias, abusam da bebida, reclamam de mil sintomas.
Isso é vencer na vida? Se for, prefiro o sabor do fracasso.
Uma das almas resgatadas por Domênico conseguiu perceber isso a tempo. O rapaz de 35 anos, empresário muito bem-sucedido, chegou ao consultório há três anos. Despejou sobre a mesa uma sacola de exames. Todos normais, mas o moço tinha certeza de que estava à beira de um infarto. Aquele aperto no peito, aquelas pontadas constantes não poderiam ser normais.
Realmente não eram. Depois de muita conversa, depois de muita escuta, Domênico percebeu que o prodígio profissional estava num abismo emocional. A produtividade no trabalho já não era a mesma, o casamento acabara, o álcool virou o companheiro de todas as horas. O diagnóstico: síndrome do pânico. O tratamento: ansiolítico, psicoterapia e mudança de vida.
Hoje o rapaz é outro. Corre oito quilômetros por dia, faz academia, come bem, encontrou outra mulher, tem uma filhinha linda. Continua no auge profissional, mas conseguiu dar a cada área da vida o seu devido valor. Volta e meia, vai ao consultório levando um novo paciente. Paga a primeira consulta dos amigos, uma forma simbólica de estender a mão a quem está no fundo do poço.
“Não fiz nada demais por esse rapaz. Apenas o escutei”, diz Domênico, um mineiro de Governador Valadares, conhecido pelo interesse genuíno por um dedo de prosa. Domênico é um médico à moda antiga. Muito da sabedoria e da leveza que ele tenta transmitir aos pacientes foi reunida no livro Te cuida! Guia para uma vida saudável, um lançamento da Editora Casa da Palavra (192 páginas, R$ 39,90).
É uma leitura agradável, com dicas práticas e valiosas sobre hábitos saudáveis e prevenção. Domênico recorreu a especialistas de várias áreas. Conseguiu produzir um livro tecnicamente correto e, ao mesmo tempo, saboroso.
O capítulo que eu mais gosto é o que trata da serenidade, artigo tão em falta atualmente. Na prática, conta Domênico, pessoas mais serenas, calmas, costumam adoecer menos. São indivíduos que tomam decisões com bom senso, se deixam tocar e têm mais facilidade para mudar atitudes e hábitos. “Essa mansidão, essa tranquilidade, pode ser cultivada e exercitada”, escreve.
É o caso de várias práticas orientais que, até pouco tempo, eram vistas com descrédito por boa parte dos médicos. Respirar de forma lenta, meditar, falar e comer pausadamente, não elevar o tom de voz. Todas essas medidas estão, de certa forma, relacionadas a um estilo de vida mais sereno que ajuda a enfrentar os problemas do mundo em que vivemos.
Um dos principais interlocutores de Domênico quando ele quer filosofar sobre serenidade é padre Jorjão, da Paróquia Nossa Senhora da Paz, outro de seus pacientes. Para quem não o conhece, padre Jorjão é uma curiosa figura que promove luaus na praia e usa iPad e smartphones para ler os salmos nas missas.
Depois de tanta conversa, leitura e experiência, o médico está convencido de que no meio de toda essa loucura, são os calmos que sobrevivem. São os serenos que melhor conseguem unir saúde, realização profissional e felicidades.
É difícil? Claro que é. É impossível? Claro que não. É possível treinar um novo olhar? Felizmente, sim. Domênico não perde a chance de dizer isso. Acho que vale a pena repetir: “O mundo é dos mansos”.
O que você acha? Conte pra gente. Queremos ouvir sua opinião e sua história.
(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras) Fonte Revista Época

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